Análise Psicopolítica do Clip da Música She’s Bad-Dent de Cuir

Por Evandro Vieira Ouriques

Com todo o respeito e carinho, ofereço uma sequência de perguntas, e uma resposta, sobre o clip da música She’s Bad (http://vimeo.com/98138072) que, aviso, é triste e pesado, e que merece ser criticamente assistido porque anda por aí a ser festejado.

O que os estados mentais desta mulher, e também deste homem, têm a ver com a Natureza? Que insistentemente é mostrada em imagens de animais e plantas que preenchem, como em uma pele transparente, o outline de tais corpos humanos em jogos de sedução e atividade sexual? Afirmando para nós, em uma suposta autópsia de motivações, que a Natureza estaria movendo a sinistra dramaturgia que é apresentada?

Porque a Natureza é responsabilizada por este horror de castração em série, por uma mulher infeliz, de muitos homens à busca da miserável exibição do gozo orificial ou instrumental da presente cultura? Desta cultura que se uma vez foi fundada no recalque dos desejos hoje a-funda na sua imaginária “livre expressão”, que resulta na polimorfa perversão consumista de tudo e todos, transformados em objetos? Esvaziados da Vida?

O que a Natureza teria a ver com esse padrão de comportamento, se tais estados mentais apresentados são todos desdobramentos do ódio? Porque, repito, um comportamento sinistro como esse -mais uma tentativa da fracassada cultura ocidental, que permanece auto-referente, por exemplo nesta ode à vingança que buscaria compensar um suposto complexo de castração- é associado à Natureza?

Na Natureza, está provado, não existe vingança, não existe sadismo, não existe crueldade, não existe tortura. Como disse uma vez um ex-ministro dos Direitos Humanos, para surpresa indignada dos movimentos sociais presentes, em uma mesa que coordenei, “a tortura é humana. Sim, pois apenas os humanos torturam”.

Trata-se portanto este clip de mais uma projeção, uma externalização, que a cultura ocidental faz do seu pior, de seus esgotos mentais, na direção do grande Outro inventado na Grécia: a Natureza. Não é à toa que passados mais de dois mil anos quase nada resta dela, após a longa e crescente história de estupro, sevícia e violação.

É por isso que esta figura feminina, com todas as caras, bocas e meneios do que se considera “sensual” procura inutilmente resgatar sua honra e dignidade perdidas em uma “civilização” machista, através da vingança, invertendo o mito do Barba Azul na direção de uma paráfrase da vagina dentata, no caso a “boca dentada” que castra seus violadores emocionais.

Temos aqui mais um exemplo de dramaturgia da mimesis. Ou seja, de uma arte que opera com “tranquilidade”, ou quase tranquilidade, ou seja, como se tudo estivesse bem e fosse assim mesmo, pela reprodução do que já se experiencia. Espelho. Mas que não apresenta a origem do que se re-experiencia no palco, na tela, na galeria, nos corpos. E muito menos apresenta, sequer como possibilidade, a saída do horror.

Por isso a dramaturgia da mimesis, muitas vezes, é um formidável experimento estético, e a cada dia mais espetacular turbinada pelas novas tecnologias multidimensionais. Mas estéril para o pensamento. Tão estéril quanto a afirmação que o clip faz de que o homem castrado se resumiria ao sangue do pênis arrancado e arquivado no pequeno vidro etiquetado, que logo se revela seu destino de ser esmalte. Como se o homem fosse apenas o pênis…

Trata-se assim de mais do mesmo. Dos mesmos problemas causados por uma mesma cultura auto-referente: violenta, epistemicida, machista, logocêntrica, sexista, hedonista, consumista, excludente, que tenta justificar-se afirmando ser  “materialista” quando na verdade é terrivelmente idealista, pois quer que a realidade seja o que ela não é. E por isso colhe apenas concentração de renda, concentração de poder, devastação da Natureza, devastação emocional e política… Uma in-cultura que faz qualquer coisa, principalmente contorcer-se como o maior espetáculo da terra, com o apoio do dissenso consentido, para não examinar-se em profundidade, reconhecer seu passado sinistro, e então humildar-se, e mudar.

O que precisamos não é de mais vingança, mas de superação efetiva da violência. Precisamos é da dramaturgia do êxtase. Do investimento psicopolítico na dramaturgia que recupera -por decisão da maturidade-, a inocência; a alegria; a pureza da criança. E a vivencia, repito, quando o ser está amadurecido para tal, na sexualidade. Este lugar extraordinário do encontro, do amor. Onde se re-instaura o sagrado, pois se supera a violência no mais fundamental dos territórios: o da conexão, já reconhecida pela neurociência, entre mente e corpo. Isto sim é novidade. Isto sim é merecedor do espírito criativo. Isto sim é arte.

Com amor, e a alegria da gratidão, e.

 é cientista político, jornalista, designer , terapeuta clínico, palestrante e consultor. É coordenador do Centro de Psicopolítica e Gestão Mental da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Seu trabalho é reconhecido e premiado internacionalmente, inclusive pelo PNUD, PNUMA, UNESCO e União Européia: recebeu o Prêmio Melhor Acadêmico do Mundo, do Reputation Institute, NY, o título de Guerreiro Zulu da Universal Zulu Nation e é Acadêmico Correspondente da Academia Galega da Língua Portuguesa. É Professor Convidado do Doutorado em Comunicação e do Doutorado em Ciências Sociais da Universidad de La Frontera, Temuco, Chile. Organizou para o Escritório de Informações da ONU no Brasil o livro Diálogo entre as Civilizações: a experiência brasileira, em função do 11 de Setembro. É credenciado como pesquisador junto ao CNPq e ao FONDECYT, Chile. Tem publicações na Dinamarca, Espanha, Portugal, Colômbia, Chile, Brasil e Reino Unido. Sua especialidade é mudança de cultura.