Estados Unidos por Isaac Bigio (2004)

Desigualdades se evidenciam no Natal

LONDRES, 24/12/2004. Em vésperas de Natal Blair visitou o Iraque. Vários parlamentares britânicos acreditavam que o presente que ele traria às suas tropas seria prepará-las para ficar ali por mais 10 a 15 anos.

Com todos os bilhões de dólares que custou essa guerra, bastaria para dar-lhe a cada faminto do mundo ao menos uma suculenta cesta natalina. Mas, nestas festas, eles seguirão morrendo de fome, AIDS, diarréia e outras pragas curáveis em número 10 vezes maior ao das vítimas de todos os atentados executados por Bin Laden contra Ocidente.

O Reino Unido sequer dá ajuda aos países subdesenvolvidos o valor que a sua população gasta em cosméticos. O valor gasto por uma família londrina na ceia natalina é mais alto que o saldo de um maestro boliviano ou o rendimento anual por cada etíope.

Os Estados Unidos é o país rico que menos ajuda as nações pobres. As potências que exportaram a mensagem cristã ao resto do mundo têm outros interesses antes que o de promover a ajuda ao próximo. Tradução: Pepe Chaves

Revoluções à la Bush

LONDRES, 18/12/2004. Depois de tomarem o poder na Rússia, em 1917, os bolcheviques promoveram partidos comunistas que organizassem “conselhos, milícias, insurreições e ditaduras proletárias”.

Sete décadas depois, Washington promove suas próprias “revoluções”, contrárias às dos comunistas. Seus métodos e objetivos são antagônicos. O Ocidente busca capitalizar o descontentamento popular frente ao despotismo da “oligarquia vermelha” para promover o retorno à democracia representativa e das empresas privadas. Os sindicatos, que no Ocidente encabeçam as rebeliões, no Oriente, como se vê na Ucrânia, podem se colocar na defensiva – temendo que se busque fechar empresas.

O que vem acontecendo na Ucrânia e Geórgia é a continuação da estratégia que os Estados Unidos vem adotando de promover protestos para debilitar Moscou e fazer uma liberalização política e econômica de acordo com seus interesses. Os remanescentes do sistema anterior têm dificuldades de resistir por que carecem de um modelo alternativo sólido.

USA ante a nova USA

LONDRES, 11/12/2004. A formação da nova União Sul-Americana gera atitudes vistas também na antiga USA (United States of America). Washington quer que as Américas se unam numa zona de livre comércio.

A América Latina reclama de que Washington pede a anulação das tarifas alfandegárias e leis que favoreçam as exportações e investimentos norte-americanos. Mas os EUA não eliminam o protecionismo às exportações e barreiras aos imigrantes latinos.

Bush vê com simpatia o esforço de Lula de “moderar” a Venezuela, a guerrilha colombiana e a esquerda mundial. Quer que a “nova USA” seja um degrau para a Alca.

Não quer, no entanto, um bloco econômico sólido, que lhe faça contrapeso no Sul. Seguirá promovendo relações comerciais bilaterais com os países da região. Defenderá o caminho colombiano (de vínculos estreitos com Washington) frente ao venezuelano.

Bush quer o globo unido sob sua hegemonia. A questão está em saber como China, Índia, Europa e América do Sul se mobilizarão por um mundo menos unipolar.

Depois de Powell

LONDRES, 25/11/2004. Condi’ Rice substituiu Collin Powell na Secretaria de Estado dos Estados Unidos. Muitos percebem este fato como um triunfo neo-conservador sobre a voz mais moderada da equipe de Bush.

Powell nunca teve muito poder e apoiou a invasão do Iraque. Bush decidiu manter uma pessoa de cor para dar uma imagem multirracial a suas relações exteriores. A nomeação de Rice pode ser entendida como um giro mais à direita, ainda que também configure um vínculo melhor entre o presidente e a chancelaria.

Devido à estreita união entre Bush e Rice, é possível que não se repitam tantas desavenças públicas e a administração tenha um porta-voz capaz de combinar os pontos de vista belicosos do mandatário com uma maior flexibilidade. Esta característica será necessária a Bush, já que anseia que em seus últimos 4 anos se ‘pacifique’ o Oriente Médio, estabeleça-se um Estado palestino e se melhorem as relações com a Europa.

Lula e Bush

LONDRES, 24/11/2004. Os presidentes das repúblicas americanas mais povoadas, embora em posições políticas opostas, mantêm uma relação simbiótica.

A família Bush tem muito dinheiro e poder e o presidente George Bush é visto como o porta-voz das multinacionais e o mandatário mais conservador e militarista que os Estados Unidos teve nos últimos anos.

Lula é o primeiro operário sul-americano eleito presidente e se tornou conhecido organizando greves e promovendo a luta de classes, a revolução e o socialismo.

Hoje, Lula incentiva o capitalismo e o investimento privado. Bush aprecia a mudança, assim como as intenções do presidente brasileiro de apaziguar os conflitos na Venezuela e a guerrilha colombiana e em fazer a esquerda latino-americana melhorar suas relações com o FMI.

Lula, mesmo sendo contrário à guerra iraquiana, preferiu Bush a Kerry. O governo brasileiro temia que o candidato democrata colocasse mais restrições às exportações brasileiras para os EUA.

Vitórias vermelhas

LONDRES, 12/11/2004. América do Sul e Estados Unidos marcham em direções eleitorais opostas. Enquanto os partidos de centro-esquerda ganharam a presidência do Uruguai e as eleições locais da Venezuela, Brasil e Chile, a direita dura retornou contundentemente à Casa Branca.

Paradoxalmente, todas as forças que triunfaram usaram insígnias vermelhas. Os primeiros devido a influências socialistas. Os segundos identificam essa cor aos republicanos frente ao azul democrata.

Bush não só vem dividindo seu próprio país como também as Américas. Enquanto ao norte do Rio Grande vencem os partidários do conservadorismo social, maior intervenção militar no exterior e menor intervenção estatal na economia, ao sul de tal fronteira crescem os inimigos do conservadorismo, que pedem o fim das guerras norte-americanas e plantam uma maior participação estatal na economia.

A esquerda sul-americana tem abandonado posições revolucionárias anti-EUA. Se Bush persistir em seus extremismos poderia ocasionar a revitalização de setores da esquerda anti-capitalista.

Bush-Clinton-Bush-Clinton-Bush?

LONDRES, 9/11/2004. De 1980 a 1992, George Bush pai esteve na Casa Branca (nos primeiros 8 anos como vice-presidente de Reagan e, nos últimos 4, como presidente). Ele foi substituído por Clinton, que em 2000 deixou o cargo ao filho de Bush, George W.

Com a derrota de Kerry, Hillary Clinton está sendo apontada como a candidata democrata para 2008. Se ganhasse, poderia ficar no governo até 2016.

George P. Bush (filho de uma latina com Jeb, o governador da Florida, irmão do atual presidente Bush) vem se preparando para disputar o poder. Em 2016 ele poderia tentar ocupar a presidência até 2024.

Se isso acontecesse, a superpotência que rege o mundo estaria não só sob o comando de dois partidos similares, como também de duas famílias, numa espécie de ‘monarquia dual alternada’. A primeira mulher ou o primeiro latino a chegar à Casa Branca poderiam provir destas dinastias.

Por que Kerry perdeu?

LONDRES, 5/11/2004. Bush venceu entrincheirando-se no medo, no tradicionalismo e nos homens anglo-saxãos. Kerry não conseguiu mobilizar muitos setores de jovens, desempregados e minorias que geralmente se abstêm, por considerar que todos os candidatos são o mesmo.

Os democratas ganharam o voto latino, mas diminuíram seu peso nessa comunidade. Não pediram igualdade e anistia aos imigrantes. Kerry convenceu aos mais excluídos. Por quê? Seu discurso, tentando adaptar-se a diversas audiências, terminou mostrando-o como um eclético.

Esteve a favor e contra a invasão do Iraque. Criticava Bush pela guerra mas reivindicava atacar unilateralmente e pedia que não se retirasse tropas de nenhuma base no mundo. Estava a favor de uniões sexuais gays mas contra o matrimônio homossexual. Queria aparecer como um semi-republicano, mas sua ‘moderação’ não apaixonava.

Kerry não foi nem ‘cherry’ nem ‘currie’. Perdeu por anódino e inconsistente: por não ser doce nem picante.

Por que Bush ganhou?

LONDRES, 3/11/2004. Bush perdeu entre as mulheres, latinos, negros, asiáticos e gays. O mundo está contra ele. A guerra no Iraque se mostra cada vez mais complicada e têm aparecido evidências de que foi feita com provas falsas. Nas últimas 7 décadas, o desemprego nunca havia crescido tanto. Bush perdeu os 3 debates presidenciais.

Apesar disso, conseguiu 51% dos votos, além de um número maior do que ele mesmo ou Clinton obtiveram antes. Por quê? O forte do presidente é que ele cavalga sobre uma onda patriota que argumenta que os EUA só estará a salvo de novos 11 de Setembros atacando preventivamente, estando sempre na ofensiva. Isso vai ao encontro de uma hostilidade conservadora que Bush patrocina contra os direitos gays.

O vídeo de Osama, como previmos, favoreceu Bush. A constante paranóia anti-terrorista é a arma que falcões como Bush, Putin, Sharon ou Fujimori têm usado para legitimar-se. Kerry não soube resistir a esta tática.

Bombardeios “democratizantes”

LONDRES, 2/11/2004. Quantos civis foram mortos no Iraque desde março de 2003? A imprensa cita números em torno de dez a quinze mil pessoas. Sem embargo, uma prestigiada fonte médica calcula que tal quantidade poderia elevar-se a 100 ou 200 mil mortos. Ademais, nos doze anos anteriores ao bloqueio econômico morreram mais de um milhão de inocentes iraquianos.

Este número de baixa mostra que a pior arma de destruição massiva empregada no Iraque não foi lançada por Hussein. Se o ditador tivesse sido derrotado por seu próprio povo (como quase aconteceu em 1991) muitas destas tragédias poderiam ter sido evitadas. Pois então, Bush pai preferiu que Saddam crucificasse o levantamento xiíta e curdos, a arriscar que uma revolução desestabilizasse a zona.

Os bombardeios ‘democratizantes’ podem terminar repercutindo contra Washington. Estes tem gerado mais matanças que o ditador deposto, desacreditam os EE.UU. e, ao final, alimentam o crescimento da resistência anti-ocidental.

Halloween

LONDRES, 2/11/2004. No dia das bruxas se realizaram eleições no Brasil e no Uruguai. Dois dias depois, é a vez dos Estados Unidos. Enquanto no Halloween as crianças se vestem de monstros, buscando assustar aos demais, nos seus comícios os candidatos se disfarçam com trajes de seus adversários, tentando não assustar o eleitorado.

Os esquerdistas Lula e Tabaré Vásquez se cercam de empresários e de assessores econômicos que tranqüilizam o mercado. A centro-direita brasileira (‘tucanos’) se auto-proclama ‘social-democrata’ e os conservadores uruguaios (‘blancos’) chamaram o voto contra a privatização da água na votação deste domingo (31 de outubro).

Kerry quer aparecer como um campeão do patriotismo, que supera Bush pedindo mais eficácia na luta anti-terrorista. E apesar de seu discurso fundamentalista-cristão, Bush agora diz que pode aceitar uniões homossexuais.

Estes jogos, que podem angariar novos votos, podem também espantar setores de suas próprias bases, alentando dissidentes que querem retomar as posições originais.

A marcha anti-guerra

LONDRES, 30/10/2004. A apenas quinze dias das eleições presidenciais norte-americanas, mais de 100 mil pessoas sairam às ruas de Londres, a capital do maior aliado dos EUA, em uma manifestação contra Bush que também exigia a retirada das tropas britânicas do Iraque.

Com esta manifestação culminou o Fórum Social Europeu, que foi promovido pela prefeitura londrina e que reuniu cerca de 20 mil ativistas anti-guerra de todo o mundo durante três dias.

O protesto tem lugar em um momento difícil para Blair. Até o momento os quase nove mil soldados britânicos responderam a seus próprios chefes permanecendo ao sul do Iraque, mas agora Bush quer que algumas tropas inglesas passem a ficar sob o comando norte-americano nas zonas próximas à Bagdá. Muitos britânicos (incluindo setores pró-guerra) resistem à essa idéia pois temem parecer subordinados à estratégia dura do Pentágono, além do receio de que tal medida aumente as baixas entre seus soldados.

Bush quer mostrar ao eleitorado norte-americano que ele não está isolado internacionalmente. Blair pode querer não aceitar tal solicitação, mas se não seguir a pauta de Bush pode afetar seu sócio e passar uma imagem de desunião para a Coalizão.

O silêncio de Bush e Kerry

LONDRES, 30/10/2004. Os maiores ausentes dos debates presidenciais norte-americanos tem sido a América Latina e a África, lugares de onde procede pelo menos um quarto da população dos EUA. Em suas discussões, Kerry e Bush tem mencionado mais a pequenos países como Israel, Iraque ou Afeganistão que todo o Hemisfério Sul junto.

A Alca, o possível bloco latino-americano proposto pelo Brasil, a invasão e o furacão no Haiti, a falida tentativa de Washington de remover Chávez da presidência venezuelana, o Plano Colômbia e inclusive Cuba são assuntos que sequer tem sido mencionados nos debates televisivos.

Seja quem for que assuma a Casa Branca, o certo é que os EUA continuarão sem dar a devida importância ao crescimento da miséria, das matanças e da Aids no continente negro ou em seus vizinho do sul. Bush pode afrouxar os impostos a certas exportações latino-americanas, mas deve aumentar o intervencionismo na região, enquanto Kerry pode baixar o tom das interferências na América Latina ainda que deva ceder mais às pressões protecionistas internas.

Crise na OEA

LONDRES, 13/10/2004. A OEA teve oito secretários-gerais desde sua fundação, em 1948. O costarriquenho Rodríguez foi seu primeiro líder centro-americano e o que menos durou no cargo (23 dias). Ele renunciou depois de ter sido acusado por seu próprio partido der ter recebido privilégios da Alcatel quando era presidente de seu país (1998-2002).

O ocorrido vem sendo usado por aqueles que criticam a OEA de ser um organismo burocrático com um déficit crescente, que serve para beneficiar políticos aposentados, que não fez nada para defender a Argentina na Guerra das Malvinas ou que é “um Ministério das Colônias de Washington”.

Outros críticos esperam auditorias sobre as privatizações e presidentes ou que o organismo crie um bloco latino-americano que tenha reservado um lugar para Cuba. O mais provável é que a OEA se recomponha da crise que enfrenta e possa demonstrar que é capaz de moralizar suas próprias filas.

Destruição em massa

LONDRES, 10/10/2004. Em março de 2003 Bush conseguiu um grande apoio interno atacando o Iraque e afirmando que seu ditador, além de amparar Bin Laden, possuia muitas bombas bioquímicas. A equipe que investiga as armas iraquianas concluiu, muito antes da invasão, que Saddam não tinha nenhuma destas armas.

À mesma conclusão chegou Tony Blair na recente conferência trabalhista realizada em Brighton. Rumsfeld, secretário de Defesa dos EUA, declarou que não existe nenhuma evidência de ligações mais estreitas entre Saddam e a Al Qaeda. Bremer, o antigo “vide-rei” americano em Bagdá, alegou que inicialmente suas tropas no local eram poucas e não puderam impedir uma enorme quantidade de saques.

Os democratas de Kerry conseguiram se recuperar nas pesquisas de intenção de voto alegando que Bush ocupou o Iraque com “mentiras” e sem um plano de paz. No debate entre os candidatos a vice-presidência, Cheney assegurou que, apesar de tudo, a invasão foi justificada.

Mas o “pântano” que se transfomou o Iraque, assim como aconteceu no Vietnã, pode se converter em uma “arma” com o poder de destruir George W. Bush.

Cubanos nos EUA: voto chave

LONDRES, 8/10/2004. Em 2000, Bush perdeu as eleições, mas o colégio eleitoral lhe deu a presidência graças a sua vitória na Flórida, com apenas 537 votos de diferença. Os democratas o acusaram de ter evitado que muitos afro-americanos fossem votar.

Em troca, os republicanos encorajaram o apoio de outra minoria étnica: a dos 450.000 cubanos exilados. Esta é a única emigração latina que Washington tem tratado com benevolência. Cerca de 82% dos votos cubanos americanos foram para o irmão do governador da Flórida, George Bush.

Hoje, a situação vem mudando. Os anti-castristas históricos ou mais duros já não têm a mesma popularidade de antes. Há vozes que pedem a mudança da tradicional hostilidade com Fidel para uma política de pressões, para que a ilha vá se abrindo para o liberalismo econômico e político.

Kerry teria uma ampla preferência dentro dos cubano-americanos jovens e os emigrados há 25 anos. Se os democratas conseguirem diminuir a vantagem de Bush dentro desta comunidade, poderiam ganhar no Estado que lhe deu o triunfo há 4 anos.

Ouro negro e negros sem ouro

LONDRES, outubro/2004. Para Bush e Kerry, o que ocorre no Sudão é um genocídio. Na última década, a África presenciou holocaustos como o de Ruanda, Burundi e Congo (5 milhões de mortos), a expansão da AIDS (que ameaça infectar 50 milhões de pessoas) e o retrocesso de sua efêmera participação na economia mundial.

Os dois candidatos norte-americanos concordam que não se deve mandar tropas do país para lá. Ao Iraque, onde existe o ouro negro, se enviou soldados duas vezes, mas os “negros sem ouro” não são prioridade, ainda que a catástrofe que vivem hoje incida em todo o globo.

A África não necessita de mais tropas brancas, mas precisa que o Hemisfério Norte mude as exigências do pagamento de suas dívidas, mude o protecionismo diante de seus produtos agrários e que se reduza os preços dos remédios contra a AIDS e outras doenças.

Com uma pequena parte do orçamento militar dos EUA sendo investida em obras de infra-estrutura como o tratamento da água, o saneamento básico e a proteção social, o continente negro poderia deixar de produzir a cada dia uma quantidade de vítimas civis equivalente ao atentado de 11 de Setembro.

Guerra contra a Fome

LONDRES, outubro/2004. Esta semana, que começou com a realização da I reunião da ONU contra a fome, terminou com um dia sagrado para os judeus: o dia em que eles jejuam como forma de pedir perdão.

O problema é que um sétimo da população mundial (cerca de 850 milhões de pessoas) jejuam involuntariamente. Com tanto avanço tecnológico, não se pode perdoar que a desnutrição persista e que cada ano mate 700 mil pessoas.

Da reunião citada acima não participou o presidente do país anfitrião, os EUA, mas sim 55 mandatários incluindo Lula, Chirac (França), Lagos (Chile), Zapatero (Espanha) e Annan (ONU). Para eles, a maior guerra a ser encarada não é contra o Iraque, mas contra o flagelo da fome, que deve ser erradicado em 11 anos.

A verba destinada para a batalha contra esta verdadeira “arma de destruição em massa” equivale a 10% do investimento bélico dos norte-americanos. Propostas para incrementar os fundos destinados ao combate à fome surgem sobre a forma de impostos sobre o comércio de armas, a cobrança de 0,01% sobre os bilhões de dólares produzidos em transações financeiras diárias e a redução do custo de envio de dinheiro de imigrantes do hemisfério Norte para o Sul (U$86 bilhões).

Lula x Bush

LONDRES, outubro/2004. Os discursos de Bush e Lula na abertura da Assembléia Geral da ONU mostram que os dois principais presidentes americanos adotaram posições opostas. Para Bush, a principal guerra a ser travada no mundo é contra o terrorismo, enquanto para Lula é contra a fome.

Brasília articula uma nova coalizão nas Nações Unidas que lhe permita reformar este organismo. O Brasil quer ampliar o Conselho de Segurança para ali entrar de forma permanente junto com a Alemanha, o Japão e a Índia, pede que a ONU (e não os EUA) faça a mediação entre Israel e Palestina e busca uma agenda mais social, contrária ao protecionismo do Norte. Washington acha que permitir as mudanças na ONU pode abrir uma Caixa de Pandora e outros países também poderiam querer se tornar membros permanentes do Conselho.

Os norte-americanos acreditam que se os EUA deixarem de mediar o conflito no Oriente Médio a paz pode se tornar inviável porque Israel se retiraria das negociações. A Casa Branca insiste em se manter no Iraque e em escolher que regras mundiais ou de livre mercado deve aceitar em casa.

Kerry, Bush e a América Latina

LONDRES, outubro/2004. Se Bush permanecer na Casa Branca, devem ser mantidos os tratados de livre comércio com o Chile e os países da América Central. Já Kerry não pode garantir isso. Ele e, sobretudo, seu vice-presidente, Edwards, estão submetidos a fortes pressões protecionistas internas.

Kerry poderia reduzir o nível de intervencionismo norte-americano direto na Venezuela e na região e talvez não se repitam as declarações como as que foram feitas por alguns diplomatas americanos contra Chávez ou Evo Morales. Até mesmo a dureza contra Cuba poderia ser amenizada.

Dois terços dos eleitores latinos tem uma tendência histórica a preferir os democratas (Kerry) ao invés dos republicanos (Bush), já que os vêem como mais acessíveis a temas como o multiculturalismo, a imigração e a assistência social.

Efeito oposto

LONDRES, outubro/2004. Ao invadir o Iraque, Bush buscou ao mesmo tempo garantir o controle sobre a segunda reserva de petróleo do mundo e remodelar o Oriente Médio segundo seus critérios. Mas a realidade tem mostrado ser bem mais complicada e pode produzir uma reação contrária.

A Turquia, o único membro da OTAN no mundo muçulmano, está em rota de colisão com os EUA, pois teme que seus compatriotas turcomanos no norte do Iraque se tornem vítimas, que o Iraque se fragmente e que isso incite o separatismo curdo. A Al-Qaeda, longe de ter sido tranquilizada, tem aumentado sua força no Iraque e se organiza para tomar o poder na Arábia Saudita. O Irã, o pior inimigo norteamericano na região, tem recuperado a autoridade no Afeganistão e no Iraque, onde seus correligionários xiitas podem acabar tomando o poder.

A Síria, a quem Washington tentou isolar, segue mantendo suas relações com o Líbano e estreita os laços com o Irã. Sharon, que tentou tirar proveito da guerra iraquiana, vem sendo dragado por seus ex-partidários que o acusam de “trair” Gaza deixando que esta termine nas mãos do Hamas.

Guerra ilegal

LONDRES, outubro/2004. Kofi Annan tem afirmado categoricamente que a invasão do Iraque foi ilegal. O Secretário Geral das Nações Unidas tem tentado demonstrar que não é uma marionete nas mãos de Washington. E ele pode influir sobre as próximas eleições na Austrália e nos EUA.

Quando Aznar deixou o poder em Madri, a revista “The Economist” presumiu que havia caído o primeiro dos quatro “ases” que lideraram o ataque a Bagdá. Em 9 de outubro pode cair o segundo: Howard, primeiro-ministro australiano desde 1996. O terceiro “ás” (Bush) pode cair nas eleições presidenciais de 2 de novembro e o quarto (Blair) poderia ser defenestrado por seu partido se seu descrédito se aprofundar.

Kerry usa as declarações de Annan para atacar Bush e vai tirar proveito de uma possível derrota de Howard. Bush, que acredita ter o poder de intervir em outros países, poderia perder o poder devido à “intervenção” de distintas pressões externas sobre os EUA.

11S

LONDRES, setembro/2004. O 11 de Setembro mudou totalmente a política mundial. Bush, de um presidente impopular e questionado por ter chegado ao poder depois de perder as eleições, passou a contar com altos índices de apoio.

Os EUA surgiram como vítimas e a luta mundial anti-terror se converteu em uma doutrina mundial. Washington aproveitou a vantagem de sua própria tragédia para se outorgar o direito de invadir qualquer país que considerasse necessário.

Se a guerra contra o Afeganistão foi levada adiante pela maior coalizão bélica da história, a invasão do Iraque criou uma enorme divisão entre as potências ocidentais, assim como uma vasta oposição interna nos EUA e no Reino Unido.

O risco do unilateralismo americano é que ele possa levar as potências européias e a China a adotar posições contrárias que podem enfraquecer sua liderança mundial. As políticas duras, por sua vez, acabaram por produzir mais recrutas para o fundamentalismo, que segue sua expansão.

Osama segue livre

LONDRES, setembro/2004. Mal havia passado o terceiro aniversário do 11-S e o Iraque viveu um de seus dias mais sangrentos desde o “fim da guerra”. Mais de 70 foram mortos e os confrontos deixaram claro que as milícias de Al Sadr seguem avançando.

Em três anos Bin Laden e a maior parte da direção da Al-Qaeda continuam expandindo suas operações. No Iraque, crescem várias forças do fundamentalismo sunita e xiita. As invasões a este país e ao Afeganistão não detiveram o desenvolvimento da integração muçulmana mas, pelo contrário, deram combustível para que sua chama se expandisse.

Paradoxalmente, Bush e Bin Laden se necessitam. O primeiro usa a austeridade anti-terrorista como um fator de legitimidade, enquanto o segundo se valeu, em primeiro lugar, dos Bush e da CIA para criar a Al-Qaeda como uma resistência a Moscou, para depois se valer do ressentimento que as intervenções ocidentais causam no mundo de Maomé para surgir como um digno representante do islã.

Revista diária fundada em 13 de maio de 2000.

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