Conversa delirante com o menino

Naquela tarde, o jovem menino caminhava pela a estrada que dava direto ao centro da cidade. Um município pequeno em que era fácil as pessoas se conhecerem ao mesmo tempo que podiam compartilhar algo de suas vidas.

Em um determinado momento, o menino vê um senhor franzino, de cabelo grisalho, aparentando 80 anos, consumido pelo tempo e pela doença que o assolava. Apresentava uma diabetes de difícil controle que o levou a um AVC que o paralisara em uma cadeira de rodas. Curioso o menino perguntou:

– Que houve, senhor, com suas pernas?
– Eu tive um problema de saúde que me deixou em uma cadeira de rodas. Se chama derrame. Eu tenho pressão alta e diabetes e infelizmente as doenças avançaram muito e me tiraram o prazer de caminhar, bem como ver bem a vida.
– O senhor é cego? Disse o menino perguntando ao homem que apontava aos olhos no seu discurso.
– Não. Apenas enxergo pouco. A catarata e a diabetes me diminuíram a visão.

O menino começou a coçar a cabeça e a pensar sobre o que o senhor havia dito. Começou a imaginar sobre a dificuldade em viver a “boa idade”:

– Então não vale a pena ser velho se ao final, não se pode brincar, andar e ver a coisas da vida.
– Tudo caminha em volta daquilo do que você tem como perspectiva -disse o senhor-. Você hoje é jovem e pode desfrutar de uma serie de coisas que deseja viver e comer sem a preocupação das limitações físicas ou de doenças porém, o tempo é finito e chega uma hora em que envelhecemos e, com isso, o que era flexível, endurece. O que era elástico, enruga, as pernas já não possuem a mesma firmeza, mas a experiência com os anos adquiridos impera e nos deixa ir por lugares antes passados e com alegria vividos.
– Ah. Entendo. Disse o menino. A gente aprende na escola que devemos sonhar. O senhor sonha?
– Sonho sim. Disse o homem.
– E o que o senhor sonha?
– Eu gostaria muito de não me sentir inútil. Desejaria não atrapalhar a vida dos meus filhos a ponto deles viverem sem o excesso de preocupações comigo. Queria poder comer de tudo que eu quisesse depois de ter sofrido tanto para conquistar. Que houvesse menos preocupação comigo com realização de exames prevenindo doenças que eu não tenho como o câncer de próstata. Afinal, urino bem apesar da diabetes.
– O senhor já falou isso com eles? Perguntou o menino.
– Falo mas eles não escutam. Dizem que velho não responde por si. Tem que fazer o que os filhos mandam.
– Vô. Vamos para dentro é hora tomar seus remédios e seu banho. Disse uma jovem de aproximadamente 25 anos empurrando a cadeira de rodas para dentro da casa, ao mesmo tempo que esticou os olhos para o menino e disse em bom tom: ele está delirando com a idade. Não sabe o que está falando.
– O menino pegou o seu skate e seguiu viajem, pensativo sobre o verdadeiro delírio humano.

Brasileiro, Casado. Médico formado pela Escuela Latinoamericana de Medicina (ELAM) em Havana -Cuba. Especialista em Medicina de Família e Comunidade pela Secretaria de Saúde de Sinop (MT). É professor de medicina na Universidade Federal de Mato Grosso. Realiza promoção de saúde com quadro semanal em rádio e televisão em Sinop (MT) ademais de palestrante e músico.

Seções: Atitude!, Cotidiano, Saúde.