Ásia & Oceania por Isaac Bigio (2004)

Por Isaac Bigio

LONDRES, 27/12/2004. Karimov, o autocrata ubequistano, disse que as eleições em seu país não foram fraudulentas e que impedirá todo protesto que possa repetir o acontecido na Geórgia e Ucrânia. Putin alerta contra o perigo de uma onda de revoluções ‘permanentes’.

Este é o conceito que Trotsky desenhou já faz 100 anos para propor que uma ‘revolução democrático-burguesa’ só poderia ser feita através do ‘proletariado’, sob um programa social e internacional.

A atual revolução ‘laranja’ é oposta à dos ‘vermelhos’. Propõe uma ‘democracia burguesa’, mas contra os remanescentes do estatismo pós-soviético; apóia-se em quem promove a empresa privada (e não nos sindicatos que podem temê-la); demanda maior privatização e liberalização; e segue a diplomacia e o modelo de Washington.

A força que estas ‘revoluções pacíficas’ têm é que contam com o respaldo da única super-potência e seus aliados ocidentais, e que muitos políticos ex-comunistas que tratam de impedí-las estão sendo desacreditados como corruptos e ineficientes.

Revoluções à la Bush

LONDRES, 18/12/2004. Depois de tomarem o poder na Rússia, em 1917, os bolcheviques promoveram partidos comunistas que organizassem “conselhos, milícias, insurreições e ditaduras proletárias”.

Sete décadas depois, Washington promove suas próprias “revoluções”, contrárias às dos comunistas. Seus métodos e objetivos são antagônicos. O Ocidente busca capitalizar o descontentamento popular frente ao despotismo da “oligarquia vermelha” para promover o retorno à democracia representativa e das empresas privadas. Os sindicatos, que no Ocidente encabeçam as rebeliões, no Oriente, como se vê na Ucrânia, podem se colocar na defensiva – temendo que se busque fechar empresas.

O que vem acontecendo na Ucrânia e Geórgia é a continuação da estratégia que os Estados Unidos vem adotando de promover protestos para debilitar Moscou e fazer uma liberalização política e econômica de acordo com seus interesses. Os remanescentes do sistema anterior têm dificuldades de resistir por que carecem de um modelo alternativo sólido.

O Víctor vitorioso

LONDRES, 27/12/2004. Víctor Yuschenko venceu amplamente a Víctor Yanukovich nas eleições da Ucrânia, e deverá afastar ainda a Ucrânia da Rússia, após séculos. Esta é, em verdade, a primeira grande eleição presidencial que Bush vence em outro país, após ter conseguido seu triunfo no próprio país.

O novo governo incentivará privatizações, maior fluxo de capitais estrangeiros e fará com que a Ucrânia (que tem tropas em Iraque) tenha ainda uma política exterior mais pró-EUA. Esta nova política vai gerar choques contra empresários e sindicatos das grandes fábricas e minas do oeste ucraniano.

Isto alterará significativamente a geopolítica da ex-URSS, na contramão de Moscou. Também fomentará duas novas pressões. Por um lado Ocidente vai querer aproveitar a conjuntura para avançar na Bielorrúsia (procurando derrocar a Lukashenko a quem chamam de “autocrata”) e na Moldávia (o único país europeu governado por um Partido Comunista). Por outro lado a Rússia, em represália, alentará movimentos autonomistas no sul e oeste do país. [Tradução de Pepe Chaves]

Eleições na Ucrânia

LONDRES, 30/11/2004. Um confronto civil ameaça a Ucrânia. O tribunal eleitoral do país proclamou Yanukovich como o vencedor, mas o seu rival Yushchenko denuncia fraude e chama uma greve geral.

Os dois candidatos já ocuparam o cargo de primeiro-ministro do atual governo de Kuchma. A diferença entre eles reflete o dilema do novo empresariado ucraniano, que se encontra sob duas forças.

Yanukovich se apóia no leste e busca consolidar uma união econômica com a Rússia, a Bielorússia e o Cazaquistão, viabilizando uma espécie de Mercosul ou União Européia com as maiores repúblicas da antiga União Soviética.

Yushchenko segue o oeste. Pretende privatizar mais e buscar uma integração com a União Européia e a OTAN. Washington, como na Iugoslávia e na Geórgia, incentiva protestos, pois assim busca impor regimes amigos nestes Estados ex-socialistas. Esse confronto pode indicar novos e maiores atritos entre Washington e Moscou.

Vitória para qual viktor?

LONDRES, 30/11/2004. A Ucrânia está polarizada entre Viktor Yanukovych e Viktor Yushchenko. Os dois têm nomes similares e já foram premiês do atual presidente Kuchma. Atrás da vitória de qualquer um deles estará a de seus reais patrocinadores: Washington e Moscou.

Quando, entre 1989 e 1991, o bloco soviético entrou em colapso, os EUA foram incorporando grande parte dos países do Pacto de Varsóvia e várias ex-repúblicas soviéticas (Lituânia, Letônia e Estônia) à Otan e à UE. Aqueles que resistiram foram depostos (Sérvia) ou combatidos (Eslováquia e Bielorússia).

Putin fez campanha para Yanukovych e foi o primeiro a congratulá-lo por sua vitória. Yanukovych fala russo com fluência e busca uma união econômica das ex-repúblicas soviéticas.

Bush chama a comunidade internacional a questionar os resultados eleitorais. Seguindo o que fez na Geórgia, alenta protestos para impor um mandatário afinado com suas políticas. É o caso de Yuschenko, que quer que a Ucrânia entre na UE e siga um curso econômico e diplomático consonante com o dos EUA.

Guerra ilegal

LONDRES, outubro/2004. Kofi Annan tem afirmado categoricamente que a invasão do Iraque foi ilegal. O Secretário Geral das Nações Unidas tem tentado demonstrar que não é uma marionete nas mãos de Washington. E ele pode influir sobre as próximas eleições na Austrália e nos EUA.

Quando Aznar deixou o poder em Madri, a revista “The Economist” presumiu que havia caído o primeiro dos quatro “ases” que lideraram o ataque a Bagdá. Em 9 de outubro pode cair o segundo: Howard, primeiro-ministro australiano desde 1996. O terceiro “ás” (Bush) pode cair nas eleições presidenciais de 2 de novembro e o quarto (Blair) poderia ser defenestrado por seu partido se seu descrédito se aprofundar.

Kerry usa as declarações de Annan para atacar Bush e vai tirar proveito de uma possível derrota de Howard. Bush, que acredita ter o poder de intervir em outros países, poderia perder o poder devido à “intervenção” de distintas pressões externas sobre os EUA.

11S

LONDRES, setembro/2004. O 11 de Setembro mudou totalmente a política mundial. Bush, de um presidente impopular e questionado por ter chegado ao poder depois de perder as eleições, passou a contar com altos índices de apoio.

Os EUA surgiram como vítimas e a luta mundial anti-terror se converteu em uma doutrina mundial. Washington aproveitou a vantagem de sua própria tragédia para se outorgar o direito de invadir qualquer país que considerasse necessário.

Se a guerra contra o Afeganistão foi levada adiante pela maior coalizão bélica da história, a invasão do Iraque criou uma enorme divisão entre as potências ocidentais, assim como uma vasta oposição interna nos EUA e no Reino Unido.

O risco do unilateralismo americano é que ele possa levar as potências européias e a China a adotar posições contrárias que podem enfraquecer sua liderança mundial. As políticas duras, por sua vez, acabaram por produzir mais recrutas para o fundamentalismo, que segue sua expansão.

Bomba eleitoral

LONDRES, setembro/2004. O atentado contra a Embaixada Australiana em Jacarta ocorreu a poucos dias do segundo turno das eleições presidenciais da Indonésia (20 de setembro) e das eleições gerais australianas (9 de outubro).

“Terroristas islâmicos” estão conseguindo intervir em vários processos eleitorais apresentando atentados em vez de candidatos. Os atentados contra trens de passageiros, meia semana antes das eleições parlamentares russas de dezembro, reforçaram os radicais de Putin, enquanto na Espanha (março) ajudaram os socialistas a ganharem com a promessa de retirar-se do Iraque.

As oposições usarão os atentados para tentar evitar a reeleição de seus mandatários. Na Indonésia, o general Yudhoyano acusa a presidenta Megawati de “insípida” e vai querer seguir por um atalho ao estilo Putin para mostrar mais firmeza “antiterrorista”. Na Austrália, o trabalhista Latham deseja seguir os passos de Zapatero para tirar Howard do poder acusando-o de ter provocado ódios externos com aventuras militares.

Revista diária fundada em 13 de maio de 2000.

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