Encontro Internacional Educação Popular e Cidadania: Experiências e Desafios Rio de Janeiro, 27-31 de julho de 2020

Educação: Um Campo de Batalha Decisivo

Na abertura do Agrishow, em Ribeirão Preto, em 29 de maio, o Presidente Capitão Jair Bolsonaro anunciou que pretende mudar o Patrono da Educação Brasileira, título outorgado a Paulo Freire pelo Congresso brasileiro em 2012. Não surpreende que, em sua cruzada contra as artes e os artistas, contra a cultura e os agentes culturais, contra as universidades e a ciência, na obstinada ofensiva lançada contra a educação pública, humanista e laica, o presidente brasileiro, assim como Trump e outras lideranças e grupos de extrema direita, veja na cultura um inimigo a ser abatido e na educação reflexiva e crítica uma ameaça aos projetos autoritários e obscurantistas que representa.

A educação e a cultura, na verdade, vêm se transformando em um dos campos de batalha decisivos da guerra sem quartel declarada à democracia, à liberdade de expressão e ao próprio conceito de cidadão nascido do iluminismo: ser humano livre … e não indivíduo servil e domesticado. E isto não acontece apenas no Brasil, mas em toda a América Latina, na África e na Ásia, e também na América do Norte e Europa, onde movimentos xenófobos, homófobos, supremacistas e racistas pretendem negar e destruir as possibilidades de sobrevivência e renovação dos saberes e culturas dos subalternizados. O que está em jogo é: quais os valores, visões de mundo, conceitos e práticas serão hegemônicas no tecido social e sobre quais bases se poderá construir uma sociedade livre, democrática e justa, com confiança no potencial emancipatório da diversidade e da educação crítica?

Daí a enorme atualidade de Paulo Freire e seu chamado a uma pedagogia emancipatória, popular, a uma educação concebida como reconhecimento e troca de saberes, como construção simultânea e relacional de educadores e educandos, partes de um processo que ao transformar ambos os torna aptos a transformarem o mundo em que vivem.

Atualidade da Educação Popular e Cidadã que se revela em cada universidade indígena que se constroi e afirma na Bolívia ou Equador, em cada escola da Selva Lacandona, em experiências de escolas comunitárias na África, em cada movimento social que, no Brasil ou na Índia, busca formar seus próprios educadores e militantes. Mas também em cada universitário que abandona o conforto do gabinete para arriscar-se num encontro, que muitas vezes é também desencontro e confronto, com dinâmicas coletivas que constroem sujeitos políticos e, necessária e simultaneamente, sujeitos de conhecimento.

Afirmar a atualidade da Educação Popular impõe reconhecer, porém, os muitos e novos desafios com que se defronta. Como se relacionar com a Escola Pública que, ao longo desses últimos 50 anos, caminhou nos países periféricos em direção à universalização, mas também em direção a uma educação pobre, castradora, voltada simplesmente para adestrar e domesticar os filhos da classe trabalhadora? Como poderia e deveria a Educação Popular absorver, elaborar e projetar-se como caminho de luta pela justiça ambiental e por um tratamento integrado e integrador, holístico, da crise ambiental e das mudanças climáticas? Como fazer com que a Educação Popular fortaleça e se enriqueça a partir das experiências de agroecologia e contribua para o avanço das lutas pela reforma agrária? De que modo aprender com novas modalidades de associativismo, cooperativismo e economia popular e solidária? Como lidar com as novas tecnologias de informação e comunicação, com o acesso crescente a meios de difusão de ideias que, contraditoriamente, convivem com a oligopolização dos meios de comunicação de massa? Seremos capazes de incorporar às práticas e metodologias tradicionais o uso e difusão das mídias digitais? Como articular a formação de subjetividades aptas a lidar com identidades de classe, de gênero, étnicas e outras? Como articular conhecimentos de âmbito local, regional, nacional e internacional e como assegurar processos de luta que reconheçam as singularidades locais e a necessária convergência internacional das lutas que atendem a interesses comuns de todos os povos?

A razão de ser e o sentido mesmo da Educação Popular permanecem, como em suas origens, o reconhecimento de que a prática social constitui a base sobre a qual se produzem conhecimentos e emergem consciências críticas capazes de impulsionar processos de transformação social. Mas estes princípios hoje devem ser discutidos e concretizados em um mundo que redefine e reconfigura as relações identitárias e as escalas de reflexão e ação. Estamos desafiados pela dimensão sistêmica de processos que são simultaneamente políticos, econômicos, culturais, ambientais/climáticos e dizem respeito às múltiplas identidades dos que lutam pelo reconhecimento e por seus direitos.

A Educação Popular está, pois, como nunca, colocada diante de uma crise sistêmica e desafiada a contribuir para a invenção de caminhos e modos de vida emancipatórios.

Objetivos

O objetivo principal do Encontro Internacional Educação Popular e Cidadania – Experiências e Desafios é reunir e propiciar o intercâmbio de experiências, pesquisas e reflexões que tenham por foco a Educação Popular, entendida como caminho de construção de uma sociedade fundada numa cidadania emancipada e emancipatória.

Reconhecendo a multiplicidade, diversidade e riqueza das práticas e da produção intelectual dos pesquisadores, militantes, educadores, movimentos e redes que, no mundo inteiro trabalham com e sobre Educação Popular, este encontro pretende também explorar as possibilidades e lançar as bases de formas regulares e permanentes de cooperação e intercâmbio internacionais.

Mais informações, inscrições, programação, etc, veja no link a seguir

Fonte: http://www.confedpop2020.com.br/