Chacina da Baixada Fluminense: “quando chegarão a democracia e os direitos?

DSC_0909-759x394Por Paulo Vicente Cruz

Na noite de 31 de março de 2005, em dois municípios da Baixada Fluminense, 29 pessoas foram mortas por aqueles que têm como dever garantir o direito fundamental à vida. Policiais Militares à paisana circularam em automóveis pelas ruas de Queimados e Nova Iguaçu e atiraram indiscriminadamente em pessoas.

No dia 31 de março de 2016, onze anos depois, familiares e amigos marcharam em memória das vítimas dessa tragédia e pediram paz, como fazem todos os anos. Suas vozes somam-se a muitas que pedem pelo fim de violações de direitos nas periferias e comunidades.

Infelizmente a Chacina da Baixada não foi uma exceção. É um dos casos que integram o longo e triste histórico de homicídios cometidos por agentes do Estado no Rio de Janeiro. No ano de 2005, a polícia – em serviço – matou 1098 pessoas no estado. Só na Baixada Fluminense ocorreram 217 homicídios decorrentes de intervenção policial.* Os assassinatos ocorridos na Chacina da Baixada reforçam o que se tem repetidamente denunciado: mata-se muito em nosso país e a polícia em serviço ou fora dele é responsável por parcela significativa dessas mortes.

No momento em que discussões sobre a democracia tomam o debate nacional, uma das faixas levadas por familiares durante a caminhada nos provoca para a reflexão sobre uma importante e negligenciada dimensão da realidade brasileira:

“A ditadura não acabou nas comunidades e periferias. Quando chegará a democracia e com ela a garantia de direitos?”.

As falas de mães das vítimas da Baixada não nos deixam esquecer da violação cotidiana do direito à vida nas periferias de nossas cidades. A caminhada por elas organizada, além de representar a luta para preservação dos nomes de seus entes queridos, é manifestação da luta de quem não admite que assassinatos se tornem eventos rotineiros. Trata-se da mobilização de quem deseja respeito a seus direitos, paz e a não repetição de ocorrências similares. “Direitos não se pedem de joelhos. Conquistam-se de pé”, dizia outro cartaz levado pelas famílias. É por isso que ao lado de mães, irmãos e amigos das pessoas que perderam suas vidas na Baixada, marcharam também mães de vítimas de outros assassinatos cometidos por policiais.

Cada uma das pessoas que teve suas vidas interrompidas há onze anos continuam a ser lembradas. Passamos pelos locais em que foram mortas. Neles, seus nomes foram citados. Por elas gritamos “presente”. Por elas e por outras vítimas, uma rede de solidariedade segue de pé.

* Relatório Você Matou Meu Filho: Homicídios cometidos pela Polícia Militar na Cidade do Rio de Janeiro.

Fonte: Anistia Internacional
https://anistia.org.br/chacina-da-baixada-fluminense-11-anos-de-impunidade/