Deficiências na cobertura e o papel dos blogs debatido em seminário

Larissa Rangel, da Agência UFRJ

Um diálogo entre os que noticiam a violência, os que tratam dela e os que a vivenciam de perto. Esse foi objetivo da discussão do segundo dia do Seminário Internacional “Mídia e Violência”, realizado no dia 27 de março no Salão Pedro Calmon do Fórum de Ciência e Cultura, no campus da Praia Vermelha. Pesquisadores, jornalistas e representantes da sociedade civil expuseram suas opiniões a fim de tornar possível uma nova realidade para a situação da segurança pública no Rio de Janeiro e no Brasil.

Segundo a pesquisadora Silvia Ramos, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), o Brasil é o sexto país do mundo com maior taxa de homicídios. O perfil das vítimas, segundo ela, inclui jovens negros do sexo masculino, em sua maioria. “Diante desse quadro, nossa grande preocupação quanto ao papel da mídia não é o pânico ou medo. O problema da mídia, no nosso país, é o silêncio”, explica.

Suas constatações evidenciam uma realidade esquecida nas favelas, que só passou a ser alvo da mídia a partir dos anos 90. “Não se trata de falar muito ou banalizar a situação. É preciso qualificar isso, pensar num debate crítico quanto ao silêncio que toma o assunto”, afirma a pesquisadora.

Cobertura reforça estereótipos

A professora Ivana Bentes, diretora da Escola de Comunicação (ECO/ UFRJ), falou sobre a imagem que a violência assume na mídia. Desde a década de 20, filmes costumam retratar o tema de forma caricata.

Para ela, a favela é sempre a fábrica de violência e o pobre, objeto de discurso criminalizante ou romantizado. Ela lembra que, apesar da adversidade, surgem projetos culturais partindo da própria favela, favorecendo a inclusão social.

Itamar Silva, coordenador do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), questionou a cobertura da mídia sobre a ocupação, desde novembro do ano passado, da polícia no morro Santa Marta, em Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro, onde atua como líder comunitário.

De acordo com ele, a visão da mídia reproduz a ideia de que só restaria à comunidade duas alternativas: ser subordinada aos traficantes ou aos policiais. “A favela tem que ser retratada na sua pluralidade.”

Nesse mesmo sentido, Tião Santos, coordenador da Rádio Viva Rio, defendeu um diálogo maior entre a favela e a sociedade em geral. No entanto, ele afirma que não há interesse por parte da grande mídia nessa interação.

O papel dos blogs

“Jornalismo, Segurança Pública e Blogs” foi o tema da apresentação de Jorge Antonio de Barros, editor-adjunto da editoria Rio de O Globo e editor do blog “Repórter de Crime”. Para ele, os blogs são “a grande revolução e alternativa da mídia”.

– O blog conseguiu fazer uma crítica do poder que não se vê na mídia tradicional – afirma.

Mauricio Segura, editor do blog “Montréal Nord”, abordou os problemas que o Canadá vive, mais especificamente o relacionamento entre os moradores de um bairro composto, majoritariamente, por imigrantes e o resto da população. “Trata-se de uma situação muito peculiar, em que os grandes vilões são os imigrantes”, afirma. Na sua página virtual, ele escreve artigos sobre a vida no local após a morte de um jovem, que desencadeou manifestações e uniu as comunidades para discutir sobre o combate à violência.

Todos os integrantes da mesa de debates defendem uma nova postura da mídia, mais participativa, interativa e consciente quanto ao real problema da violência.