Fiasco da semana: o musical “Nine”.

Esta última semana foi muito produtiva em questão de saldo de filmes assistidos no cinema.

Terça, vi “Amor sem escalas” e “Passion”, da mostra do Godard. Quarta vi “Nine”. Quinta vi “Onde vivem os monstros” e “Só 10 por cento é mentira”. E sexta, na Maratona do Odeon, assisti “A Fita branca”, “O mensageiro” e “Entre irmãos”.

De todos estes, o único que realmente me deixou quase triste de tão ruim foi “Nine”. Todos os outros valeram a pena, excederam minhas expectativas ou me deslumbraram.

Já comentei sobre “Amor sem escalas”. Foi um filme bem realizado, careta até certo ponto, previsível em termos de roteiro e por isso mesmo, talvez, um pouco preguiçoso. Mas que diverte, distrai e conta com atuações excelentes, além de uma trilha sonora envolvente.

Passion, de Godard, ainda é um mistério pra mim. Como muitos de seus filmes, principalmente dos anos 80, passa um tempo sendo digerido pelo corpo e mente do espectador. Lindo, fotograficamente falando. Uma das personagens de Isabelle Hupert que mais gostei. Um conflito constante entre burguesia e classe trabalhadora. Uma discussão sobre a imagem fílmica e a pintura e um questionamento sobre a real necessidade de uma história para se fazer um filme.

Vamos para o próximo, a grande decepção da semana.

Logo antes de entrar na sala do Arteplex, encontrei um amigo da UFF, que ingenuamente disse ter vontade de ver o filme e resolveu ir comigo. Pobre rapaz…. Até me desculpei depois.

Falando como uma pessoa que adora musicais, mas que já não havia apreciado muito o longa prévio do diretor Rob Marshall, “Chicago”, “Nine”, inspirado numa das obras primas de Fellini, “Oito e meio” é uma grande seqüência de terríveis números musicais sobrepostos numa linha narrativa fraca.

Minha irritação começa na longa abertura com fundo musical instrumental, onde nos são apresentadas todas as mulheres da vida de Guido, protagonizado por Daniel Day Lewis. Momento teatral demais para a adaptação e prévia do tédio pelo qual passaremos. Daí segue pela escolha de diálogos em inglês com sotaque italiano.

O roteiro se concentra apenas em duas grandes questões da vida de Guido: suas dificuldades de realizar o próximo filme, por falta de inspiração ou pela pressão que está sofrendo depois de dirigir dois fracassos e suas mulheres. Tendo em vista a quantidade de mulheres da apresentação, pode-se deduzir que este segundo ponto será dominante.  Infelizmente, as relações com sua mulher, suas amantes e seus amores platônicos não são mostradas com a riqueza de sentidos que urgiam. Ao invés disso, temos sempre uma visão superficial desses seus amores, que são esvaziados e estreitados em uma visão de traição e desonestidade.

Desde o primeiro momento, entendemos que seu “problema” é querer tudo. Quer ser o famoso diretor e não ser reconhecido nas ruas, quer sua mulher e todas as outras, etc. E o filme fala de um momento de reflexão, em que percebe que está envelhecendo e que suas decisões possuem conseqüências, das quais não poderá fugir para sempre.

A história nem é o grande problema, apesar de fraca e inconsistente. E sim o fato desta ser sustentada por números musicais tediosos. Quando se vê um musical, espera-se que as canções, as letras, as melodias sejam ótimas! E neste caso, o que temos são atrizes famosas, todas lindas, com vozes razoáveis, cantando músicas com letras literais até dizer chega (parecia que elas inventavam o que iam cantar na hora), sem nenhuma sensibilidade poética, em suas melodias esquecíveis e números espalhafatosos cheios de coreografias.

Desses intermináveis 118 minutos, há alguns bons momentos, como a última canção de Marion Cottillard, o carisma de Daniel Day Lewis e a deslumbrante Penélope Cruz, cada vez mais talentosa que quase te fazem sorrir. Mas no geral, infelizmente, é um desperdício de tempo e dinheiro.