Atentado em Paris: uma pausa para que a reflexão nos alcance

Após o atentado ao “Charlie Hebdo”, uma reação muito ruim, sinal dos tempos, tomou conta da minha humilde “timeline” aqui no Facebook (que é bastante diversificada). Será representativa? Vamos ver.

1. Uma parte das pessoas imediatamente opinou sobre o “respeito à religião dos outros”. A lamentável ponderação quer dizer o seguinte: bem feito. Só isso. A liberdade de expressão só deve ser defendida quando serve pra mim. Quando ícones católicos são atacados em um jornal-panfleto, por exemplo. Aí não pode.

2. Outra parte, notoriamente parte da esquerda inclusive (mas não só, e uma minoria da esquerda, ressalta-se), desconfiou de que não fossem militantes islâmicos. Isso é coisa da extrema-direita pra aumentar a xenofobia. A ponderação sobre quem cometeu o atentado é sempre importante, mas para parte da esquerda tudo o que não é belo e bonito é direita. O único marcador social é a oposição binária esquerda-versus-direita, capital-versus-trabalho. Daí pro delírio é só um passo.

3. Outra parte é a velha turma do mata-esfola, a direita, que está sempre por aí. Matou? Mata de volta. É olho por olho, a guerra de civilizações, pra cima deles, bomba no Paquistão, na periferia e onde mais vocês, do Bem, acharem que tá valendo. O Islã é o Mal e Deus está conosco.

4. Há, ainda, aqueles que só sabem se comunicar por meio de piadas. Tudo é uma oportunidade para um meme. Mesmo a morte mais trágica de civis inocentes que, a qualquer tempo, podem virar motivo de gozação.

5. Há os fatalistas. Morreu? Uma fatalidade, mas no Iraque também morre, na Síria também morre, em todo lugar morre, e se morre mais na África, então a África ganhou no ranking de atrocidades e dane-se a França.

6. Há os anti-imperialistas. A culpa é dos EUA. A culpa é da China. A culpa é da Rússia. A culpa é da França. Não há aqui argumentos: a culpa é sempre de um ente externo, o Outro metrópole contra o Nós colônia. Nada é cinza, degradê, tudo é um jogo imperialista do Mal versus o Bem.

7. E, por fim (e me desculpem se faltou algum), há os entusiastas. Eles estão prontos para a próxima campanha publicitária de massa. Morrem centenas de sírios todos os dias, em episódios iguais, mas nunca na História desse planeta um tema é tão relevante quanto o último atentado em uma grande cidade capitalista. Os entusiastas não só se comprometem a compartilhar tudo sobre o tema, lotando a timeline de todos, como mudam seu perfil, sua capa e tudo o mais o que puderem fazer para entrar na nova onda de indignação (que não valeu para os atentados na Nigéria e no Iêmen, ocorridos na mesma semana).

* * *
Não me entendam mal (como elitismo, por exemplo), mas eu honestamente considero que aqui, nesses momentos, o famoso mecanismo comunicativo da “repetição” (indefinida, atropelada, angustiante, massiva), com informações sobre informações sobre informações, não ajuda uma reflexão de qualidade. Não é elitismo: eu proponho um freio mesmo, para que a reflexão nos alcance.

As culturas são mais intensas do que a rigidez de símbolos já conhecidos, repetitivos — incluindo a terrível fixação promovida por segmentos religiosos (mas não só religiosos), mecanismo conhecido que gera o extremismo de todas as partes. Entender, por exemplo, o que se passa na confusa sociedade francesa que se propôs una por muito tempo, ignorando sua diversidade “interna”, requer talvez comprar um bom livro sobre multiculturalismo e diferenças culturais, ou buscar um longo artigo contextualizador; é mais demorado (certamente dura mais do que a média de visualização de um link), mas se ganha muito mais.

Pausa para a reflexão, estudo do multiculturalismo e das injunções que isto cria. A grande mídia e os interesses que ela veicula, está muito longe de propiciar este tipo de atitudes. Tenta-se o contrário, atiçar os ódios, continuar rachando a humanidade a través do estímulo a ações irrefletidas.

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