Entropia


“Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!

“(…) Esta é a terra morta
Esta é a terra do cacto
Aqui as imagens de pedra
Estão eretas, aqui recebem elas
A súplica da mão de um morto
Sob o lampejo de uma estrela agonizante.

“(…) E é assim que acaba o mundo
E é assim que acaba o mundo
E é assim que acaba o mundo
Não com estrondo, mas com um suspiro.
(“Os Homens Ocos”, T. S. Eliot)

Às vésperas do carnaval, fim de tarde, uma ventania com intensidade que eu jamais vira arrancou do trilho uma das lâminas da porta de correr do meu apartamento, atirando-a violentamente contra o sofá.

O vidro espalhou-se por toda sala, juntamente com a chuva que passou a entrar, torrencial.

Saí em busca de material para fazer uma proteção provisória, que nos permitisse atravessar a noite.

Árvores caídas, semáforos desligados, um muro tombado, buzinas, congestionamento infernal.

Telefone, internet e TV a cabo out.

Horas depois, ruas e avenidas ainda sem iluminação. Cavaletes e avisos improvisados alertando os motoristas contra as novas crateras.

No dia seguinte, maratona de telefonemas para vidraceiros das redondezas, depois até de bairros distantes. Todos eles, depois do vendaval, com serviço para mais de uma semana.

Lá pelo trigésimo, bingo! Mas, fiquei com a suspeita de que as coisas jamais voltarão verdadeiramente ao normal.

Que, doravante, estaremos sempre botando a casa em ordem… para vê-la de pernas pro ar no momento seguinte.

E o noticiário segue repleto de ocorrências muitíssimo piores, no mundo inteiro.

As catástrofes naturais que já aconteciam, agora têm ímpeto muito mais devastador.

As que não ocorriam, passaram a suceder.

Mas os podres poderes — cujo papel é perpetuar a competição, a ganância e o privilégio — não reagem como deveriam, para ao menos evitar que a vingança da natureza sele o fim da espécie humana.

Pois já não existe dúvida nenhuma de que a humanidade muito sofrerá durante, pelo menos, algumas décadas.

Por mais que a imprensa evite constatar que dois e dois somam quatro, todos temos a sensação de que o apocalypse now está chegando muito mais depressa do que supõe nossa vã ciência.

E os homens nem de longe se dão conta de que, ou se unem e tomam o destino nas mãos, ou os governos continuarão cavando suas sepulturas.

Olho para minhas doces filhas e fico me indagando se atingirão minha idade.

Se ainda haverá seres humanos no planeta daqui a meio século, em nossa contagem de tempo… que talvez nada mais seja.