Espaço Comunitário Comênius: vitórias no combate ao alcoolismo e outras drogas

dirce

Patrícia Negrão

Ela enfrentou o alcoolismo na família, superou uma depressão e criou a Comenius, ONG que oferece tratamento para dependentes químicos e seus familiares, consultas especializadas, terapia comunitária e capacita terapeutas para multiplicarem o atendimento.

“O que você quer deixar aqui? Raiva? Tristeza? Insegurança? Talvez o vício? E o que você quer levar? Alegria? Amor? Força?”. Ao conduzir com firmeza e determinação uma roda de terapia comunitária, a médica Dirce de Assis Rudge sabe exatamente as dificuldades e o sofrimento de cada participante, assim como a filha angustiada, a esposa deprimida e os pais desesperados que chegam acanhados pela primeira vez, há 12 anos.

Dirce também foi buscar ajuda. “As pessoas que convivem com dependentes químicos se esquecem de cuidar de si próprias. Elas sofrem muito e também precisam de apoio”, diz a idealizadora e cofundadora da Associação Espaço Comunitário Comenius. A entidade atende, desde 2000, dependentes químicos e seus familiares na favela do Sapé, Butantã, na capital paulista.

A médica gera um movimento inclusivo através do incentivo à formação dos usuários. Cerca de 300 pessoas são atendidas por mês nas rodas e no curso de capacitação e mais ou menos 400 terapeutas comunitários foram capacitados pela instituição. “Não nos contentamos em cuidar dos que nos procuram. Convocamos a família para enfrentar a situação e buscamos capacitar todos os interessados”, explica. “Capacitamos as pessoas atendidas para cuidarem de outros e assim ampliamos o leque de cuidado numa área muito carente de pessoas bem treinadas.”

Nascida na roça, no Paraná, Dirce só não pegou na enxada, como os irmãos porque, aos três anos, seus pais foram para a cidade para que eles pudessem estudar. Aos doze, mudaram para São Paulo, em busca de emprego e tratamento médico. Um ano depois, ela já estava numa fábrica de roupas e estudava à noite. De todas as dificuldades da infância e juventude – falta de recursos, moradia ruim, doença na família – o mais difícil para Dirce foi conviver com o pai alcoólatra. Mesmo com as enormes barreiras cotidianas formou-se na Faculdade de Medicina da Unicamp, prestou concurso público no INAMPS e na Secretaria Municipal de Saúde. Por dez anos, foi chefe de turno médico e preceptora de internos e médicos residentes no hospital escola Carmino Caricchio. “O sofrimento dos mais carentes me remetiam sempre a minha infância, quando o médico não perguntava se tínhamos dinheiro para pagar”, diz.

Em 2000, iniciou a Associação Espaço Comunitário Comenius, em uma sala da Unidade Básica de Saúde, junto à favela. A UBS ficou pequena e foram para a Escola Municipal. Lá, ofereciam também cursos de arte para crianças e artesanato para adultos. Um ano e meio depois Dirce alugou uma casa, com mais voluntários: artistas plásticos, professores, donas de casa, artesãos.

Em 2002, após um curso de Terapia Comunitária Integrativa com o psiquiatra Adalberto Barreto, Dirce descobriu a “ferramenta exata” que precisava para trabalhar na sua iniciativa. “Descobri que a terapia comunitária é um instrumento valioso para lidar com o sofrimento das pessoas e comecei imediatamente.” Além de atender dependentes e familiares, ela passou a capacitar vários voluntários e a Comenius tornou-se um Polo Formador de Terapeutas Comunitários reconhecidos pela Associação Brasileira de Terapia Comunitária.

“É muito gratificante ver dependentes reabilitados, famílias se reestruturando, o alívio do sofrimento que a sessão de Terapia Comunitária Integrativa proporciona. Adoro repartir, distribuir tudo que aprendo. Acredito que nada do que aprendi deve ser retido, tudo tem que seguir como um fluxo de água, se distribuindo mundo afora.”

Luciana Vicente, voluntária resume o trabalho da Comenius: “Cheguei com depressão e síndrome do pânico. Medicada e no grupo de terapia sai da depressão e retomei os estudos depois de quase vinte anos”.

Ela capacitou-se em Terapia Comunitária e fez rodas de Terapia Comunitária com crianças na Comenius. Terminou a faculdade, prestou concurso e foi trabalhar na região, tendo, entre os seus alunos, três dos pequenos atendidos na Comenius, agora adolescentes.

“Constatei grande diferença de postura e amadurecimento dos nossos três alunos em comparação aos demais da turma”, afirma a voluntária. Mais uma das muitas vitórias comemoradas por Dirce. “Quando encontro alguém que passa por algo que já vivi, quero ajudar e sei que agora tenho como”, afirma a médica.

Fonte: Projeto Generosidade