‘Estamos preparados para ficar por bem ou por mal’, diz Guarani Kaiowá, por Paula Vitorino

TERRA. É em uma área praticamente isolada, com rio de um lado e brejo do outro, em cerca de um hectare, que um grupo de aproximadamente 170 indígenas da etnia Guarani Kaiowá sobrevive e luta para reconquistar a terra da qual afirmam terem sido expulsos e que formava a antiga aldeia Pyelito Kue, no município de Iguatemi, região sul de Mato Grosso do Sul. Há quase um ano, crianças, jovens, adultos e idosos estão acampados em uma área de preservação ambiental da fazenda Cambará, às margens do rio Hovy.

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A saga dos índios ganhou repercussão internacional após a divulgação de uma carta em que dizem só sair do local mortos, em resposta a ordem de reintegração de posse. Interpretado como anúncio de “suicídio coletivo”, o conteúdo mobilizou diversos grupos da sociedade civil e ganhou as redes sociais, pressionando a Justiça a determinar a permanência do grupo na área até que seja concluída a demarcação de terra indígena na região – os trabalhos foram retomados após anos.

As lideranças logo esclarecem que não pretendem cometer suicídio, mas lutar pela terra até o fim e, se preciso, morrer por ela. “Nossa intenção não é suicídio. O que dizemos é que estamos aqui e se vierem brigar estamos dispostos a morrer por essa terra”, esclarece Lide Solano, 44 anos, que é apontado como um dos líderes provisórios do grupo, já que o comando ainda não foi eleito e por isso eles não aceitam que alguém seja chamado de líder.

Com parte do corpo pintado e o rosto sério, o indígena Ademir Riquelme, 22 anos, faz questão de deixar claro que não existe segundo plano ou outra casa além da Pyelito Kue. “A gente jamais vai sair daqui. Estamos preparados para ficar por bem ou por mal”, avisa. Solano garante que o grupo vai obedecer à determinação judicial de não ultrapassar a área de um hectare ocupada até que seja concluída a demarcação indígena. No entanto, diz que a intenção do grupo é ir para “terra seca”, onde o grupo saia do isolamento de água, e se aproxime do antigo local da Pyelito Kue.

Tekoha

A tekoha, como é chamada a terra tradicional, é o sonho dos que estão no acampamento. Para os mais antigos, que afirmam ter vivido na terra, participar da ocupação é a esperança de voltar para casa; para os jovens, é garantir a tradição passada de geração em geração.
Segundo os indígenas, a Pyelito Kue ficava na região onde hoje é a fazenda Santa Rita – próxima ao atual acampamento -, local onde os índios ficaram acampados até serem atacados por pistoleiros em agosto do ano passado. “Não foi ninguém que deu ideia pra gente. Somos nós, o povo, que queremos a nossa terra”, diz Solano sobre as especulações de que o movimento do grupo teria sido incitado por entidades públicas e não governamentais.

“Estou aqui pelo sonho de voltar para casa”, diz a índia mais velha do acampamento, mãe de Solano, Adélia Lopes, 61 anos. Com sorriso tímido e constante, a indígena lembra que morou na Pyelito até a adolescência. Na batalha em busca da terra, o jovem Aemir, que é auxiliar de pajé, diz que durante toda a ação conversa com Inhassã, que ele logo explica ser o deus deles. Dentro de uma das bacanas, ele diz que faz o ritual de conversa: chocalho na mão, cocar e a ajuda da música gravada em um som portátil.

Entre os indígenas que formam o grupo, existem diversas famílias e ex-moradores de distintas aldeias da região. A explicação para a união de indígenas que nem se conheciam, mas que garantem ter ancestrais em comum que viveram na Pyelito Kue, pode estar na dispersão dos povos após a retirada dos índios da tekoha. “Os mais antigos contam que quando os fazendeiros tiraram nosso povo da tekoha foi cada um pra um lado. Alguns nem ficaram mais em aldeias”, conta Ademir, que diz ter sido criado em fazendas onde o pai foi trabalhar depois de sair da terra.

Sobrevivência

Desde novembro do ano passado, quando invadiu a fazenda Cambará, o grupo vive acampado em barracos feitos de lona, pedaços de madeira e palha. Apesar da sombra que as árvores proporcionam, o calor é intenso por conta da lona e do fogão de palha. Os índios sobrevivem de alimentos fornecido pela Funai (Fundação Nacional do Índio) quinzenalmente. A entrega é feita pela porteira da fazenda, a cerca de 3 km do acampamento.

O único acesso sem invadir a propriedade é cortando a aldeia Sassoró, andar alguns metros em uma trilha no mato e, por fim, atravessar o rio Hovy, com cerca de 15 metros de largura e 1,70m de profundidade no local. Uma cerca de arame liga as duas extremidades para ajudar na travessia com a forte correnteza. Para as crianças, de cara pintada com tinta extraída de uma das árvores, a vida na beira do rio é uma eterna brincadeira.

Na avaliação dos indígenas, a convivência no local é “tranquila” se comparada a outros acampamentos. Desde 2009 o grupo sofreu três ataques. Desde o dia 30 de outubro a Força Nacional está no local para garantir a segurança do lado dos fazendeiros e dos índios. Até o momento não foi necessária qualquer intervenção.

A Funai iniciou em meados de outubro, após portaria publicada no Diário Oficial da União, levantamento sobre as áreas reivindicadas como indígenas na região sul do Estado. Não existe definição sobre a área total da Pyelito Kue em Iguatemi. O grupo técnico da Funai deve concluir o levantamento nas próximas semanas, mas os dados ainda precisam ser juntados com estudos de antropólogos e outras análises. Pode levar anos até o final da homologação e demarcação da terra indígena.

E depois?

Na disputa pelas terras, um dos questionamentos que mais pesa contra os indígenas é o mau aproveitamento das áreas que já são demarcadas. Na aldeia vizinha à área invadida pelo grupo da Pyelito Kue, a sabedoria de um indígena Guarani Kaiowá, de 81 anos, ensina que “quem não planta na sua terra não colhe”.

Ele mora na aldeia Sassoró, no município de Tacuru, que faz divisa com rio Hovy, e diz ter morado na tekoha que hoje é disputada. “Vieram os fazendeiros e expulsaram os índios”, conta. Mas ele também lembra que muita coisa mudou de lá para cá, principalmente os costumes dos “índios moços”. “Índio novo não quer mais trabalhar na sua terra e por isso não tem o que colher”, diz com firmeza, sentado na varanda do humilde barraco, com a numerosa família ao lado.
Na aldeia Sassoró, com 2,8 mil índios, a grande parte da terra não tem nenhum cultivo. Seo Ambrósio pondera que a maior parcela de culpa é da própria terra, arenosa, que não permite o cultivo dos alimentos sem o adequado preparo. Mas ele ensina que quando o povo voltar para a tekoha, sobre a qual recorda ter uma terra boa, o índio precisa trabalhar e produzir na sua casa. “Vai trabalhar fora, nas usinas, fazendas, e não tem tempo para trabalhar na sua terra. Primeiro planta na sua terra para depois, se quiser, ir trabalhar fora”, professa.

Com a autoridade que a idade lhe dá, ele aponta o outro mal que atinge as aldeias atualmente: o vício. “O moço agora quer saber de beber e arrumar briga. Naquela época não tinha a bebida, só tinha a chicha”, lembra, explicando que a bebida era preparada com a mandioca socada no pilão.

No grupo da área invadida, Solano garante que, por enquanto, a droga não chegou. “Não tem isso lá, ainda. Mas já falamos também que se aparecer com isso vai ter que ir embora”, decreta.

Fonte: Terra

Este trecho gera discussões sobre as reais intenções dos “índios” da região!

“Na aldeia Sassoró, com 2,8 mil índios, a grande parte da terra não tem nenhum cultivo. Seo Ambrósio pondera que a maior parcela de culpa é da própria terra, arenosa, que não permite o cultivo dos alimentos sem o adequado preparo. Mas ele ensina que quando o povo voltar para a tekoha, sobre a qual recorda ter uma terra boa, o índio precisa trabalhar e produzir na sua casa. “Vai trabalhar fora, nas usinas, fazendas, e não tem tempo para trabalhar na sua terra. Primeiro planta na sua terra para depois, se quiser, ir trabalhar fora”, professa.”

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