Aspectos da obra de José Comblin

Não poderia escrever sobre alguns aspectos da obra de José Comblin de uma maneira teórica ou conceitual. Não que menospreze este tipo de reflexão, ao contrário. Ela é muito preciosa e necessária, mas tem o seu lugar. Aqui prefiro, no entanto, apresentar alguns fragmentos do seu pensamento, colhidos em algumas das suas obras, de maneira a reter, para mim mesmo e para os leitores e leitoras, alguns traços dos que se me figuram mais originais, da obra deste ser tão singular, que deixou marcas indeléveis na minha existência.

Estas marcas ou traços, poderiam ser resumidos assim: A mensagem de Jesus é simples. O amor é o centro da vida. A vida é uma peregrinação. Todos e todas podem ser profetas, desde que se disponham a ser palavra de Deus. A indistinção na obra de Comblin entre o sagrado e o cotidiano, é para mim talvez a tônica mais forte. Quebra a cisão entre o espiritual ou o religioso e a vida do dia a dia. A vida como tal, é obra de Deus, e se assim a vivermos, ela será e é, uma vida consagrada.

Não importa se a pessoa seja ordenada ou não, ou mesmo se pertença a esta ou àquela religião. Importa se vive a serviço do amor, que é Deus mesmo. E isto implica em viver mergulhados/as na cotidianidade da vida. Rompe com a casta sacerdotal como monopolizadora do sagrado. Quebra com a privatização ou o exclusivismo do cristianismo como a única religião verdadeira. Restaura a sacralidade da vida da pessoa, como uma re-condução do ser para si mesmo, como uma ruptura do intelectualismo de uma casta ou estamento especializados, para harmonizar a vida na sua unidade de intuição, amor e razão ou consciência, e ação.

Obviamente, o que aqui destaco da obra de José Comblin, são aspectos que resultam significativos desde os meus próprios valores e desde a minha própria trajetória existencial e visão de mundo. Outras pessoas, certamente, verão outras coisas. Algo que também creio que deva ficar bem claro, é que tenho a nítida impressão que Comblin diz muito mais do que nós somos capazes de ler. A sua palavra excede em muito o que está escrito. A certeza que podemos ter, é que é um ser inspirado, e que essa inspiração nos oferece uma referência segura para que cada um, cada uma de nós, possa se encontrar consigo mesmo. Esse encontro conosco mesmos é o caminho de Jesus, o encontro da Jerusalém interior. Longe de encontrarmos nos escritos de Comblin receitas ou verdades definitivas, o que neles podemos encontrar, sim, são alusões a uma verdade da qual fazemos parte, que nos contém, nos ilumina e nos guia.

Agora gostaria de me referir a dois trechos de autoria de Comblin que me chamaram a atenção, e que tem o denominador comum de oferecerem subsídios para que a pessoa se oriente em direção às suas próprias metas, caminhado com esperança, e se conduzindo em direção à realização do seu próprio projeto de vida. São eles um parágrafo de A força da palavra, e outros de O caminho. Ensaio sobre o seguimento de Jesus. “O que é um ser humano no sentido completo da palavra? Não é somente um ser dotado de órgãos e de faculdades: inteligência, vontade, sensibilidade, etc. A soma dessas faculdades não faz um ser humano vivo e ativo. O que faz um ser humano é um projeto de vida, uma obra imaginada por si e prosseguida pacientemente com constância, inteligência e até teimosia. O que faz um ser humano é uma ilusão, uma utopia que persegue durante a vida toda, uma história de fracassos e êxitos na caminhada para os fins que ele/a mesmo/a definiu…” (p.37).

Resgato aqui a palavra projeto, a noção de projeto. Existir é ir em direção a uma meta. Passemos agora ao segundo dos livros mencionados de Comblin. O autor explora o tema da esperança do peregrino, da vida como peregrinação: “Há uma esperança para o dia de hoje, outras para a semana, para o mês, para o ano, para um período da vida, para a vida inteira e para além desta vida –ou seja, para a vida eterna” (p. 68) Outra vez a noção de direção, de esforço orientado a um fim. Qual é esse fim? O fim da vida é ser mais, não ter mais.

A “imagem da peregrinação ajuda a entender o sentido da vida. Pois, para a maioria, a peregrinação não é feita caminhando nas estradas materiais. A caminhada é interior: a pessoa vai buscar no próprio coração o seu verdadeiro ser. Por meio das experiências da vida vai se aproximando pouco a pouco da sua verdade, de uma realização mais completa de si. Pode-se realizar também a mudança, o amadurecimento de si mesmo/a na vida ordinária. A imagem da peregrinação ilumina essa busca até o próprio coração. A esperança parece mais abstrata, mas realiza a mesma transformação: como o peregrino, o discípulo vai abandonando o seu passado, reconhecendo no presente a porta que abre para o futuro, torna-se aberto à etapa seguinte da vida. No final, ele consegue conhecer-se melhor naquilo que era o objeto da sua esperança ao iniciar a caminhada. A nova Jerusalém se encontrará finalmente dentro do coração”. (pp. 68-69)

Salienta Comblin que a caminhada nunca é solitária.

Foto: Pe. José Comblin