Crescendo

O que o que estou fazendo tem a ver com a minha história de vida? Como se encaixa na minha trajetória existencial? Quando fazemos esta pergunta, estamos a tentar juntar passado e presente, desconectar a repetição mecânica, sem sentido, de atos. A abordagem barretiana (1) possui um sem número de perguntas desta ordem, em que o que interessa mais não é a resposta ou as respostas que se possa dar, e sim o espaço criado pela pergunta. A pergunta me descola do mecanicismo, da ação vazia, oca, sem sentido.

Você somente tem sofrido, ou tem crescido com os seus sofrimentos? Todos sofremos, mas as nossas dores podem servir para um crescimento. Isto não é uma tarefa especulativa, meramente mental, intelectual. Eu posso ter sofrido perdas, dores imensas na minha vida, e ter-me colado, por assim dizer, a elas, como vítima, como apenas alguém que sofre ou sofreu. Posso olhar para o que ganhei, o que ganho, o que estou ganhando graças a estas dores que tive ou tenho. Não é um culto ao masoquismo, e sim o contrário. É aprendermos a crescer com o que nos faz ou nos fez sofrer. Estas reflexões não são banais, mas libertam. Por serem simples, tem um efeito enorme e imediato, muitas vezes. Podemos ir construindo uma vida mais feliz, a través de perguntas que nos libertam do passado, da culpa, da auto-punição tão comum na nossa cultura.

Estas perguntas mobilizam a sabedoria interior da pessoa, a sua resiliência, o que cada um ou cada uma aprendeu na sua vida. Quebra-se a vitimização, abre-se um espaço para a felicidade, para o novo, para o “eu posso”.

Escrevo estas coisas, e alguma tristeza muito grande se faz presente. Tento pensar no que aprendi com aquela dor. Tenho feito este exercício vezes sem conta desde que comecei a tentar me livrar da posição de vítima. A cultura dominante faz com que o homem reprima o seu choro. Mas é bom chorar. Como não chorar, diante de tantas aberrações que nos tocou viver? Poderemos depois rir delas se primeiro chorarmos. Não estou escrevendo um texto técnico, isento, não acredito nesse tipo de coisa.

Esta tarde, ao escrever estas coisas, vem uma antiga tristeza, ou muitas. Dores antigas se fazem presentes. É como uma escadinha, uma se engancha com a outra e começa a chover. O choro é interno, e vem o choro externo. Por que perguntar a alguém por que chora? Não é melhor chorar? A pergunta leva a intenção de parar o choro. O choro detido, reprimido, é um bloqueio. O choro não é um ato intelectual, por isso, embora tenha razões, não precisa delas. Pode chorar, mesmo, é muito bom.

Hoje veio a tristeza por coisas que ocorreram em tempos em que eu era estudante de sociologia em Mendoza, na Argentina. Hoje me via escrevendo, como naqueles tempos, e veio o choro. Não tem como não chorar ao lembrar de horrores e abominações. Mas hoje vejo que essas dores do passado tem uma relação simétrica com uma plenitude do presente. Como se uma coisa levasse a outra. Não sei se é assim, mas aprendi a tentar buscar uma vitória nas derrotas, uma alegria nas tristezas. Creio que isto ocorre com todo mundo.

Passei anos me punindo por ter sobrevivido, por não ter morrido durante a ditadura. Hoje lembro daquilo, aquilo volta a memória, mas de outra forma. Soube de pessoas que passaram por dores inimagináveis para mim. Quando a minha dor e as dores das pessoas em volta se encontram, surge a empatia. Já não estou só. Juntos podemos crescer. Cresci e seguirei crescendo, como todo mundo cresce. Com as dores, e com a capacidade coletiva que temos, como seres humanos, de nos espelharmos uns nos outros e irmos construindo coletivamente, caminhos de amor, de justiça e de paz. A vida ganhou um valor incomensurável.

(1) Adalberto Barreto, criador da Terapia Comunitária Integrativa.

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