Coronel que participou da missão de paz do Haiti considera que conflito armado do Rio é pior

Coronel do Exército considera que a situação dos conflitos entre polícia e traficantes no Rio de Janeiro é pior que a guerra civil por que passou o Haiti. Ele mostra argumentos em relação a essa sua opinião e faz considerações a respeito do futuro do Brasil na missão de paz da ONU no Haiti. Por Jenifer Corrêa

“O Rio é pior que o Haiti” é o que afirma o Coronel de artilharia Cunha Mattos, chefe do setor de Informação Pública do Centro de Comunicação Social do Exército, comparando a gravidade dos conflitos armados existentes nos dois locais. Tráfico de drogas, armamento e topografia, segundo Mattos, são os três fatores básicos de diferenciação.

No último dia 20 de outubro, no VI Curso de Jornalismo em Situações de Conflito Armado, sediado na Oboré, o Coronel afirmou que no Rio de Janeiro a motivação do conflito é peculiar: o tráfico. “No Rio, o traficante defende seu negócio”. Enquanto aqui a intervenção da polícia prejudica os interesses comerciais do traficante, no Haiti, segundo Mattos, não havia essa persistência em defender os pontos de tráfico de drogas. Lá, esses pontos limitavam-se a vender a maconha consumida internamente e repassar a cocaína que seria consumida nos EUA.

A estrutura comercial do tráfico do Rio é mantida pelo forte armamento em poder dos traficantes. O Coronel destaca o fato de eles possuírem armas que nem as forças armadas possuem. No Haiti, as armas apreendidas eram antigas e de menor poder de fogo.

Além da disparidade de armamento, a posição física ocupada pelos traficantes cariocas dificulta muito a intervenção policial. Por estarem em cima do morro, eles possuem o que o coronel chama de “comandamento”. É muito mais difícil para a polícia subir alvejada por tiros. “No Haiti, entre a tropa de paz e os inimigos, era zero a zero. Era tudo plano”.

Intervenção no Rio

Questionado sobre a possibilidade de intervenção no Morro do Alemão, o Coronel afirma que o Exército está preparado tecnicamente para qualquer ordem que lhe seja dada. Considera, entretanto, que a legislação brasileira dificultaria uma intervenção do Exército no Rio. “O Exército não tem poder de polícia. Não pode revistar pessoas e casas. Só pode prender em caso de flagrante, como qualquer cidadão”.

No Haiti, o Coronel relata que as regras da Organização das Nações Unidas (ONU) a que as tropas estavam submetidas lhes davam um poder de atuação maior que a legislação brasileira dá ao Exército. Ele exemplificou o capítulo sete da Carta da ONU que, segundo ele, dá margem para uma série de liberdades como um mandato de busca e apreensão permanente e a permissão de os soldados atirarem em pessoas armadas, mesmo que elas não estejam apontando a arma contra eles. A Carta da ONU é uma espécie de Constituição das Nações Unidas que regulamenta a atuação da organização em negociações e missões armadas.

Mattos relata ainda que sua experiência no Haiti o fez considerar que a solução para o Rio não é simplesmente invadir as áreas de conflito e, em seguida, sair, como tem sido feito até então. “Não tem solução se você não entrar e ficar. Se patrulhar e sair, o bandido volta”. Entretanto, ele faz a ressalva de que essa ocupação deve durar um tempo determinado pois, se for muito longa, dá espaço para a corrupção. “Todo mundo tem um preço”, diz.

O Coronel exemplifica a eficácia dessa permanência com o episódio do roubo dos fuzis do Exército em março de 2006. Como o Exército não tem autoridade para revistar as casas, ele fechou as entradas de várias favelas, impedindo a entrada de drogas. As armas foram encontradas enterradas perto da favela da Rocinha. Para Mattos, os traficantes devolveram as armas por uma questão econômica. “Era mais barato devolver os fuzis que ficar sem o rendimento do tráfico”.

A experiência no Haiti

Coronel Mattos relata que a ONU já manifestou interesse em a tropa brasileira ser a última a sair do Haiti. Segundo o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-Mon, a Minustah (Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti) deve ainda garantir a realização das próximas eleições no país. Elas estão previstas para 2011.

O Coronel afirma ainda que já houve proposta para o Brasil chefiar outras missões da ONU. Um exemplo é a construção de um hospital militar no Sudão. Ele aponta, no entanto, o problema da falta de recursos do Exército brasileiro. Para chefiar uma missão da ONU, o país deve ter o maior contingente militar no local. O Coronel informa que o Exército só tem capacidade financeira para manter uma missão fora do país.

Coronel Cunha Mattos está no exército desde 1979 e há três anos atua no setor de Informação Pública do Centro de Comunicação Social do Exército. Esteve presente em duas missões da Organização das Nações Unidas. Entre 1993 e 1994, atuou como observador militar no conflito entre Uganda e Ruanda e há cerca de um ano voltou do Haiti, onde chefiou a Comissão de Comunicação Social da missão de paz.