A questão Palestina-Israel por Isaac Bigio (2004)

A embargada candidatura de Barghouti

LONDRES, 14/12/2004. Barghouti é o líder palestino mais popular. Se vencesse as eleições palestinas, ele teria sido o único presidente constitucional no mundo cumprindo uma prisão perpétua no cárcere do país ocupante.

Este cenário poderia ser bem visto por quem defende a rebelião palestina, mas seu partido (Al Fatah) prefere buscar o diálogo. Quer aproveitar que Sharon rompeu com a ultra-direita e talvez se coligue com o trabalhismo para buscar alguma saída negociada.

Barghouti teve que retirar-se das eleições devido à enorme pressão diplomática e de seu próprio partido (que ameaçou expulsá-lo). Depois do “embargo” desta candidatura, Abbas poderá ganhar com folga e buscará usar este aval para desarmar e desmobilizar a insurgência.

Os palestinos estão debilitados por não terem conseguido atrair aliados hebreus e pela derrota no Iraque. As concessões que hoje o Al Fatah terá de Israel serão menores do que as que Arafat inicialmente obteve.

Rupturas em Israel e na Palestina

LONDRES, 7/12/2004. No início de dezembro aconteceram simultaneamente rupturas no governo de Israel e no partido Al Fatah, governante na Palestina. Sharon, depois de expulsar seus aliados de ultra-direita, acabou obrigando seu único aliado de peso que lhe restava (o centro secular Shinui) a se retirar do seu gabinete. Sua articulação foi astuta e tem como objetivo apresentar a seu partido (Likud) o seguinte impasse: ou se coliga com o trabalhismo ou deve chamar eleições.

A direita do Likud (Netanyahu) e a esquerda trabalhista (Barak) se opõem a um governo de unidade nacional, mas Sharon e Peres crêem que é o momento de aproveitar a morte de Arafat para viabilizar uma retirada das zonas palestinas.

O desafio se acentua diante do anúncio de Barguti de se candidatar contra seu partido, Al Fatah. Sharon precisa mostrar uma disposição conciliadora se quiser ajudar seu favorito Abbas a ganhar as eleições presidenciais palestinas de janeiro.

Como fica a Palestina sem Arafat?

LONDRES, 19/11/2004. Segundo o ex-premiê israelense Peres, a morte de Arafat provocará mudanças. Sua partida pode permitir que surjam novos líderes, que serão pressionados para aceitarem a paz nos termos atual primeiro-ministro israelense (um estado palestino com menos soberania e territórios que o oferecido nos anos 90).

Farrouk Kaddumi (novo chefe do Al Fatah) e o Hamas afirmam que o líder foi envenenado e pedem uma “vingança”. A acusação é rechaçada por Shaat (chanceler palestino), que insiste em buscar um compromisso com Israel. Abbas (o sucessor temporal de Arafat) poderá tentar um processo de renegociação com Sharon, mas suas margens de manobra são poucas.

Por um lado, cresceram os intransigentes palestinos (que querem controlar Gaza “liberada”) e, de outro, o governo nunca cederá parte alguma de Jerusalém ou da Cisjordânia. Para Sharon, o líder palestino foi sempre um terrorista.

Árbitro que falta: Arafat

LONDRES, 12/11/2004. Arafat foi durante mais de 3 décadas o todo-poderoso líder que mediava e arbitrava entre as distintas facções palestinas. Podia promover rebeliões ou atentados para agradar às alas duras e também reconhecer a Israel para ganhar o Nobel da Paz e regar o relacionamento com os conciliadores palestinos e o Ocidente.

Seu vazio promoverá uma disputa interna sem alguém que possa colocar muitas regras. Os três postos que ele concentrava passam a distintas mãos. Os ‘moderados’ Abbas e Qureia estão a cargo da Organização para a Libertação Palestina (frente que agrupa quase todas as facções menos a dos ‘islamistas’) e a Autoridade Palestina, enquanto que o partido governante (Al Fatah) será liderado pelo radical Qaddoumi.

Sem Arafat, a esquerda e o Hamas tentarão avançar no controle de Gaza e tomar uma atitude mais hostil com Israel. Sharon promoverá a divisão palestina buscando entrar em acordo com os ‘moderados’ dando-lhes concessões com a condição de que façam uma guerra civil interna.

Arafat morreu

LONDRES, 11/11/2004. O falecimento de Arafat põe a Sharon numa situação incômoda. Por um lado, se acostumou a pedir sua morte e desejou dividir os palestinos em lideranças locais. De outra parte, a ausência de Arafat fará com que não haja um ‘ogro’ contra o qual era possível vetar o diálogo. Israel pode vir a sofrer mais pressões internas e externas para construir um pacto com os palestinos.

Entre os palestinos se acentuaram os esforços para descobrir alguém que preencha o vazio daquele que controlou sozinho o seu movimento durante quase quatro décadas. No partido de Arafat (Al Fatah) há uma luta entre ‘moderados’ e ‘radicais’, enquanto os intransigentes islâmicos ou socialistas que não querem reconhecer Israel também poderão ganhar força.

Paradoxalmente, a partida de Arafat, líder que Israel considerou como o seu maior inimigo terrorista, pode sim acentuar as tensões internas como entre os palestinos.

Deixando Gaza

LONDRES, 11/11/2004. O congresso israelita resolveu aprovar a proposta de Sharon para retirar-se de Gaza e logo de zonas da Faixa Ocidental. Muitos parlamentares de seu partido (Likud) e dos ultranacionalistas e religiosos judeus votarão contra o que tacham como uma ‘traição’ que criaria um ‘paraíso para os terrroristas’.

Os estrategistas de Sharon retrucam que sua jogada é a que melhor podería evitar um Estado palestino viável. Gaza ficaría completamente cercada. O muro continuaria sendo construído na Faixa Ocidental para separar os hebreus dos árabes, para preparar assim uma nova anexação de terras.

O futuro de Gaza ‘liberada’ está para ser visto. Para os radicais árabes é um ‘campo de concentração’ que devem usar como base para ‘emancipar toda a Palestina’. Sharon talvez quisera uma espécie de ‘bantustanes’ sul-africana. Trabalhistas e pacifistas israelitas crêem que essa retirada é positiva, mas estariam dispostos a fazer mais concessões aos palestinos.

Adeus Arafat?

LONDRES, 5/11/2004. O estado clínico de Arafat pode ser terminal. O que põe Sharon numa situação incômoda. Por um lado, se acostumou a pedir sua morte e desejou dividir os palestinos em lideranças locais. De outra parte, a ausência de Arafat fará com que não haja um ‘ogro’ contra o qual era possível vetar o diálogo. Israel pode vir a sofrer mais pressões internas e externas para construir um pacto com os palestinos.

Entre os palestinos se acentuaram os esforços para descobrir alguém que preencha o vazio daquele que controlou sozinho o seu movimento durante quase quatro décadas. No partido de Arafat (Al Fatah) há uma luta entre ‘moderados’ e ‘radicais’, enquanto os intransigentes islâmicos ou socialistas que não querem reconhecer Israel também poderão ganhar força.

Paradoxalmente, a partida de Arafat, líder que Israel considerou como o seu maior inimigo terrorista, pode sim acentuar as tensões internas como entre os palestinos.

Arafat piora

LONDRES, 29/10/2004. O líder palestino ficou doente no mesmo momento em que o parlamento israelense aprovou a retirada de Gaza. Esses dois fatos, que aconteceram simultaneamente por casualidade, podem alterar o curso do conflito hebreu-árabe.

A renúncia a Gaza é também à idéia do ‘Grande Israel’. Implica o início do reconhecimento de certa soberania para as zonas palestinas. A questão está em saber quem poderá ocupar a liderança de um novo ente palestino.

Sharon sempre quis tirar Arafat do seu posto. A piora na saúde do líder palestino animará uma disputa por sua sucessão. O Fatal, o partido de Arafat, tem uma ala inclinada a maiores compromissos com Israel e outra que organiza atentados suicidas.

Sharon prefere que os palestinos se dividam em várias correntes. Melhor para ele se estas se enfrentarem entre si. Os radicais islâmicos ou esquerdistas também poderão tirar proveito da debilitação de Arafat para implantar políticas mais agressivas, tendentes a ‘reconquistar toda a Palestina’.

Revista diária fundada em 13 de maio de 2000.

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