Caminhando

rodasÀs vezes a gente pode pensar que está prestando algum serviço a movimentos sociais e causas humanas muito nobres, mas isto te expõe a uma visibilidade excessiva. Talvez despertes inveja, e recebas a ira de quem, sem se dar conta, se sente diminuído pelo teu brilho.

Mas teu brilho é como o do orvalho que pelas manhãs brilha na relva. Não tratas de sobressair nem ganhar um relevo maior do que o devido. Mas, de novo, estar à frente de algumas atividades comunitárias, pode ter exposto você demasiadamente, embora não seja a tua intenção a de aparentar superioridade perante quem quer que seja.

Tratas de aprender a perdoar, a deixar a tua alma leve para o trabalho de base, que é muito. Há uma certa intelectualidade que vive dos elogios, do se mostrar perante um público que os aprendeu a admirar. Tens ido te afastando, ou, melhor dizendo, o teu agir e a companhia de pessoas muito humildes mas de um efetivo poder transformador, tem ido te afastando do falso orgulho, da vaidade.

E tens ido te misturando em teias comunitárias vastas, em que ações aparentemente pequenas, se enraízam na nobre tarefa de libertar pessoas e comunidades. Então embora doam as injustiças, as atitudes e as palavras impensadas que te ferem, da parte de alguém que tem algum poder sobre alguma das atividades que desenvolves, sabes que isto é parte da fragilidade humana, da nossa dificuldade de caminhar juntos.

A tua própria dificuldade em perdoar, faz parte do aprendizado necessário. E no prosseguimento das tarefas coletivas em que vais crescendo em direção ao teu próprio ser, junto com pessoas que também estão nessa busca de uma individualidade comunitária e co-operativa, tentas fazer das pedras que aparecem à tua frente, oportunidades para exercitar um jogo de cintura sempre necessário na co-existência humana.

No teu caminhar, as recompensas, intangíveis mas nem por isso menos reais e concretas, vem plenificar teu dia a dia. Um dia a dia com os mais, com os de baixo, com as pessoas cujo sentimento de solidariedade vem as irmanando em tarefas de recuperação da pessoa humana, daqueles que foram deixados de lado pelas famílias, pelo estado, por causa dos preconceitos, da limitação na capacidade de amar.

E nessa tarefa de formiga em que te dissolves na grande maré humana, colhes frutos que te conduzem a uma luz que ilumina teus passos cotidianos.