Entrevista de Alder Calado à jornalista Alexsandra Tavares

Jornal “A União,” dia 19-01-2020

1 – A ideologia na política tem o único papel de convencimento e dominação? Que outros papéis exerce nessa esfera?

A depender do referencial que se tome para se definir ideologia, resultam diversificadas as interpretações e seu campo de aplicação. Com efeito, quem se mira numa formulação marxiana, segundo a qual o papel fundamental da ideologia é a dominação de classe, por meio do falseamento da realidade, vai compreender e aplicar o papel da ideologia como fator de convencimento da classe dominante sobre os demais segmentos da sociedade. Neste caso, os setores dominantes, com o objetivo de conquistar, de manter e ampliar seu poder na sociedade de classes, não hesitam em recorrer aos diversos componentes culturais do Mercado capitalista e aos aparelhos ideológicos de seu Estado, instituições e, especialmente, a uma ampla rede de comunicação de massa (a imprensa corporativa ou comercial, as redes sociais sob seu controle…), para exercitarem seu convencimento, por meio do sistemático falseamento da realidade. Para tanto, dispõe de relevantes e gigantescas agências noticiosas atuando em escala internacional, desde os países centrais com a finalidade de selecionar o que consideram os principais fatos e acontecimentos do dia, para difundi-los em massa, atendo-se sobretudo às versões e imagens que criam, de acordo com seus interesses de classe, fazendo passar a ideia a imensas parcelas de radio-ouvintes, telespectadores, leitores e internautas, destituídos de um processo formativo consistente de sua consciência crítica, a ideia de que a “verdade” é o que aparece nestes veículos.

2 – Como o senhor analisa a força que a ideologia política tem na questão do convencimento, de persuadir ou dissuadir o outro sem ser pelo poder da força física?

Ainda que o potencial bélico detido pelas superpotências tenham o condão de dissuasão sobre populações e países dependentes, há de se convir que a razão da força está longe de ser suficiente, para assegurar seus objetivos. É aí que entra a força da ideologia. Em nosso dia a dia, percebemos a sutileza com que, desde os espaços familiares, da escola, das igrejas e de outras instituições, se faz a cabeça de parte expressiva de nossa gente, por meio da inculcação contínua de idéias, de valores, de crenças, que, de tão divulgadas, acabam introjetados e reproduzidos pela grande maioria das pessoas. Feita uma crítica desta mesma grade de valores, vai se percebendo que, em sua enorme maioria, estas ideias, valores, crenças estão a responder aos interesses dos setores dominantes das sociedades de classes. Ideias tais como “O segredo do sucesso depende apenas do interesse de cada pessoa”, haja vista exemplos de figuras tais como Silvio Santos e outros, que, a partir do seu trabalho em ocupações simples, foram acumulando riquezas e outras tantas crenças são inculcadas e acriticamente introjetadas nas relações sociais do dia-a-dia. Por outro lado, não se deve avaliar esta força ideológica, detida pelos setores dominantes, como uma fatalidade, como um determinismo, uma vez que, desde que haja um processo de formação contínua, oferecida principalmente por aquelas organizações de base de nossa sociedade, lidando com a construção processual de uma nova sociedade, alternativa ao sistema atualmente hegemônico, estas pessoas e grupos vão tendo oportunidade de irem formando, de modo consistente, sua consciência crítica e autocrítica, de modo a não serem presas fáceis para a ideologia dominante. Daí o compromisso daqueles e daquelas que se entendem historicamente vocacionados a um combate contínuo contra esta ordem de coisas, chamados a zelar cotidianamente, seja pelo seu modo organizativo, seja pelo seu processo formativo, seja pelo compromisso de luta contra esta barbárie.

3 – Hoje em dia existe ideologia política no Brasil? Por que? Pode comentar.

No caso específico da sociedade brasileira, ocorre uma situação de aprofundamento progressivo do poder ideológico sobre parcelas imensa de nossa sociedade. Considerando o número enorme de crianças e jovens e mesmo adultos excluídos das condições mínimas de sobrevivência, de escolaridade, o resultado não poderia ser diferente. Tornam-se, em sua imensa maioria, presas fáceis da ideologia governamental e do Mercado capitalista, passando a introjetar e a reeditar suas ideias e seus valores, suas crenças, nas relações do cotidiano. Nos últimos anos, sobretudo, a sociedade brasileira vem amargando um contexto de profunda dominação ideológica, não bastassem as manifestações da mesma dominação na área econômica, na esfera política e no campo da cultura. São, com efeito, gravíssimos os estragos resultantes do impeachment (promovido e realizado à força do “lawfare”), a partir do que irrompem forças de obscurantismo com enorme potencial destrutivo dos valores da Democracia. Também aí, tem se mostrado bastante eficaz a força da ideologia, desde as estratégias utilizadas durante a última campanha eleitoral. Estratégias montadas à base de mentiras massivamente disparadas desde estrategistas ligados ao Governo Trump, pelas redes sociais a serviço dos interesses de forças internacionais (as mesmas utilizadas durante a eleição de Trump, as mesmas utilizadas em outros países como no Reino Unido, na Romênia…). Mais uma vez, reiteramos a convicção de que isto não ocorreria se contássemos com parcelas importantes de nossa população razoavelmente formadas, em sua consciência crítica. Essas tais “fake news” teriam resultado pífio, não apenas no processo eleitoral, como também nos dias que correm. Para termos uma noção do tamanho do desafio histórico enfrentado pela nossa sociedade, em especial pelas nossas organizações de base (movimentos sociais populares, associações comunitárias e outros), vale a pena relembrarmos um dado revelado em recente pesquisa, realizada pelo PISA (Programme for International Student Assessment), acerca do desempenho dos estudantes brasileiros: 65% dos nossos estudantes não conseguem distinguir a diferença entre um fato e uma versão…

Fonte: Jornal A União

(19-01-2020)