Donde menos se esperam, não raro, despontam atitudes de alternatividade…

Cristalizou-se a (má) percepção de que as saídas para os impasses só podem vir de cima, dos grandes deste mundo. Isto não é de hoje. “De Nazaré pode sair coisa que preste?” – perguntavam incrédulos acerca do Nazareno. Feliz de quem, atento aos sinais, se mantém aberto às surpresas que a vida nos prepara, vez por outra. Trata-se de uma marca especialmente de quem ousa sonhar o novo, a alternatividade, sabendo lidar bem com a tensão entre o “já” e o “ainda não” (E. Bloch). Feliz de quem não se deixa aprisionar pela normose, nas distintas situações que a vida oferece. Inclusive, do ponto de vista societal.

Tomemos um exemplo, no âmbito da Política. Habituamo-nos, desde longa data, a entregar os destinos de nossa sociedade a especialistas (o chamado “mundo político”), a quem confiamos a responsabilidade de decidir por nós, restringindo-nos ao exercício do voto, a cada dois anos. Os frutos de tal prática estão à vista, para quem quer enxergar! Abdicamos de nossa condição de cidadãos, de cidadãs, conformando-nos (quem pode…) com a condição de meros consumidores. Multiplicam-se, a cada ano, os sinais, a evidenciarem que esta via não nos leva aonde pretendemos chegar. E mesmo assim…

Tão arraigado se apresenta esse hábito, que quase ninguém aposta em que outros caminhos são possíveis e necessários. Uma ilustração emblemática: a não acolhida ou a a extrema lentidão com que percebemos – primeiro passo para acolher, de modo empenhado – várias iniciativas inovadoras sinalizadas pelo Papa Francisco, por gestos e palavras. Quem diria, há poucos anos atrás, que teríamos uma figura de tamanha respeitabilidade internacional, não forjada pela mídia, mas pela força do seu testemunho. Surpresa ainda maior experimentamos pelo fato de não se tratar propriamente de um intelectual convencional, no sentido estrito. Prova disto são alguns dos seus mais recentes documentos e discursos. De passagem, aqui destaco apenas dois: sua fala incisiva aos participantes do II Encontro Mundial de Movimentos Populares, em Santa Cruz de la Sierra, quando de sua visita à Bolívia (ele também visitou o Equador e o Paraguai) e sua recentíssima Encíclica Social “Laudato si´”. Desta tratarei, noutra ocasião, abordando, aqui, apenas seu discurso pronunciado, em Santa Cruz de la Sierra.

A fala do Bispo de Roma aos participantes de movimentos populares, em Santa Cruz de la Sierra, não se dava com um item isolado ou casual de sua visita à América Latina. Prestemos atenção que aí se realiza o II Encontro Mundial de Movimentos Populares. O primeiro – recorda Francisco – se havia realizado há um ano, em Roma, chamado pelo próprio Francisco. Aí há, sim, algo novo! Se o papa está preocupado com as graves situações de pobreza e de desigualdades sociais no mundo, por que não apela aos chefes de Estado, às grandes potências? Por que cuida de ouvir e dialogar com representantes de movimentos populares de todo o mundo?

Ora, Francisco, bispo de Roma, compreende que as mudanças necessárias não virão desde cima, hão de ser construídas pelas forças que sofrem as piores consequências da globalização das desigualdades. Isto é algo novo! Prestemos atenção!

A quem interessar possa, começo remetendo o leitor, a leitora dessas linhas a um “link” em que se pode recordar a fala de Francisco aos participantes do II Encontro Mundial de Movimentos Populares:
https://www.youtube.com/watch?v=KunBV4cEBQs

E o que diz o Papa Francisco aos participantes daquele II Encontro Mundial de Movimentos Populares? Anotemos os pontos mais fortes de sua fala:

= Reconhece explicitamente nos movimentos populares a importância do seu protagonismo e de sua força transformadora;

= mais do que isto: assume um compromisso – o de recomendar explicitamente que as instâncias eclesiais tomem a sério a tarefa de aprofundar aquele Encontro;

= faz questão de explicitar, com ênfase, sua aposta numa saída para as crises, desde os “de baixo”, despertando-os e encorajando-os a assumirem sua tarefa libertadora. Um tanto na linha daquele canto: “Eu acredito que o mundo será melhor/ Quando o menor que padece/ Acreditar no menor.”;

= partindo de um diagnóstico dantesco, vai além: aponta a raiz das crises: o “sistema global”: “Reconhecemos que este sistema impôs a lógica do lucro, a qualquer preço?”

= Diante de tal ameaça, “queremos uma mudança, uma mudança real, uma mudança de estruturas”

= Porque “este sistema já não é suportável. Já não o suportam os camponeses, não mais o suportam os trabalhadores, não mais o suportam as coumidades, não mais o suportam os povos. Muito menos o suporta a Terra, a “Irmã, Mãe Terra”,, como dizia São Francisco””

= É preciso mudar: mudar desde os espaços do cotidiano, como também é preciso haver uma mudança global, que respnda aos anseios locais; é preciso fazer uma dudança que substitua esse sistema de exclusão e de indiferença pela “globalização da esperança”;

= os participantes deste Encontro anseiam por mudança. Mas, não apenas estes. “Por onde tenho viajado, tenho sentido esse desejo dos povos por mudança.”

= E de que mudança se trata? Sua Encíclica reflete sobre o drama da mudança climática. Mas, aqui ele enfoca outro tipo de mudança: mudança do sistema capitalista;

= referindo-se a Basílio de Cesaréia, um dos primeiros teólogos da Igreja, o qual cunhou a expressão “esterco do Diabo”, ao aludir à ganância desenfreada por dinheiro, sustenta Francisco a urgência de mudança, “quando o Capital se converte em ídolo e dirige as opções dos seres humanos, quando a avidez pelo dinheiro tutela todo o sistema sócio-econômico, arruína a sociedade, condena o homem, converte-o em escravo, destrói a fraternidade inter-humana, lança povo contra povo, e, como vimos, põe em risco esta nossa casa comum”…

= alerta, a justo título, contra certa tendência a limitar-se a fazer diagnóstico, sem adiantar pistas concretas, o que leva a um ceticismo desesperador;

= É a essa altura, que Francisco instiga os participantes ao protagonismo: a mudança depende de vocês! “Atrevo-me a dizer-lhes que o futuro da humanidade está, em grande medida, em suas mãos, em sua capacidade organizativa de promover iniciativas criativas, bem como em sua participação protagônica nas mudanças locais, nas mudanças nacionais e nas mudanças nacionais”;

= Em vez de ficar esperando uma mudança longínqua, tratem de ir fazendo, em seu dia-a-dia: “Sabemos, por experiência dolorosa, que uma mudança que não venha acompanhada de uma sincera conversão das atitudes e do coração, acaba burocratizando-se e corromper-se”

= Daí agradar-lhe muito a idéia de “gerar processos de mudança”, em vez da de “ocupar espaços”;

= E em quem pensa o Papa como os sujeitos-alvo prioritários de cuidados? “Quando olhamos o rosto dos que sofrem: o rosto do camponês ameaçado, do traballhador excluído, do indígena oprimido, da família sem casa, do migrante perseguido, do jovem desempregado, da criança explorada, da mãe que perdeu seu filho num tiroteio, porque o bairro foi ocupado pelo narcotráfico, do pai que perdeu a filha porque foi submetida à escravidão… Quando lembramos esses rostos e esses nomes, nossas entranhas estremecem, diante de tanta dor, e nos comovemos.”

= Ressalta e valoriza várias iniciativas moleculares assumidas pelos militantes dos movimentos populares: a agricultura camponesa, sua luta pelos seus territórios, pela dignificação da economia popular, o mutirão pela construção de casas populares e tantas outras atividades comunitárias.

= Chama ao desapego em relação a conceitos e idéias: “Ninguém ama conceito. Ama pessoas. Convoca os participantes a uma “cultura do encontro”.

= Mobilizar-se pelos desafios locais constitui passo fundamental e louvável. Mas, os participantes são instados a algo mais amplo: a combater a raiz do sistema de empobrecimento, de desigualdade e de exclusão: “É imprescindível que, junto às justas reivindicações por seus direitos, os povos e as organizações sociais construam uma alternativa humana à globalização excludente.”

= A terceira e última parte de sua fala é dedicada a propor três tarefas aos movimentos populares. Antes, porém, adverte, com humildade, que não se espere do Papa ou da Igreja, que “não têm o monopólio da interpretação da realidade contemporânea”, qualquer receita.

= Primeira tarefa: “colocar a economia a serviço dos povos”. “Os seres humanos e a natureza não devem estar a serviço do dinheiro.”

= Uma economia verdadeiramente comunitária, de inspiração cristã, cuida, não apenas de garantir a satisfação das necessidades materiais (os “três T” (“Terra, Trabalho e Teto”), mas também a satisfação das necessidades imateriais: “a educação, a saúde, a inovação, as manifestações artísticas e culturais, a comunicação, o esporte e a diversão.”

= Uma tal economia nada tem a ver com um projeto quimérico, expressão de delírio. Trata-se de algo bem ao alcance da humanidade, a partir das riquezas existentes.

= “O destino universal dos bens não é um adorno discursivo da Doutrina Social da Igreja, mas é uma realidade muito anterior à propriedade privada. A propriedade privada, espefcialmente quando afeta os recursos naturais, deve estar sempre em função das necessidades dos povos.”

= Aqui, os movimentos populares têm um papel-chave: não se trata apenas de reclamar tais condições, mas de criá-las. Para tanto, “vocês são poetas sociais”.

= Segunda tarefa proposta pelo Papa aos movimentos populares: unir os povos para a justiça e a paz.

= Os povos do mundo querem ser artífices do seu próprio destino. Tentar negar tal direito implica em atentar contra a paz e a justça, implica em apelar para práticas colonialistas.

= Já há algum tempo, os pvos da América Latina vêm tentando recuperar a bandeira da “Patria Grande”, de modo a resperitar a soberania de cada povo e de articulá-los para o bem comum.

= Cabe aos movimentos populares empenharem-se no esforço de combater tentativas de neocolonização, a exemplo de planos do chamado “livre comércio” ou de planos de ajuste que só contribuem para apertar ainda mais o cinturão do trabalhador.

= Cita uma afirmação dos bispos latino-americanos, no Documento de Aparecida: “As instituições financeiras e as empresas transnacionais se fortalecem ao ponto de subordinarem as economias locais, sobretudo debilitando os Estados, que se apresentam cada vez mais impotentes para levar adiante projetos de desenvolvimento a serviço de suas populações.”

= Denuncia o monopólio dos meios de comunicação social, que impõem pautas alienantes de consumo, tentam impor uma uniformidade cultural, com intentos neocolonialistas de caráter ideológico.

= É preciso combater velhas e novas formas de colonialismo que reduzem os países periféricos a meros fornecedores de matéria prima e trabalho barato, agravando, assim, os problemas da violência, da miséria, migração forçada… justamente porque, ao negarem os direitos aos países periféricos, as grandes potèncias lhes negam o direito a um desenvolvimento integral.

= Ao combater vigorosamente todas as formas de velho ou de novo colonialismo, o Papa comete a coragem profética de reconhecer os pecacos da Igreja, no processo de colonização: “Em nome de Deus, foram cometidos muitos pecados contra os povos originários da América… Humildemente, peço perdão, não só pels ofensas da Igreja, mas também pelos crimes cometidos contra os povos originários, durante a chamada conquista da América.”

= “E junto com meu pedido de perdão, para ser justo, também quero que lembremos milhares de sacerdotes e bispos, que se opuseram fortemente à lógica da espada com a força da cruz.”

= Terceira tarefa que o Papa Francisco propõe aos movimentos populares: “Defender a Mãe-Terra”.

= Nossa Mãe-Terra está sendo saqueada. Grande é nossa decepção, ao constatar que, apesar de sucessivas conferências de cúpula sobre essa problemática, muito pouco se tem feito. Mas, sobre este tema foi escrita a Carta Encíclica “Laudato si´”, que lhes será distribuída, ao final. Os povos e seus movimentos são chamados a defender a Mãe-Terra.

= Para finalizar, quero dizer-lhes, de novo: “O futuro da humanidade não está só ns mãos dos grandes dirigentes, das grandes potências e das elites. Está fundamentalmente nas mãos dos povos, em sua capacidade de organizar-se”

Num sombrio contexto de crises múltiplas em que estamos mergulhados, uma palavra dessas nos anima, nos restitui a esperança, nos anima a lutar por outro mundo possível e necessário!