Domingo

Neste domingo, estou tendo uma experiência que gostaria de partilhar. Algo muito simples, até banal, poderia parecer. Mas não o é. A vida do dia a dia nos presenteia com algumas preciosidades que, na sua singeleza, preenchem a nossa alma. Saí para caminhar, como tantas outras vezes, pelas calçadas do meu bairro. Os bougainvilles da casa de em frente, os flamboyants. As cores lilás e amarelas, vermelhas. Tudo parece repetido, mas não o é. Saí andando e passei pela porta do prédio, o prédio em construção. Um senhor vinha no sentido contrário. Pensei em dar bom dia, mas não olhou para cá, e segui viagem.

Passei pela calçada da padaria. Gente tomando café da manhã. A verduraria, com as suas vitrines imensas. Cheiro de frutas e verduras. Passei em frente ao cursinho, se é que é um cursinho, com a calçada esburacada. O muro cinza. A avenida Epitácio Pessoa. Os carros virando para cá, os taxis no ponto. O banco do Brasil. As pessoas indo em direção à praia. Peguei por uma paralela ajardinada. Andei até o calçadão e voltei para casa. Uma alegria nova me aguardava. As aquarelas. Os papéis, os pincéis, os lápis, as cores. Sentei para repetir o exercício do dia anterior.  Ficar na frente dos papéis. Em volta das cores. A caixa com o carvão para desenho. A borracha. Isto era muito bom. É muito bom. Eu fui introduzido neste mundo pelos meus pais.

Agora estava ali, esboçando uns traços. As flores caindo sobre a calçada. A silhueta da minha esposa em baixo das folhas verdes. Os laranjas, vermelhos, lilases, subindo para o céu. Hoje é domingo. Um domingo começado no dia anterior. Na leitura das palavras de um livro que nos lembra: Deus sempre conosco. Emmanuel. Nem sempre é muito fácil sermos fiéis a nos mesmos. Mas é necessário. Sinto uma profunda veneração pela vida. Admiração. Surpresa. Reverência. Não sei qual seja a palavra certa. O certo é que tudo isto é verdadeiramente muito surpreendente.