Da sabedoria da pirralha e da demência dos senis: efeito deletério da necropolítica

“Eu te bendigo, ó Pai (…), porque ocultaste estas coisas aos prepotentes, e as revelaste aos pequenos.”. (Mt 11,25-30)

“Depois disto, derramarei o meu espírito (…) Vossos filhos e vossas filhas profetizarão (…), vossos jovens terão visões”. (Jl 3-4)

Revisitando malfeitos recentes e menos recentes das “bilionários oligarcas” revela-se fulminante o consórcio das elites do atraso. A memória histórica dos oprimidos se e quando adequadamente exercitada, segue sendo uma preciosa fonte de compreensão objetiva da realidade. Neste sentido, sempre vale a pena revisitar figuras de referência no processo analítico (também da realidade brasileira). Dentre tais figuras de referência, aqui pensamos especialmente em duas: Florestan Fernandes e Darcy Ribeiro. Quanto ao primeiro, vem-nos à lembrança uma de suas reflexões, apresentada a participantes de um seminário, promovido, em 1971, pela Universidade de Harvard (como recentemente lembrou seu filho Florestan Fernandes Jr., em pronunciamento feito ao canal TV 247), acerca daquela conjuntura brasileira. Naquela ocasião, Florestan Fernandes tinha a compreensão de que o Fascismo não morre com Mussolini, mas continua cumprindo o papel de braço militar do neoliberalismo. Por sua vez, tornou-se conhecida a afirmação de Darcy Ribeiro, segundo a qual as elites latino americanas compõem o que há de mais perverso no ideário das elites mundiais.

Ainda que necropolítica não possa e não deva restringir-se aos tempos atuais – de fato, já há um tempo considerável, temos presentes suas manifestações, ainda que em graus diferenciados – de uma década para cá, este fenômeno se tem acentuado consideravelmente. Suas manifestações mais recentes seguem afetando profundamente o planeta, os humanos e toda a comunidade dos viventes.

Nos últimos dias, por exemplo, mais algumas manifestações do mesmo fenômeno. A conferência organizada pela ONU, desta vez em Madrid, acerca da emergência climática, pode constituir-se num desses exemplos. Outro que vem tendo lugar no Reino Unido, diz respeito à acachapante vitória eleitoral de aprovação do Brexit, confirmando os propósitos das forças mais obscurantistas que, ao se separarem da União Europeia, tendem a ser atraídas ainda mais por Trump, em sua desastrada política de ameaça às condições de vida do planeta e dos humanos. Vale a pena comentar, mais detidamente, estes aspectos reveladores da plena vigência da estratégia mais conhecida como fake news, intimamente associada ao paradigma da pós verdade. Por outro lado, como contrapontos destes dois exemplos ilustrativos, entendemos oportuno sublinhar a importância do processo formativo das classes populares, assunto do qual devem ocupar-se as organizações de base de nossas sociedades, em especial, os movimentos sociais populares lidando com o empenho na construção de um novo modo de produção, de um novo modo de consumo e de novo modo de gestão societal, alternativos à barbárie capitalista. Destas questões nos ocuparemos, nas linhas que seguem.

Encerrou-se, anteontem, dia 15 de Dezembro de 2019, a conferência sobre a emergência climática, organizada pela ONU e realizada em Madrid. A quem se deu ao trabalho de acompanhar mais de perto os debates e as deliberações dos chefes de estado e de governo de cerca de 200 países, deparamo-nos com uma nova situação de impasses, dando sequência, aliás, às decisões tomadas, mas não cumpridas, em conferências precedentes, em sua grande maioria, reféns dos mesmos protagonistas do paradigma da pós-verdade, por força do qual fazem valer suas estratégias de fake news e outras similares. Estamos a assistir a mais uma conferência cujo processo e cujos resultados correspondem a mais um descompromisso entre o que dizem e o que fazem os protagonistas desta conferência, ressalvadas as exceções. Como em ocasiões anteriores, a enorme maioria destes chefes de estado e de governo não se cansam de prometer medidas consensualmente deliberadas, ao tempo em que, de volta aos seus respectivos países, fazem letra morta dos compromissos assumidos de boca para fora, o que nos remete a um conhecido dito italiano: “Fra il dire e il fare, c´è in mezzo il mare”. Eis porque, bem nos solidarizamos com a iracûndia profética da “pirralha” Greta Thunberg contra a hipocrisia reinante entre a enorme maioria dos chefes de Estado e de Governo, inclusive o desastrado representante do “des”governo brasileiro.

O processo de humanização não é algo por si mesmo garantido. Tem-se, com efeito, avanços e retrocessos, Isto é, passos em direção a um Horizonte de humanização, e passos de regressão, de desumanização. Entre nós, o famoso homo sapiens vem sempre acompanhado de um contraponto. O “homo sapiens” e o “homo demens” disputam intensamente sua prevalência. É no chão da história, que as mulheres e os homens são capazes de fazer suas escolhas, ora escolhas de vida, ora escolhas de morte de certo modo. Por vezes convivem estas duas dimensões, na humanidade, outras vezes, prevalece um ou outro, sempre a depender das condições sócio-históricas nas últimas décadas. Na atual conjuntura, o homo demens parece ganhar terreno. Diversos episódios que se sucedem ou coexistem, na atualidade são capazes de atestar tal experiência.

Na última década temos assistido há uma multiplicidade de episódios, animados pela estratégia mais conhecida como fake news, expressão do paradigma da pós-verdade nos Estados unidos, na Inglaterra, na Hungria, na Itália, na América Latina, no Brasil e em outros países, este conjunto de episódios nefastos tem em comum a presença das fake news. Começando pelos Estados Unidos, tem se notabilizado algumas personalidades, tais como a de Steve Bannon, especializadas na produção deste fenômeno. Este constitui talvez o exemplo mais ilustrativo dos principais protagonistas deste fenômeno, das fake news, uma grande onda de produção de notícias falsas de boatos, de calúnias contra adversários, por meio de algoritmos, amplificando consideravelmente os efeitos, a frequência e a intensidade, a medida que, produzidas em grande escala, são enviadas massivamente por vários canais. Fake news tem feito o trágico diferencial, especialmente, nos períodos de campanha eleitoral. Assim sucedeu na campanha presidencial de Donald Trump, assim se deu, igualmente, na influência na Siva dos eleitores e eleitoras do Reino Unido, em busca da aprovação do BREXIT, assim tem ocorrido em outros países. No caso do Brasil, a mesma estratégia revela-se especialmente eficaz por outro lado, convém não superestimar-mos o alcance desta estratégia, pelo menos não em relação a consciência cidadã em condições ordinárias, as fake news não teriam um alcance tão amplo, ou mesmo teriam um efeito bastante localizado ou marginal, no caso de termos cidadãos e cidadãs no exercício de sua capacidade crítica, na posse de suas condições de escolha fundada em dados concretos da realidade. Infelizmente, as populações atingidas por esta estratégia se revelam extraordinariamente vulneráveis, um exemplo disto é a revelação de dados recentes, relativos ao chamado Pisa, um programa internacional de avaliação do desempenho dos estudantes secundaristas ou do ensino básico no caso do Brasil, um desses dados revela-se particularmente intrigante, para não dizer escandaloso: de cada dez estudantes brasileiros, quatro não conseguem distinguir a diferença entre um fato e uma opinião, situação ainda mais grave podemos esperar dos segmentos adultos… isto tem bem mais a ver com com o papel histórico das forças de transformação, isto é, as organizações de base de nossas sociedades, em especial os movimentos sociais populares, comprometidos com a construção de uma sociedade alternativa a barbárie do capitalismo, sobretudo, e estas a responsabilidade de acompanhar, diuturnamente, o processo formativo das classes populares, até porque delas o estado não costuma cuidar. Resulta temerário entregar-se tal tarefa ao Estado, sabendo-o um dos dos componentes essenciais do próprio sistema que dizemos combater. Com efeito, ao lado do mercado capitalista, o estado se revela um parceiro estratégico essencial, sem o qual as transnacionais que atuam em todas as esferas da vida (na economia, na política, na cultura, e na religião…) Não lograriam implementar suas políticas econômicas, fonte principal de desigualdades sociais, de acumulação incessante de riquezas sob o controle de uma pequena minoria de oligarcas bilionários, em especial os que controlam o sistema financeiro, sem a decisiva contribuição ou cumplicidade dos governantes. É obra das classes populares, das e dos que animam, a tarefa histórica de assegurar condições do processo de humanização, inclusive no que diz respeito à educação e a cultura.

A vasta onda que se espalha por diversos países, inclusive o Brasil, vem caracterizada  por fortes elementos de obscurantismo, marcada por uma longa sequência de ações de necropolítica, constituindo-se grave ameaça à vida do Planeta e dos humanos. Valendo-nos do caso do Brasil, ainda que fortemente conectada a outras realidades, tais como Estados Unidos, Inglaterra, Itália, Hungria e outros países vale a pena ressaltar seus aspectos mais contundentes, Um primeiro ponto a merecer atenção, tem a ver com o desdém ou mesmo o ódio espalhado contra os “de baixo”. Estamos diante de um caso ululante de “Ptocofobia” (ojeriza, ódio aos pobres).

Há também quem chame este fenômeno de “Aporofobia” atribuindo o mesmo significado de ódio aos pobres, e a partir daí tal ódio vai se desdobrando pelas mais diversas situações existenciais, de vida, de trabalho, envolvendo os pobres, em outras dimensões.

Neste sentido, vai se cultivando este ódio em relação ao Planeta e ao conjunto de seus seres. A Mãe Terra transforma-se em mero objeto de exploração e de acumulação de riquezas, pouco importando a devastação produzida nas florestas, no solo, no subsolo, nos rios, nos mares, na fauna, na flora, nos humanos… Eis a face ecocida dos adoradores de Mamon! Em seu pungente gemido à Mãe Terra é dispensado pelos novos Midas, tratamento semelhante ao que eles emprestam aos demais “Ptokói”, aos demais pobres.

Assim também se comportam em relação aos povos originários, às comunidades quilombolas, aos povos das águas, das florestas, aos ribeirinhos, aos pescadores e aos camponeses, do alto de seu racismo. A tais dimensões que impregnam as práticas dos plutocratas se acham intimamente associadas misoginia (ódio às mulheres), à homofobia, o negacionismo, a visível traição aos valores do Evangelho…

Mais uma vez, não é demais lembrar a ira de que são tomados os jovens (também adultos e pessoas idosas) contra os gestores oficiais da maioria dos países, em suas decisões desastradas em relação à sorte do planeta e dos humanos.

Como deduzir de práticas semelhantes vínculos com o Deus anunciado por Jesus de Nazaré sem que isto não implicasse em alguma forma de traição ao Evangelho?

Como entender que esses mesmos segmentos de eleitores e eleitoras de Bolsonaro manifestassem profundas discordâncias com seu concorrente? Nada a censurar nem a cobrar deles quanto a este aspecto, mas, como entender que a única via alternativa seria votar em Bolsonaro? Aí reside seu grave equívoco! Equívoco que tem custado um preço altíssimo, em razão dos sucessivos e graves estragos ao povo brasileiro, sua terra e sua gente… 

João Pessoa, 17 de dezembro de 2019.