Central Sindical e Popular debate Encontro Internacional e demissões na indústria

O ponto internacional abriu a reunião da Coordenação na Nacional da CSP-Conlutas. O membro da Secretaria Executiva Nacional Dirceu Travesso, o Didi, expôs rapidamente sobre a situação mundial e a crise do capitalismo, como contexto do Encontro Internacional do Sindicalismo Alternativo, que acontece de 22 a 24 de março, em Paris, França.

“É fato que essa crise é a mais grave do sistema capitalista após a crise de 1929 e está implicando em um retrocesso dos direitos dos trabalhadores”, ressaltou Dirceu, resgatando a importância de que é na Europa onde estão acontecendo as principais lutas, “justamente o continente com maior história da classe trabalhadora”, frisou.

Didi alertou que há um debate estratégico surgindo dessas mobilizações no qual discute-se o papel das direções tradicionais que dirigem o movimento. Lembrou o exemplo da greve dos mineiros sul africanos que questionou a direção da Cosatu, central sindical tradicional daquele país. “Essa greve sintetizou esse processo de questionamento das direções que vem ocorrendo em diversas mobilizações pelo mundo”, disse.

Neste marco, apresentou a importância do Encontro Internacional que ocorrerá com a participação de organizações e entidades sindicais de cerca de 30 países, entre os continentes da Europa, África e Norte da África, América Latina e do Norte e Ásia.

Dirceu defendeu três pontos para CSP-Conlutas levar para o encontro:

– Unidade da luta e na resistência. Para tal, deu exemplo do dia internacional de luta que ocorreu recentemente em defesa dos trabalhadores da GM de São José dos Campos – foram realizadas iniciativas de solidariedade nos Estados Unidos, França, Espanha, Alemanha, Argentina, Bolívia e Colômbia. Foi o chamado janeiro vermelho da campanha conjunta. A proposta da Central é defender o avanço deste tipo de ações conjuntas.

– Discutir a necessidade de avançar na organização coletiva dessas entidades que participam do encontro a partir de pontos programáticos, entre eles a democracia, o internacionalismo, as formas de enfrentamento com o imperialismo, as questões de gênero, juventude, a criminalização do movimento e outros aspectos.

– Assim como propor algumas iniciativas organizativas, como avançar nas campanhas, consolidar um site coletivo e buscar-se iniciativas para o próximo período a partir dos calendários de luta que surgem desde a ação de trabalhadores de cada país.

O informe internacional foi dividido com outro membro da Secretaria Executiva, Sebastião Carlos, o Cacau, no qual reforçou a importância da iniciativa do convite à militante síria Sara Al Suri que percorreu o país, em palestras, debates e outras atividades, para contar das lutas e da situação de seu país e pedir o apoio da Central a essas ações de oposição ao governo sírio. Cacau reforçou a relevância da iniciativa e, apesar de defender a liberdade de opiniões, defendeu a elaboração de uma resposta à carta de uma militante do PCB, Maristela Pinheiro, que acusa a Central de apoiar o imperialismo norte-americano ao trazer a militante para o Brasil. “Não concordamos com essa opinião e pelo tom ofensivo deve ser respondida”, salientou.

Cacau reforçou ainda a relevância do Encontro Internacional e apresentou informes das delegações que têm até o domingo para apresentar suas delegações. As delegações devem expressar trabalhos importantes de atuação da Central como servidores públicos, docentes, operários da construção civil, metalúrgicos, metroviários, movimento popular, lutas contra as opressões e juventude e outros.

O membro da Secretaria Executiva Magno de Carvalho abordou ainda quatro pontos debatidos no Sintusp para que sejam levados para o Encontro: o rechaço aos cortes nos programas da Organização Mundial de Saúde aos países que não estão pagando a sua dívida e que afeta diretamente os trabalhadores; que a Central deve pedir que seja aprovada uma carta sobre a Comissão Verdade no Brasil que trata das torturas e dos que foram perseguidos na ditadura militar; que a Central esteja diretamente na campanha, com ações, pela naturalização de Cesare Battisti pelo governo brasileiro. Além disso, reforçou a relevância do debate sobre a questão da criminalização das lutas.

Com a abertura do ponto para debate entre os participantes, cada um dos que falaram levantou a importância desse encontro no atual contexto de crise do capitalismo e na tentativa de tentar avançar na construção de uma alternativa de luta dos trabalhadores. Além disso, foram apresentados aspectos das lutas e organização dos trabalhadores brasileiros que gostariam de ver representados na atividade. Entre eles, as lutas de categorias de trabalhadores urbanos, os que lutam contra a opressão, a juventude, os indígenas, a luta em defesa da moradia, o problema da criminalização dos movimentos e outros.

Ao final, Cacau lembrou que este é um encontro com organizações e entidades com experiências bem diferentes, por isso, é necessário o cuidado e a sensibilidade para lidar com essas diferenças, principalmente as dos países da Ásia, África e Norte da África,

Foram apresentados ainda os quatro temas centrais aprovados para o encontro pela comissão organizadora:

– Como enfrentar situação de crise desde o sindicalismo alternativo de base;
– Resgatar a unidade na luta contra a exploração e opressão no sindicalismo e nos movimentos sociais;
– Campanhas e iniciativas;
– Como avançar na coordenação para a unidade da luta nos setores, na web e no funcionamento.

Cacau finalizou garantindo que foram ouvidas as intervenções de cada companheiro e que a Central apresentará temas que expressem as lutas no Brasil, que também estarão representados pela delegação que irá ao Encontro.

Coordenação Nacional da Central debate demissão na indústria no marco da crise mundial

O ponto da tarde debateu o contexto mundial da reestruturação na indústria automotiva que implica em demissões e flexibilização de direitos no setor no Brasil. O tema foi aberto pelo presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, Antonio Donizete, o Macapá, que resgatou como vem acontecendo esse processo de reestruturação do setor e, principalmente, na GM.

Macapá expôs um breve informe das demissões no setor automotivo no Brasil com demissões em diversas fábricas. Lembrou que não é somente a GM que enfrenta esses ataques da patronal, somente no ABC foram 50 mil demissões no ano passado, que após as contratações realizadas deixou o setor com um saldo negativo de 12 mil demissões. Assim como houve demissões da Volvo Paraná, na Volks do Sul Fluminense e outras montadoras.

No caso da GM, especificamente, fábrica na qual trabalha, Macapá lembrou que um símbolo do capitalismo norte-americano, a GM, estava ruindo. “Nos Estados Unidos foram 17 fábricas fechadas, 40 mil trabalhadores demitidos”. A empresa quando entrou em concordada, tinha como estratégia global demitir o máximo possível de trabalhadores antigos, contratar trabalhadores com salários menores, precarizar o trabalho, demitir os lesionados e, assim, devolver o empréstimo Devolver feito pelo governo Obama.

“Um plano que está sendo implementado com grande força em todo o mundo”, ressaltou o dirigente metalúrgico, que contou que desde 2008 a empresa argumentava que não pode ser que ainda exista no Brasil uma unidade onde não tenha sido feita a reestruturação produtiva. “Ou seja, aquilo implicava que os operários da GM teriam uma luta árdua pela frente em defesa de seus empregos e direitos”, disse o operário.

Um dos problemas a enfrentar foi a questão da diferença salarial na planta da GM de São José com piso salarial de entrada na produção de R$ 3 mil, quando em outras plantas já varia entre R$ 800,00 a R$ 1500,00.

Macapá contou os passos da campanha com as panfletagens e assembleias iniciais, as caravanas a Brasília, a atividade no salão do automóvel, a duas ocupações na Dutra e as paralisações na fábrica. Lembrou ainda que a campanha da GM contou com o apoio de diversas categorias no país e internacional, comentando, com orgulho, do dia internacional de luta organizado em diversas plantas como nos Estados Unidos, Espanha, Alemanha, França, Argentina, Colômbia e Bolívia. “Uma ação que obrigou a presidente Dilma se manifestar no dia que estava em viagem a Inglaterra”, comentou.

Ao final da mobilização se chegou a um acordo que foi aprovado pela ampla maioria dos trabalhadores. Segundo Macapá, não foi o melhor, porque altera alguns direitos. “No entanto, foi resultado da luta o possível na correlação de forças naquele momento”, disse, acrescentando que o governo federal, que deu isenção de impostos às empresas, não se pronunciou enfaticamente diante do ataque.

“As centrais sindicais, apesar do chamado insistente não apoiaram essa luta”, frisou Macapá. As centrais governistas, na verdade, já apoiaram e aceitaram acordos rebaixados, e, no caso da GM, chegaram a criticar a mobilização em defesa de direitos e emprego.

O segundo informe foi do presidente da Federação Democrática dos Metalúrgicos de Minas Gerais, Gilberto, o Giba. Ele expôs a situação do setor em seu estado, comentando que em Minas Gerais, na Fiat, a situação é um pouco diferente, os ataques estão de outra forma, mais igualmente baseado na precarização do trabalho, a terceirização, os salários diferenciados.

Contou do caso da empresa de alumínio Novelis, em Ouro Preto, que também está inserida no contexto internacional de ataques aos direitos e emprego dos trabalhadores. Giba explicou que a complicação desse setor é o estoque de alumínio além do necessário em nível mundial. “Essas empresas dependem muito de energia elétrica, a Novelis tem seis pequenas hidrelétricas e está tentando acabar com a produção básica de alumínio, assim fecha a produção e repassa a energia elétrica para São Paulo, recebendo investimentos”, contou.

Giba ressaltou que o mesmo vem acontecendo nas empresas de silício, que também estão promovendo demissões.

Ele disse ainda ser importante verificar que não há por parte das centrais governistas ações para impedir esses ataques. “Ainda fazem vista grossa em relação a essas alterações e demissões. Temos feito a duras penas essa resistência, e estamos conseguindo impedir parcialmente”, disse. Na Novelis, a resistência é contra o fechamento da empresa.

Giba finalizou ressaltando que a defesa dos direitos é fundamental. “É isso que a gente tem procurado fazer em Minas Gerais, mesmo sendo uma central pequena nessas categorias”, disse se referindo à CSP-Conlutas.

Após a exposição dos dois, o debate foi aberto para o plenário em torno do balanço das lutas contra as demissões. A conjuntura mundial como base para a reestruturação no setor, a correlação de forças para encaminhar essa luta, a questão da solidariedade da classe nacional e internacional e o acordo foram debatidos pelo plenário.

A ampla maioria defendeu a atuação do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos na GM como exemplo de resistência, quando a maioria das direções sindicais no Brasil, governistas, não estão levando uma luta consequente em torno dos ataques sofridos pelos trabalhadores. Além de apresentar acordos como o ACE (Acordo Coletivo Especial), que permitem a flexibilização de direitos.

Ao final, Gilberto parabenizou os companheiros da Campos.

Ele finalizou ainda defendendo um chamado às centrais, que coloquem na ordem do dia, um contrato de trabalho coletivo nacional, contendo um piso nacional, garantia de direitos e jornada de 36 horas semanais em todas as montadoras para acabar com essa chantagem contra trabalhadores de uma planta contra a outra.

Fonte: CSP-Conlutas