E o planalto se rende e entrega a Amazônia
Carlos Chagas

Feito jibóia em bezerro novo, a sanha privatizante começou esta semana a enrolar-se sobre Furnas, prenunciando o que acontecerá ao que restou do sistema hidrelétrico nacional. Já se foram os monopólios do petróleo, do gás canalizado, das telecomunicações e da navegação de cabotagem, como se privatizou o subsolo, a telefonia, os satélites, a petroquímica, a siderurgia, o sistema financeiro.

Tudo para abater a dívida externa, que se multiplicou, e para melhorar os serviços, que pioraram. Faltam a Petrobras, já retalhada em unidades estanques, deglutidas feito mingau quente, pelas bordas; o Banco do Brasil e a Caixa Econômica, que segundo empresas estrangeiras de assessoria darão prejuízo a partir de 2003. Depois, será a vez da Amazônia. Depois?

Cobiçam a região como mulher alheia
Vale começar do começo:

"Se os países subdesenvolvidos não conseguem pagar suas dívidas, que vendam suas riquezas, seus territórios e suas fábricas". [Margaret Thatcher, Primeira-Ministra da Inglaterra, Londres, 1983.];

"Ao contrário do que os brasileiros pensam, a Amazônia não é deles, mas de todos nós". [Al Gore, Vice-Presidente dos Estados Unidos, Washington, 1989.];

"O Brasil precisa aceitar uma soberania relativa sobre a Amazônia". [François Mitterrand, presidente da França, Paris, 1989.];

"O Brasil deve delegar parte de seus direitos sobre a Amazônia aos organismos internacionais competentes". [Mikhail Gorbachev, chefe do governo soviético, Moscou, 1992.];

"As nações desenvolvidas devem estender  o domínio da lei ao que é comum a todos no mundo. As campanhas ecológicas internacionais que visam à limitação das soberanias nacionais sobre a região amazônica estão deixando a fase propagandística para dar início à fase operativa, que pode definitivamente ensejar intervenções militares diretas sobre a região". [John Major, Primeiro-Ministro da Inglaterra, Londres, 1992.];

"A liderança dos Estados Unidos exige que apoiemos a diplomacia com a ameaça da força". [Warren Cristopher, Secretário de Defesa dos Estados Unidos, Washington, 1995.];

"Os países em desenvolvimento com imensas dívidas externas devem pagá-las em terras, em riquezas. Vendam suas florestas tropicais". [George W. Bush, candidato à presidência dos Estados Unidos, em debate com Al Gore, Washington, 2000.]

Chega? Mas tem mais:

"A Amazônia deve ser intocável, pois constitui-se no banco de reservas florestais da humanidade." [Congresso de ecologistas alemães, Berlim, 1990.];

"Só a internacionalização pode salvar a Amazônia". [Grupo dos Cem, cidade do México, 1989.];

"A Amazônia é patrimônio da humanidade. A posse desse imenso território pelo Brasil, Venezuela, Colômbia, Peru e Equador é meramente circunstancial". [Conselho Mundial das Igrejas Cristãs, Genebra, 1992.]

Até super-heróis de HQ querem o botim
Só isso? Nem pensar. O Homem-Aranha, numa revista em quadrinhos, já organizou sua turma e lutou, claro que vencendo, contra posseiros, fazendeiros e o governo do Brasil. O Super-Homem, também em quadrinhos, em vez de voltar para Kripton, dedicou-se numa aventura inteira a enfrentar os madeireiros que destruíam a Amazônia. O Robocop, esse assassino de metal, em episódio transmitido pela televisão, levou os dez minutos iniciais do filme desaparecido. Ao chegar, perguntaram onde estava, respondeu: "Na guerrilha da Amazônia".

Ingênuos "kits" distribuídos nas cadeias mundiais de vender hambúrgueres mostraram dois meninos conversando sobre sanduíches, quando um indaga: "Você sabe que o Brasil queima um campo de futebol por segundo?" Por falar em fogueiras, um restaurante londrino estampa mensagens em toalhas descartáveis, uma delas recomendando: "Lute pelas florestas! Queime um brasileiro!"

Há comerciais institucionais transmitidos pela televisão do primeiro mundo, inclusive a CNN, onde a repórter Marina Mirabella mostra as maravilhas da fauna e da flora amazônicas para, em seguida, apresentar cenas de devastação, sujeira e imundície, e concluir: "São os brasileiros que estão fazendo isso! Até quando? A Amazônia pertence à humanidade e o Brasil não tem competência para preservá-la!"

O pior é quando essas investidas partem de nós. As deputadas Vanessa Grazziotin e Socorro Gomes solicitaram do general-chefe da Secretaria de Segurança Institucional informações sobre o Programa Nacional de Florestas, obra do ironicamente amazônico Ministro do Meio Ambiente, Zequinha Sarney.

A Amazônia constitui um mosaico em termos de regime de posse, contendo florestas nacionais, parques nacionais, reservas ecológicas, reservas biológicas, terras devolutas públicas e terras privadas. Pelo programa, ampliaram-se as florestas nacionais, que pertencem à União, de 165 para 500 mil quilômetros quadrados. Uma superfície igual à da França.

Para quê? Para transformá-las em propriedades privadas, "de modo a disponibilizar matéria-prima para as indústrias (as madeireiras internacionais) de forma permanente, contínua, regular e balanceada, em função das exigências do mercado". Mas não era para manter a Amazônia intocada?

Carlos Chagas é jornalista.

Tribuna da Imprensa, 30 de janeiro de 2002.


Consciência.Net