A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular

O título deste artigo provém do Salmo 118,22. Foi citado cinco vezes no Novo Testamento (Mt 21,42; Mc 12,10; Lc 20,17; At 4,11; 1Pd 2,7) e possivelmente aludido duas vezes (1Cor 3,11; Ef 2,20). Isso quer dizer que serviu abundantemente na cristologia das primeiras comunidades. Aos olhos delas, aplicava-se maravilhosamente a Jesus. Era uma profecia do caminho de Jesus. Jesus foi rejeitado pelos homens e por isso escolhido por Deus. Deus escolheu justamente aquele que tinha sido rejeitado.

 

Com certeza esta profecia ajudou os primeiros discípulos a superar a crise de incredulidade que seguiu a morte de Jesus. Como podia ele ser proclamado Messias se tinha sido rejeitado por todas as autoridades do povo e pelo próprio povo, que pareceu seguir quase inteiramente os seus chefes?

Uma vez iluminados pelos profetas, os discípulos puderam entender o porquê da morte de Jesus na cruz e a sua ressurreição. Havia nessa sucessão uma lógica que as profecias permitiam entender.

Assim iluminados os autores cristãos não se sentiram coma tentação de esconder o fato de que Jesus tinha sido rejeitado. Pelo contrário, destacam o fato já que sabem interpretá-lo.

 

1. Jesus, o rejeitado

As narrações da infância mostram que, desde o início da vida, Jesus ficou marcado pelo sinal da rejeição. Segundo Lucas, não havia lugar para que fosse acolhido no nascimento (Lc 2,7). Segundo Mateus, Herodes quis matá-lo e Jesus teve de fugir para o Egito até a morte do rei.

Desde o início do ministério Jesus encontrou a oposição das autoridades do seu povo, que quiseram matá-lo (Mc 3,6). Em Nazaré foi rejeitado pelo povo no meio do qual tinha crescido (Lc 4,29), e, segundo Marcos, a sua própria família o tinha por louco, querendo prendê-lo (Mc 3,20-30). Durante todo o seu ministério, encontrou a oposição dos doutores da lei, dos sacerdotes, do rei Herodes, isto é, de todas as autoridades. Essas conspiraram para matá-lo (Mc 1-2 e paralelos).

Nas narrações da paixão e da morte de Jesus, todos os evangelistas concordam: Jesus foi condenado à morte pelas autoridades de Israel e pelas autoridades romanas, com a aprovação do povo reunido. Pode-se dizer que as narrações foram redigidas exatamente para destacar essa rejeição total de Jesus. Ninguém foi apoiá-lo ou opor-se à condenação: os seus próprios discípulos ou o traíram como Judas, ou o renegaram como Pedro, ou fugiram como os outros. A própria cruz, castigo reservado aos escravos pelos romanos, era mais um sinal de baixeza e ignomínia.

Jesus foi rejeitado de modo absoluto: ninguém o apoiou, nem sequer o Pai interferiu para dar algum sinal de apoio. No entanto, foi exatamente essa pessoa rejeitada que Deus exaltou, fazendo dela o fundamento de seu Reino.

Jesus foi rejeitado, apesar de ser inocente dos crimes de que foi acusado. Como diz Pedro ao povo: “Vós acusastes o Santo e o Justo, e exigistes que fosse agraciado para vós um assassino, enquanto fazíeis morrer o Chefe da Vida” (At 3,14).

 

2. Jesus e os rejeitados

O próprio Jesus procurou a companhia dos rejeitados da sociedade. Não se pode saber qual foi a causa e qual foi o efeito: se foi rejeitado porque frequentava os rejeitados, ou se frequentou os rejeitados porque era ele próprio rejeitado. Não importa.

Na sociedade do judaísmo palestino que Jesus frequentou, exclusivamente ou quase exclusivamente, havia discriminações e exclusões. A exclusão fazia-se em nome da lei. Ora, Jesus manifesta certa predileção ou uma compreensão especial para com as categorias de excluídos.

Entre os excluídos havia, em primeiro lugar, os leprosos: esses eram sujeitos às piores leis de separação (Lv 13). No entanto, não somente Jesus permite que eles se aproximem dele, mas ele mesmo se aproxima e chega ao ponto de tocá-los (Mt 8,1-4; Mc 1,40-45: Lc 5,12-16; 17,11-18). Havia as prostitutas. Jesus acolhe a mulher pecadora (Lc 7,36-50).

Os publicanos ou cobradores de impostos eram outra categoria de pessoas excomungadas ou excluídas do convívio com o povo. Ora, Jesus entra na casa deles e come com eles (Mt 9,9-13; 11,19; Mc 2,15-17; Lc 5,27-32; 7,34; 19,1-10).

A lei proibia também o contato com os pagãos, sejam eles soldados, administradores romanos, ou descendentes dos antigos cananeus. Jesus acolhe tanto o oficial romano (Mt 8,5-13; Lc 7,1-10; Jo 4,46-­53), como a mulher cananeia (Mt 15,21-28; Mc 7,24-­30).

Os próprios samaritanos, que não eram pagãos, eram excomungados e nenhum israelita podia conversar com eles. Jesus conversa com a mulher samaritana (Jo 4,1-42), destaca exemplos de samaritanos (Lc 10,30-37; 17,11-19) e exclui qualquer comportamento violento para com eles (Lc 9,51-56).

Na parábola do banquete, Jesus parece enunciar um princípio geral: no Reino quem estará finalmente presente serão todos os marginalizados. Os convidados — israelitas observantes da lei (Lc 14,15-20) — não apareceram. Então entram no Reino “os pobres, os estropiados, os cegos e os coxos. Sobra lugar e Jesus chama os que estão longe “pelos caminhos e trilhas”. São os que não observam a lei rigorosamente e que os judeus não reconhecem como bons israelitas.

Também na cruz, Jesus encontra-se no meio de dois ladrões. Essa companhia não está desprovida de significado. Até na morte Jesus está entre marginalizados.

Claro está que Jesus não procura os excluídos da sociedade porque seriam melhores moralmente ou religiosamente. Não lhes reconhece nenhuma superioridade. Jesus procura-os justamente porque foram excluídos. As três parábolas de Lucas — ovelha perdida, drama perdida e filho perdido — explicam muito bem as motivações de Jesus: Jesus procura o que está perdido não porque vale mais, mas simplesmente pelo fato de estar perdido. Da mesma maneira em Mateus, Jesus explica que “não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes” (Mt 9,12). A doença não é melhor do que a saúde. Porém Jesus é como um médico. Vem salvar o que estava em perigo de se perder.

 

 3. Os cristãos excluídos da sociedade

Se Jesus foi rejeitado pelas autoridades dos judeus, era de se esperar que os seus discípulos conhecessem a mesma sorte. Embora os primeiros capítulos dos Atos dos Apóstolos mostrem os primeiros cristãos rodeados pela simpatia do povo de Jerusalém, não podem esconder que os doze foram perseguidos pelas autoridades. Se bem que, ao que parece, mais tarde houve uma atitude de tolerância da parte das autoridades de Jerusalém para com os judeu-cristãos. Essa tolerância não se estende aos helenistas, seguidores de Estêvão. Esses foram expulsos da cidade.

Dos Atos podemos inferir que os judeu-cristãos alcançaram certa liberdade, pois permaneceram fiéis à lei judaica, ao templo e à circuncisão, assim como ao conjunto de práticas de devoção.

Quanto aos outros, os que, seguindo Estêvão, se emanciparam do templo, e deixaram de impor a circuncisão aos pagãos convertidos, conheceram todo o tipo de perseguição. Tudo indica que não puderam permanecer em Jerusalém, mas, mesmo na diáspora, encontraram muita hostilidade da parte dos judeus, sobretudo dos fariseus.

As controvérsias entre Jesus e os fariseus, tão destacadas nos evangelhos, sobretudo em Mateus, refletem provavelmente as tensões crescentes entre as sinagogas e os primeiros cristãos em toda a diáspora. Essas tensões vão crescendo.

Ao mostrar, nos Atos, que Paulo foi sistematicamente expulso das sinagogas das cidades gregas, Lucas expressa provavelmente um fato generalizado na sua época. Da mesma maneira, a expulsão de Jesus da sinagoga de Nazaré devia corresponder à expulsão dos cristãos das sinagogas das cidades da diáspora.

Quanto a Paulo, sem dúvida foi expulso, condenado, perseguido pelos chefes das sinagogas, e sofreu violências da parte deles. “Dos judeus recebi cinco vezes os quarenta golpes menos um. Três vezes fui flagelado. Uma vez, apedrejado” (2Cor 11,24).

Os cristãos que se emanciparam da lei foram excomungados pelos judeus, julgados e condenados como hereges e expulsos das sinagogas. Muitas vezes essa expulsão trazia consigo atos violentos. Os cristãos formaram, dessa maneira, uma minoria de excluídos marginalizados fora da comunidade de Israel. Eles não queriam separar-se. Queriam que todo o Israel reconhecesse Jesus como Messias e seguissem os caminhos de Jesus. Não o conseguiram. Em lugar de convencer o seu povo, foram excluídos por ele.

Ora, no mundo romano os cristãos não eram aceitos. Havia espaço legal para os judeus no sistema romano. Não houve nada semelhante para os cristãos. Uma vez expulsos da comunidade judaica, os cristãos entravam na ilegalidade: excluídos de Israel, estavam excluídos do mundo romano. A famosa carta de Trajano a Plínio define a situação jurídica dos cristãos. A sua religião é ilegal. Quem quiser perseverar na religião proibida se expõe à morte.

Os romanos, porém, não estabeleceram nenhuma Inquisição, nenhuma polícia religiosa para descobrir os delinquentes cristãos. Para ser perseguido era preciso ter sido denunciado. Não faltaram denunciadores, mas o número relativamente pequeno de mártires nos primeiros séculos (se o compararmos com o número dos mártires do século XX) explica-se pela ausência de uma polícia encarregada de descobrir os ilegais.

Assim mesmo, houve milhares de mártires. Os cristãos viveram durante dois séculos e meio em permanente insegurança. Nesse período estavam o tempo todo à margem da legalidade. Além disso, pela sua fé religiosa, estavam marginalizados em relação à cultura. Eram minoria isolada. Não podiam ir nem ao circo, nem ao teatro, nem às escolas. Não podiam entrar no exército, nem na magistratura. Não podiam existir como instituições. Não podiam ter casas, nem lugares de reuniões.

Compreende-se que poucos ricos podiam aceitar tal marginalização. Numa comunidade tão marginalizada, sentiam-se mais à vontade as pessoas já marginalizadas pela sua condição política, social e econômica: estrangeiros, pobres, escravos e os que exerciam pequenas profissões independentes como pequenos comerciantes.

Dessa maneira, as gerações cristãs foram feitas de pessoas marginalizadas em todos os sentidos. Da parte dos filósofos e dos intelectuais do mundo romano, somente mereciam o desprezo, como disse o filósofo Celso.

 

4. Os cristãos e os excluídos

A comunidade cristã está aberta para todos e não põe nenhuma condição prévia. Os judeus exigiam a circuncisão. Paulo lutou para que se implantasse a libertação da lei dos judeus. Finalmente a tese de Paulo prevaleceu e não houve imposição de nenhuma lei. Qualquer pessoa podia aderir à comunidade. Todos os povos, todas as línguas, todas as classes sociais eram, aceitas.

As mulheres achavam-se na comunidade cristã iguais aos homens: já não havia mais circuncisão para marcar a diferença, não havia mais a proibição de entrar no templo de Jerusalém.

Os escravos podiam sentir-se iguais aos seus amos, pois o evangelho não fazia nenhuma discriminação. Explica-se porque tantos escravos e tantas pessoas de baixa condição se converteram a Cristo, integrando a Igreja. A pertença à Igreja cristã era uma promoção social. A Igreja pôde ser, para muitos, o refúgio dos excluídos e, ao mesmo tempo, o protesto contra a exclusão.

 

5. O cristianismo e a exclusão

A própria Igreja, refúgio dos excluídos, exclui também. Desde o início excomunga, isto é, exclui da sua comunhão, exclui da comunidade.

A segunda epístola de João mostra que desde cedo aparece a excomunhão dos hereges: “Se alguém chega até vocês, sem ser o portador deste ensinamento, não o recebam na casa de vocês, nem o cumprimentem. Aquele que o cumprimentar estará participando de suas obras más” (10-11).

Desde a época das perseguições, a Igreja exclui os hereges da sua comunhão. Exclui também os cismáticos, e exclui diversas categorias de pecadores públicos. Explica-se que essa exclusão tem um fim pedagógico. A excomunhão é um meio de pressão para que o herege, o cismático ou o pecador se arrependam, se convertam e voltem convertidos ao seio da Igreja.

Sociologicamente explica-se que uma pequena comunidade totalmente marginalizada, quase perdida no meio de uma sociedade totalmente diferente nos seus valores e nos seus comportamentos, tinha de se defender para evitar a contaminação por um ambiente que podia então facilmente seduzir. A própria fraqueza sociológica da Igreja cristã obrigava-a a manter uma forte identidade e a excluir os elementos que criavam perigo para essa identidade.

Psicologicamente, naquele tempo, era muito difícil fazer a distinção entre os comportamentos objetivos e as disposições subjetivas. É muito possível que vários hereges não queriam ser hereges, mas usavam expressões diferentes para expressar a sua fé. É muito possível que vários pecadores fossem apenas pessoas fracas que não queriam contaminar a Igreja nem introduzir nela a imoralidade da sociedade romana.

Em todo o caso, a prática da excomunhão introduziu uma forma de atuar que acharia imensos desenvolvimentos na época da cristandade. Essa podia invocar argumentos tirados da prática da Igreja nos tempos da perseguição.

Com a conversão dos imperadores romanos veio a cristandade. Com ela a exclusão tornou-se uma das estruturas fundamentais da Igreja. A excomunhão foi praticada de modo cada vez mais generalizado: excomunhão dos hereges, dos cismáticos e dos peca­dores. A história da cristandade foi uma história de excomunhões, de heresias, de cismas, de combate contra os pecados públicos.

O agravante da excomunhão eclesiástica foi que incluía uma exclusão da sociedade civil, exclusão política, social e econômica. O excomungado ficava excluído da sociedade: não podia participar de atos públicos, estava excluído da convivência, muitas vezes não podia exercer profissões, os seus bens eram confiscados. Em milhares de casos a excomunhão levava à morte, muitas vezes na fogueira. Grande parte da revolta da modernidade foi revolta contra o sistema de repressão da Igreja: Inquisição, guerras de religião, cruzadas contra os hereges ou cismáticos, fogueira, extermínio das bruxas e perseguições contra os judeus. A Igreja gerou incontáveis excluídos. Esses, por fim, estiveram na origem de uma formidável conspiração contra ela. Ainda hoje há, em muitos ambientes, uma forte rejeição à Igreja por causa do seu sistema de repressão.

Na verdade, quando santo Agostinho apelou para o poder civil para reprimir os donatistas, abriu um precedente que não podia avaliar naquele tempo, mas que se revelou catastrófico.

Além disso, a cristandade aceita, legitima, até mesmo sacraliza as formas de exclusão da sociedade estabelecida, como se a estrutura social fosse expressão da vontade divina.

A cristandade identifica-se com as lutas do império romano, da sociedade medieval, das monarquias e das nações contra os seus inimigos históricos. Considera como seus inimigos os inimigos da sociedade romana. Daí uma guerra de 1.300 anos entre a cristandade e o Islã. Ainda hoje os muçulmanos interpretam como guerra dos cristãos todas as guerras das nações modernas contra eles, incluindo-se a recente guerra do Golfo. A identificação da cristandade com as guerras do mundo mantém até hoje uma forte rejeição contra a Igreja, sobretudo na Ásia, mas também na África e em várias nações autóctones da América. Por ser herdeira da cristandade, a Igreja atual continua sendo fator de exclusão para a maioria dos habitantes da terra.

A cristandade aceita as exclusões internas da sociedade: inúmeras penas de morte; prisioneiros; categorias sociais excluídas, como, por exemplo, ladrões e bandidos, que são, na maioria dos casos, os excluídos econômicos; as prostitutas, também por razões econômicas; os subproletários; os operários da revolução industrial, que são os novos escravos. A cristandade aceitou a escravidão tanto na Europa como na América.

Por fidelidade à cristandade, os cristãos estavam impedidos de lutar contra as estruturas sociais de exclusão. Tinham de buscar argumentos religiosos para justificar tudo o que estava estabelecido, até a escravidão.

Mesmo hoje, a cristandade não morreu completamente e muitos dos comportamentos adquiridos durante os 15 séculos de cristandade ainda não desapareceram.

Se a opção pelos pobres fosse realmente aplicada, quebraria todas as estruturas da cristandade. Pois toda a política repressiva da Igreja na cristandade estava baseada na aliança com os chefes da sociedade. Durante 15 séculos, a política de evangelização da Igreja adotou como princípio fundamental: primeiro converter os poderosos, os chefes, para que estes imponham a conversão aos seus povos. Foi a época da evangelização de cima para baixo.

Ainda hoje muitos prelados acham que esse é o único método missionário eficaz e promovem-no com todo o poder eclesiástico de que dispõem: primeiro converter os poderosos (políticos, econômicos e culturais) para que estes possam pressionar, por todos os meios possíveis, os povos, as classes inferiores. Para eles, trata-se do método mais rápido e mais econômico. A opção de muitos pelo sistema da cristandade é a razão pela qual a opção pelos pobres não é realmente aplicada a não ser por uma minoria dos agentes de pastoral.

Uma vez destruída a cristandade nas instituições, como no Brasil pela República, muitos prelados teimaram em reconstruí-la nos fatos: foi a estratégia adotada pelo episcopado brasileiro depois do advento da República, apesar das exortações do Pe. Júlio Maria (que não tiveram nenhuma audiência).

A opção pelos pobres seria o fim das discriminações sociais e o retorno ao estado da Igreja existente antes da cristandade; seria o acesso de fato de todos à comunhão da Igreja.

À medida que dioceses inteiras, paróquias e Institutos Religiosos, ou parte deles, continuam a opção pelos poderosos sociais, praticam uma exclusão de fato. Os pobres sentem que não têm lugar nessa Igreja, afastam-se dela e procuram outra religião. Teoricamente a Igreja pode dizer que faz opção pelos pobres, mas os pobres não fazem opção pela Igreja, o que mostra que sabem interpretar os fatos e não são atingidos pelas teorias. Percebem que são excluídos.

Hoje em dia fala-se de novo em “pastoral das massas”. Essas massas são os excluídos, não somente excluídos pela sociedade, mas excluídos pela Igreja. Uma pastoral dos excluídos seria uma pastoral de conversão, pois seria uma pastoral das massas, que a Igreja exclui. Essas massas não estão fora da prática diária da Igreja porque são ignorantes, preguiçosas ou pecadoras, mas porque a rejeitam. Rejeitam-na porque se sentem excluídas por ela.

A opção pelos pobres pode agir como um fermento para que a Igreja se disponha, pouco a pouco, para se despojar das estruturas e dos preconceitos da cristandade. Será uma tarefa de séculos.

Não faltam os falsos profetas que explicam que dar privilégios aos ricos é a melhor maneira de fazer opção pelos pobres, porque os pobres aproveita­rão a maior riqueza dos ricos. Por isso, acham que uma nova etapa do capitalismo é o melhor caminho para a libertação dos pobres e que a Igreja deveria adotar mais abertamente o capitalismo como realização prática da opção pelos pobres. Os fatos mostram que o capitalismo gera cada vez mais excluídos, mas as promessas não são afetadas pelos fatos.

Estamos numa sociedade que fabrica intensa­mente excluídos. Na situação em que estamos, a Igreja fabrica também os seus excluídos. Como reverter essa situação? Ou será ela irreversível?

A CNBB decidiu enfrentar o desafio e convidar todos os católicos para esse confronto. Deus queira que muitos católicos despertem, abandonem os seus preconceitos tradicionais e entrem na conversão da Igreja.

Fonte: Vida Pastoral

Publicado em Janeiro-Fevereiro de 1995 (pp. 5-9)

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