Este ofício de escrever

Todo ofício é uma fonte contínua de ensinamentos. O de escrever, obviamente, não foge à regra. Tem vezes que o que nos ensina, é o comentário de um leitor inconsequente ou agressivo, incompreensivo, que entende o avesso do que temos dito. Este foi o caso, recentemente, a respeito de um texto meu chamado Atitudes positivas, publicado nos Debates Culturais. O incômodo provocado pelos comentários levianos de um leitor, me fez pensar muito, e ainda estou pensando. Creio que isto de aprender trabalhando, ou aprender com o que os nossos textos despertam nas pessoas, é muito interessante.

Tenho colhido verdadeiras pérolas, de leitoras e leitores que se sentem animados e estimulados a se auto-conhecerem em profundidade, outros que descobrem coisas de si ao lerem meus artigos. E este leitor que me agride ao dizer que eu deveria assumir uma posição — o que não sei o que possa querer dizer — me leva a pensar que devo continuar aprendendo; este ofício ensina muitas coisas, e um comentário desrespeitoso pode se rum sinal de que devo me voltar com mais atenção para a forma como encaro a diferença, como sou capaz de conviver ou não com as pessoas que não pensam como eu. Um aprendizado, aliás, contínuo, em qualquer condição de vida e circunstância.

Neste caso, não posso deixar de partilhar com os leitores, uma certa alegria, pois na reflexão sobre a atitude deste leitor intempestivo e impertinente, pude ver que ainda me falta muito, ainda tenho muito a seguir aprendendo. E vi o que vejo agora: uma conjunção de cubos que se empilham e formam uma torre, num chão xadrez. Aprendi a não subestimar os meus leitores, a não pensar que deveria adaptar a minha linguagem a uma espécie de leitor padrão que não iria compreender algumas coisas. Não é assim.

O exercício do diálogo vem me ensinando que quanto mais transparente eu for, quanto mais eu for capaz de dizer as coisas como as vejo e sinto, mais estou na linha do dialogo construtivo e fecundo, aquele que constrói e reconstrói a vida permanentemente. Obviamente haveria muito mais a dizer. Afinal, são já muitos anos neste ofício. É como que uma trincheira de paz, um porto, um lugar de encontro e de refazimento, este ofício de escrever.