Como Eram as “Vítimas” de Battisti?

Simbolo do MSI Italiano. Logotipo de domínio público

Simbolo do MSI Italiano. Logotipo de domínio público

Desejo agradecer à companheira Amparo Ibáñez, que me forneceu parte da documentação usada neste artigo, e me informou sobre livros e artigos recentes na área.

Sobre as vítimas do PAC, carregadas na conta de Battisti pelos próprios autores dos crimes (ou seja, Santoro, morto por Mutti, com ajuda de Miglioratti e Giacomin; Torregiani, morto por Fatone, Memeo, Sebastiano Masala e Grimaldi; Campagna, morto por Memeo; e Sabbadin, morto por Giacomin com ajuda de Mutti) sabe-se muito pouco. Até Torregiani, sempre lembrado por seu filho, cujos mais simples comentários ganham enorme repercussão na mídia, não é suficientemente conhecido. O que se sabe deles é um conjunto de dados fragmentários, nem sempre consistentes, descobertos muito depois, quando Cesare voltou à França e seus amigos lhe ajudaram a reconstruir a fraude dos julgamentos de Milão. Mas, mesmo assim, a história é lacunar.

Apesar disso, queremos passar o mais perto possível da resposta a esta pergunta:

Como eram aqueles 4 homens que foram assassinados por Mutti, Miglioratti, Giacomin, Fatone, Memeo, Sebastiano Masala e Grimaldi, mas cujo homicídio se atribui totalmente a Battisti?

Fontes Virtuais e Impressas

Da Associazione Italiana Vittime del Terrorismo (AIVITER), tenho tomado apenas dados básicos sobre os mortos. O site está construído com cuidado, mas evita informações detalhadas. Os editores não podem ignorar totalmente o terrorismo “nero” (de direita), porque alguns membros da associação são parentes de vítimas dos fascistas. Mas, mesmo assim, diminuem todo o possível a responsabilidade da direita. Duas ou três vezes se usa a palavra “fascismo”, mas nunca se denuncia um executor ou uma organização fascista pelo nome.

A esquerda, entretanto, é amplamente denunciada. Fala-se muitas vezes das BR, dos PAC, se dedica uma página a Battisti e outra a Matina Petrella, se critica que Curcio, já liberado, possa proferir palestras, e alguns propõem que qualquer pessoa próxima da esquerda real seja proibida de ter cargos públicos. Das chamadas stragi (grandes explosões com dúzias de mortos e mutilados) apenas duas são explicitamente atribuídas ao terrorismo de direita (Vide). São as de Fecha (12/07/70) e ao do Rápido 904 (23/12/84). Outras seis, algumas com quase 100 mortos, aparecem na coluna maior sem referência aos autores. Em alguns casos, o site fornece links para outros portais cujos editores sim denunciam criminosos fascistas (como Mambro), mas o AIVITER faz esta referência como simples serviço, sem assumir responsabilidade. Usualmente, AIVITER reserva o termo “terrorista” para a esquerda e “extremista” para a direita, quando não pode evitar mencioná-la.

Em nenhum local do site figuram as vítimas de morte sob tortura policial, como o anarquista Giuseppe Pinelli, e se ridiculariza os que falam do terrorismo de estado, como Adriano Sofri. Manifestam mal-estar com os políticos acomodados, aos que acusam de linha muito branda contra os exilados, e propõem ações diplomáticas agressivas contra países como França, que respeitam, mesmo precariamente, o direito de asilo.

Também os mercenários que participam das invasões da coalizão em Afeganistão e Iraque são incluídos entre as vítimas do terrorismo (ou seja, a resistência nacional desses países) (Vide). Portanto, o site é de utilidade escassa, mas não quis se acusado de parcialidade.

Tenho usado também as fontes da cooperativa Sensibili alle Foglie, no Progetto Memoria tanto no que se refere aos volumes narrativos dos Anos de Chumbo (Roma, 1994, 1996, etc.), como aos seminários.  REFERÊNCIA: PM.

Foram de essencial ajuda alguns textos jornalísticos de La Repubblica, Corriere, Il Giornale outros, e revistas como Panorama. REFERÊNCIA: Por título.

Também usei os ensaios e relatos de Claude Mesplède, Claude Amoz, Alexandre Bilous, Valerio Evangelisti, Michèle Lesbre, Dominique Manotti, Patrick Mosconi e Roberto Bui, editados por Fred Vargas. (La Verité Sur Cesare Battisti, Ed. V. Hamy, 2004). REFERÊNCIA: VCB.

O site Polvere Da Sparo está mantido por militantes de DH de esquerda, mas quem deseje confirmar a veracidade poderá compulsar os outros sites e estabelecer relações. REFERÊNCIA: PS.

Tenho omitido livros do próprio Battisti e minhas conversas com ele, e outras fontes influenciadas emocionalmente. Alguns dos jornais e capítulos de livros se encontram na Internet, e podem ser acessados livremente. Não posso digitalizar e colocar em meu site o resto do material, porque parte dele deve ter direitos autorais, mas posso emprestá-los a quem se comunicar comigo. (http://ocasodecesarebattisti.blogspot.com/)

Foto de autor desconhecido

Foto de autor desconhecido

O Chefe Antônio Santoro

Antonio Santoro era o comandante geral dos carcereiros da prisão judicial de Udine, (“Maresciallo della Polizia Penitenziaria”). Sua figura é a menos discutida, pois, enquanto a corporação policial e o governo fazem homenagens a sua memória, guardam silêncio sobre os detalhes de sua conduta, limitando-se a dizer que morreu cumprindo seu dever. Santoro foi executado em Udine no dia 06/07/78.

Já as pessoas que Santoro maltratou na prisão de Udine, ou torturou ou mandou torturar, têm deixado depoimentos claros, pois quase todos os prisioneiros sobreviveram. Alguns resilientes comparam sua situação com a dos presos argentinos, mas a repressão italiana foi muito menor em quantidade, e os tormentos aplicados foram (na linguagem do manual da CIA) de leves a moderados: espancamento, chutes, privação do sono, ameaças de morte contra familiares, humilhações, afogamentos e queimaduras leves. Foi escasso o uso do choque elétrico e de mutilações com chamas ou com armas brancas. Não se relatam casos de uso do pau-de-arara. A tortura química, que produz alucinações e delírios com drogas fornecidas pela CIA, parece que foi introduzida depois de 1980. A existência de tortura em Udine e Verona concordam com as denúncias feitas por Anistia Internacional, nos relatórios que abrangem desde 1977 até 1981. Veja estes relatórios em meu site:

https://sites.google.com/site/lungarbattisti/documentos/anistia-internacional

Os detalhes sobre as torturas aplicadas sob a supervisão de Santoro estão relatados com detalhe pelas vítimas, no PM, vol. 1º, p. 403. Já o clima geral de violência e tormentos, de maneira mais genérica, é descrito no PM, vol. 3º, PP. 364-365.

O grupo de Proletários Armados para o Comunismo teve muito envolvimento com policiais e carcereiros, porque seus grandes objetivos eram: evitar as torturas, punir os torturadores, combater o trabalho informal (comum na Itália comparando com outros países ricos), e desmontar os esquadrões da morte de empresários, cujo objetivo era exterminar (limpar=pulire) elementos marginais: pequenos ladrões, sem teto, mendigos, etc.

O interesse do PAC pela vida prisional é uma herança direta da contracultura, e se relaciona com as propostas de filósofos e pensadores humanistas, como Camus e Sartre. A ideologia anti-repressão do PAC lembra Michel Foucault (que estava em seu apogeu na época), mas com uma tendência prática e ética, sem adotar essa espécie de neutralidade niilista que o filósofo francês tomou de Nietzsche.

Os membros do PAC, especialmente seu ideólogo Arrigo Cavallina, se referiam à prisão italiana como “lager especial do estado”. A palavra lager, com vários sentidos em alemão, foi usada pelos sobreviventes dos campos de concentração nazistas para indicar depósitos de prisioneiros e áreas de extermínio, como Auschwitz. O termo foi muito empregado por judeus e outras vítimas do fascismo, e alguns movimentos da contracultura, como a Autonomia Operária, Prima Línea e outros o introduziram no italiano como um vocábulo próprio.

Os PAC não foram os primeiros em descobrir o caráter desumano das prisões italianas, mas talvez foram os que mais colocaram ênfase nisso, sem preocupar-se pelos objetivos da esquerda utilitária, como obter o poder, ganhar deputados, e escalar a pirâmide do status no capitalismo.

No vol. 3º de PM, p. 364, vítimas de Udine denunciam que as prisões judiciais dessa cidade e de Verona foram usadas, durante a década de 70, como laboratório para testar um método que destruísse a resistência moral do prisioneiro, fosse político ou comum. A comparação com o lager alemão foi um grande acerto, porque, depois do nazifascismo original, a Europa Ocidental não continuaria tolerando campos de concentração. Então, eles foram substituídos por modelos prisionais de “extermínio moral”. Isto não excluía a tortura (que era uma parte relevante, mas não exterminava fisicamente o prisioneiro), nem visava necessariamente danos irreversíveis, embora estes fossem frequentes. O objetivo era anular seu senso de dignidade, e torná-lo um servidor indefeso que as empresas (que tinham crescido primeiro com o fascismo e depois com a democracia) pudessem os utilizar como ferramentas.

Nesses documentos, Antonio Santoro é denunciado como organizador de torturas. De fato, apesar da purga feita pelo democrata cristão Scelba, depois da guerra, de elementos esquerdistas e democráticos no serviço público, os órgãos policiais e judiciais não ficaram totalmente nas mãos dos fascistas. Portanto, a impunidade para o terrorismo prisional, mesmo muito grande, não era absoluta. Isso fez possível que Santoro fosse denunciado várias vezes pelos detentos e alguns corregedores abriram sindicâncias contra ele, rapidamente arquivadas.

Uma observação importante é que, durante o tempo que esteve preso em Udine, antes de conhecer Cavallina na prisão, e posteriormente unir-se aos PAC, Cesare fez várias denúncias sobre tratamento cruel e desumano por parte de Santoro e os policiais a seu mando (que eram todos). Este é um dos aspectos pelo qual tornou-se, anos depois, objeto de ódio dos carcereiros, embora eles soubessem que não era o assassino de Santoro. A militância de Cesare contra a tortura foi possivelmente uma das causas para que, ao ser capturado em 1979, depois de ter abandonado o PAC, lhe fosse aplicada uma pena brutal para um delito político de guarda de armas e associação subversiva (12 anos e meio de reclusão). Também isso explica as ameaças que atualmente se fazem contra ele, no suposto caso que fosse deportado.

Santoro é longamente criticado nos textos do PM. Alguns sobreviventes contam que ele fechou todos os canais que pudessem tornar a vida dos prisioneiros menos desumana. Por exemplo, autoridades anteriores tinham criado um campo desportivo para recriação dos detentos, como era habitual nos países civilizados da Europa. Santoro mandou limpar esses terrenos e dentro dele construiu sua própria residência.

Transcrevo um trecho da página 364.

“A propaganda do sistema pretende nos escandalizar porque na Argentina, enquanto se joga futebol [era a época da Copa do Mundo no país] milhares de pessoas são sequestradas […], porém a Argentina é aqui também […]. Milhares de operários nas cidades italianas são sepultados nos lager dos estados democráticos, chamados “cárceres especiais” condenados ao isolamento perpétuo, à privação das relações sociais, dos afetos, da percepção, da assistência médica. São condenados a morrer sob longo tempo; é um genocídio de mãos limpas. […]

“Durante muito tempo, Udine é destinado a lager especial. […] O comandante canalha Antonio Santoro era a pessoa perfeitamente adequada ao projeto de extermínio desejado pelos partidos constitucionais: massacrador de detentos de antiga data, existem denúncias e processos em curso […]” [Grifos meus]

Foto do site AIVITER

Foto do site AIVITER

O Pacífico Açogueiro

Lino Sabbadin (1933–1979) era um açogueiro da minúscula aldeia de Santa Maria di Sala, no Veneto, que hoje tem 16 mil habitantes. Apresentado pela AIVITER e pela maioria dos órgãos da mídia italiana (e, depois da brasileira), como um pacífico cidadão que ganhava a vida atendendo pacatamente sua loja, Sabbadin era, entretanto, filiado ao Movimento Sociale Italiano (MSI), um partido político de ultradireita.

De fato, o MSI foi filho da geração posterior ou contemporânea de Mussolini. Foi fundado em dezembro de 1946, por Giorgio Almirante e Pino Romualdi, que eram figuras importantes do Segundo Governo Fascista (da chamada “República de Salò”, que Mussolini instalou no Norte da Itália, sob proteção dos alemães), e por Arturo Michelini, um membro do fascismo original e um terrorista voluntário da Guerra Civil Espanhola. Foi o segundo homem depois de Mussolini, a partir de 1939.

Obviamente, que Sabbadin fosse fascista militante não justifica nenhuma agressão contra ele, nem mesmo qualquer punição jurídica, uma vez que o fascismo não é ilegal na Itália, da maneira em que é em muitos outros países (inclusive alguns que nunca sofreram o fascismo, como a Suécia). Entretanto, condenar seu assassinato é uma coisa, e vender uma falsa imagem de cidadão pacífico é outra diferente.

Há alguns meses, quando já o caso Battisti tinha passado por seu ápice, a mídia brasileira, imitando sua colega italiana, começou a difundir a versão de que era falso que Lino estivesse filiado ao MSI. A declaração tardia de seu filho, que, pelo jeito, não lembrou antes de fazer justifica à memória de seu pai, foi repetida ad nauseam. Em qualquer um dos libelos da imprensa vernácula, pode ver-se repetida esta afirmação, qualificada como calúnia dos seguidores de Battisti e coisas do gênero. Também é frequente atribuir o boato de que Sabbadin era membro do MSI à imprensa francesa, considerada liberal, cosmopolita e amiga de terroristas.

Entretanto, o diário Il Giornale de 15/01/2009 (30 anos após a morte do açougueiro, tempo suficiente para que os jornalistas investigassem se ele era ou não membro de um partido fascista), ao referir-se às vítimas de Battisti, menciona, além de Torregiani:

“…Antonio Santoro, guardia carceraria, Lino Sabbadin, macellaio iscritto al MSI [grifado meu], Andrea Campagna, agente della DIGOS”.

“Antonio Santoro, carcereiro, Lino Sabbadin, açogueiro filiado ao MSI [grifado meu], e Andrea Campagna, agente da DIGOS”.

Você pode ver a versão eletrônica dessa folha do jornal, aqui. O comentário está entre as linhas 10 e 12. Il Giornale é um diário muito prestigioso, que passou por várias experiências ideológicas e acabou se definindo como liberal de centro-direita, e oposto à chamada “tendência esquerdista chique”. Por outro lado, basta uma leitura de algumas matérias para advertir que é solidamente contrário a Battisti e partidário radical de sua condenação. Não teria nenhum motivo para caluniar Sabbadin.

Sabbadin poderia ter sido um militante burocrático, não violento, mas alguns fatos tornam esta suspeita improvável. No dia 16/12/78, dois homens entraram no açougue quando Lino estava fazendo contas junto com seu filho Adriano. Em nenhum comentário posterior da família, nem em informações da polícia ou da imprensa se menciona que os homens eram sulistas, possivelmente sicilianos. As execuções de sicilianos pobres (sejam ladrões ou simplesmente mendigos) são frequentes na Itália de todas as épocas, onde o racismo da classe média é superlativo.

Portanto, não sabemos se os assaltantes eram ou não “meridionali”, mas o jornalista Mario Immarisio, no Corriere della Sera (vide), conta que um deles mostrou uma pistola “e disse um palavrão em dialeto”, exigindo o dinheiro. Na Itália, falam-se dúzias de dialetos, mas quando se usa a palavra sem outra precisão se entende sempre um dialeto meridional. Lino recebe uma coronhada, mas sua resposta não é do mesmo estilo: puxa uma pistola e aplica um tiro mortal na testa de um dos bandidos Elio Grigoletto, de 23 anos. A crônica não disse se o morto era o mesmo que ameaçou antes, ou seu comparsa.

A coronhada foi uma forma brutal de “render” a vítima, um procedimento comum em culturas mais primitivas, como Sicília. Mas não era uma ameaça direta a sua vida. Se assim fosse, qualquer pessoa mirada com uma arma poderia considerar-se em risco incondicional, e estar autorizada a matar seu agressor. Comentários algo diluídos pela imprensa nos dias seguintes mostram que Sabbadin considerava a execução de Elio um ato normal contra um ladrão. Pena de morte rápida e pouco burocrática. O açougueiro parecia ter alta excelência no uso de armas curtas de grande impacto, pois acertar na testa de alguém, estando derrubado no chão não é para qualquer um.

O Ourives do Revólver de Ouro

Pierluigi Torregiani era um bem sucedido joalheiro, que costumava carregar armas, usar colete a prova de balas e andar com seguranças. O fato de portar arma não é significativo num país fortemente militarista e policialesco como a Itália, onde a lei permite registrar quase qualquer arma. Entretanto, as armas de defesa pessoal na época eram pistolas leves.

Segundo comentários de vários órgãos da imprensa, Torregiani usava pistolas americanas Smith & Wesson, que, tendo em conta a data, devem pertencer à série 59, do calibre 9×19 mm Parabellum. Esta arma foi adotada pela Marinha norte-americana, que a considerava muito mais mortífera que a SW 39 (uma das favoritas de James Bond).

Já o uso de colete não é frequente mesmo nos Estados Unidos, e não parece algo exigido por uma profissão tão pacífica como a de vendedor de jóias. Aliás, não se menciona que tivesse sido ameaçado por grupos violentos ou terroristas em épocas anteriores.

[A polícia e o MP de Milão jamais responderam perguntas por e-mail sobre os atos de violência nos quais Torregiani se envolveu. Portanto, todas as informações são jornalísticas, inclusive sobre as características das armas usadas.]

O fato decisivo anterior à morte de Pierluigi é um assalto sofrido por ele e um amigo, no restaurante Transatlantico, numa região nobre de Milão. O dia 22/01/79, Pierluigi estava com dois de seus filhos, Marisa e Alberto, e um amigo/cliente identificado apenas por M. Lo Cascio. (Não pude identificar esta pessoa através de amigos que moram na Itália.)

O ourives levava consigo jóias que tinha mostrado pouco antes num programa de TV. Em certo momento entram dois assaltantes que pedem a entrega de seus pertences. Segundo o Corriere dela Sera, ele e Lo Cascio reagem rapidamente, puxando armas do casaco. Posteriormente, a ocorrência policial divulgada não emitirá nenhuma opinião sobre o caso, já que não é comum que pessoas que portam armas só para defesa possam reagir exitosamente contra atacantes armados.

No relatório do Supremo Tribunal Federal, o relator Cézar Peluso afirma que somente a pessoa que estava com ele (deve referir-se a Lo Cascio, mas evidentemente não sabe o nome) abriu fogo. O juiz não diz de que fonte tirou essa notícia, ou se lhe foi revelada por algum arcanjo durante o sono, mas isso não aparece em nenhum jornal italiano nem francês, nem mesmo nos de ultradireita. Peluso pretende inocentar Pierluigi para fazer mais horrível ainda a imagem de Battisti. Em realidade, um trabalho sem graça o do coitado relator… porque o próprio filho da vítima afirmou que Battisti não estava entre os matadores.

De fato, os jornais Repubblica, Corriere e outros de tendência similar, que não teriam motivo para caluniar Torregiani, afirmam que ambos dispararam, e as balas do ourives, de alto calibre, atingiram mortalmente o siciliano Orazio Daidone, de 34 anos. Como se isso não bastasse, ambos os amigos também mataram um cliente do restaurante que jantava em outra mesa, Vincenzo Consoli. Uma terceira pessoa não identificada ficou ferida de maneira irreversível, segundo os jornalistas.

O relator do STF se confunde ao forjar sua descrição do fato, e decide não atribuir a ninguém esta outra morte. Mas, os jornais e boletins publicados tampouco se definem sobre o fato. Por acaso, Vincenzo Consoli também era siciliano.

Alguns jornais independentes da época acusaram Torregiani de fascista, “lojista pistoleiro ”e “jagunço da Bovisa”. Este apelido se refere ao bairro marginal da Bovisa, em Milão, do qual surgem muitos valentões armados dos niveles menos favorecidos da sociedade. (Vide)

Depois da dupla morte, Torregiani foi interrogado na delegacia, mas ninguém o acusou de atuar com excesso de defesa. De fato, qualquer policial sabe que o assaltante armado quer o butim da vítima, e não tem interesse na sua morte. [Nem a polícia de Mestre, a cujo distrito pertence Caltana, nem a de Milão, responderam nossos e-mails pedindo scans dos processos de ambos os incidentes, mesmo nos comprometendo a pagar o custo.] O site AIVITER descreve o fato como uma reação do assaltado, que gera um tiroteio que “conta mortos e feridos”. (Vide; coluna da direita.) Não diz quantos nem quem atingiu a quem.

Em 1984, após a reabertura do caso Battisti, a filha de Pierluigi, Marisa, afirma que Cesare era um dos assassinos, que estava à sua direita no momento dos disparos. (Vide o texto do jornal, linha 18ª desde abaixo). Confissão apressada demais! Na mesma época, seu irmão declarava que Battisti não estava no local e que a bala que o deixou aleijado foi disparada (desta vez com má pontaria) pelo pai. (Vide)

O jornalismo francês reconhece que, no começo, Alberto Torregiani negou que Battisti estivesse no local, e revelou que a bala que lhe atingira foi disparada por seu pai. Anos depois começou guardar silêncio sobre o assunto, e embora reconheça ainda hoje que não foi ferido por Battisti, suas declarações são mais lacônicas. Acredita-se que o estado italiano, talvez através do promotor Spataro, mantenha Alberto sob chantagem.

Depois do tiroteio no restaurante, Pierluigi não ficou quieto. Conseguiu uma foto do morto Orazio, provavelmente do necrotério judicial, e afixou na vitrine de sua loja, como uma declaração pouco ambígua de seu orgulho por matar um marginal sulista. O ato foi suficientemente nojento como para provocar a indignação de La Repubblica por sua extrema morbidez.

Torregiani e Sabbadin, mesmo sem se conhecer, são representantes de um renascimento no final dos anos 70, do movimento Maggioranza Silenziosa (MS), fundado em 1971 em Milão, e depois estendido a todo o Norte. O MS se diferenciava dos partidos fascistas pela não utilização do terrorismo, que era substituído por uma violência que eles chamavam “defensiva”. O grupo estimulava os cidadãos de classe média a andar armados e combater os comunistas, a esquerda não parlamentar, e seus potenciais aliados (pobres, mendigos, marginais). Sua idéia de legítima defesa poderia consistir em matar um batedor de carteira mesmo quando estava fugindo, ou atirar contra uma passeata que obstruía o trânsito, mas sempre com armas curtas.

Tecnicamente, o MS não foi um grupo terrorista; aliás, estava preocupado pelos stragi terroristas, porque podiam atingir a qualquer um da classe média. Seus principais apoios eram católicos, liberais de direita, conservadores e social-democratas. Sua independência do fascismo, porém, não era tão grande, como o prova a afirmação de Luciano Buonocore, um dos fundadores, que dizia que todo antimarxista era bem vindo. Incluso, o movimento se dissolveu em 1973, depois de matar um policial que parecia ser pró-comunista.

Foto dos Jornais da Época

Foto dos Jornais da Época

Um Humilde Motorista

Dos quatro assassinatos executados pelos PAC, o mais sem sentido foi o do motorista da Divisione Investigazioni Generali e Operazioni Speciali, um órgão da Polícia do Estado (Nacional), Andrea Campagna (18/08/54 – 19/04/79), de origem calabresa.

Andrea foi acusado sem prova de ter torturado alguns detentos do setor de Milano do DIGOS. O autor foi Giuseppe Memeo, que utilizou a mesma arma que portava durante o assassinato de Torregiani, no qual participou.

Memeo já era conhecido pelos meios de repressão por ter participado numa passeata de esquerda em 12/05/77, na qual se celebrava o triunfo do divórcio num referendum. A polícia disparou aleivosamente, pois a concentração era pacífica; Giorgiana Masi (19 anos) foi morta e outros sete jovens foram feridos, sob um nutrido fogo aberto por Giovanni Santone, o chefe do comando móvel. Dois dias depois, o coletivo da Porta Romana lançou uma nova passeata, desta vez armada. Memeo foi fotografado mirando os policiais com uma P38. (Vide)

Memeo cumpriu uma pena aliviada pela delação, e atualmente trabalha como auxiliar num instituto de tratamento de AIDS. Mas, o caso de Campagna fica como uma violência gratuita, pelo menos, com base nas poucas informações que se possuem. [Minha tentativa de entrar em contato com seu irmão não deu certo, mas não foi culpa dele. Não consegui fazer contato.]