A pedagogia de Paulo Freire: contribuições e reinvenção

freireEscutamos, com atenção e deleite, duas palestras sobre o tema ora em discussão pelos nossos queridos Prof. Agostinho Rosas e Profa. Laura Brito, membros desta Roda de Diálogo.

Como terceiro membro da mesma Roda de Diálogo, cuidarei de, à luz do tema que nos ocupa, e a partir das falas atentamente escutadas, desincumbir-me de minha tarefa, sublinhando três palavras-geradoras bastante presentes nas falas antecedentes, como idéias-força desta reflexão ora proposta: memória histórica como força motriz de nossas energias transformadoras; diálogo como práxis relacional e utopia como apelo histórico à reescrita do mundo.

Seja na edificante e criativa palestra do Prof. Agostinho Rosas, seja no tocante depoimento da Profa. Laura Brito sobre seu encontro com Paulo Freire, tantas foram as palavras geradoras por ambos utilizadas, direta ou indiretamente, que decidi escolher apenas três sobre as quais eu gostaria de assentar minha reflexão, por ocasião da abertura deste II Ciclo Dialógico Paulo Freire, que reúne grupos de pesquisa e estudo que lidam com sua proposta pedagógica.

1. A memória (histórica) como força-motriz de nossas energias transformadoras

Numa (re)visitação das obras de Paulo Freire, desponta como uma constante (pelo menos nas obras de principal referência) sua inquietação com uma certa reconstituição histórica do processo analisado (cultura brasileira, educação, opressão, conscientização…), em que é sempre levado a sério um exercício de rememoração das raízes, das origens históricas do processo em exame. Procedimento que, em Freire (não apenas em Freire), sinaliza para sua postura de analista atento e perspicaz a costurar, com sua genial agulha de Pedagogo, retalhos de cada momento histórico numa perspectiva de unidade do tempo – passado-presente-futuro. Em vão se busca conhecer o momento presente (dimensão conjuntural) sem atentar para os fios do passado que o foram constituindo e dando-lhe sentido. Como costuma assinalar Eduardo Galeano, o passado tem coisas que interessam ao futuro.

Há, com efeito, um inegável impacto junto aos protagonistas aprendentes e ensinantes, seja nos espaços formativos formais (da Educação Infantil à Pós-Graduação), seja nos espaços formativos não-formais (movimentos sociais, organizações de base de nossa sociedade…). Aqui, o impacto soa bem mais efetivo, graças ao investimento numa formação contínua e à intencionalidade transformadora das relações sociais fundamentais.

Em incontáveis situações de experiências formativas nos movimentos sociais populares, resultam quase sempre marcantes, pelo seu efeito vivificador, aqueles momentos de cultivo da memória, de recuperação das lutas históricas (coletivas e individuais) do passado, seja pelos feitos de nossos ascendentes indígenas, seja por conta da saga de resistência afrodescendente, seja pelas lutas camponesas, e seus respectivos ícones.

Como nos falam ao coração as diversas manifestações de resistência indígena contra o processo de colonização! Recomendo, de passagem, por ex., a experiência dos Guarani (ver, por ex. de Clovis LUGON. A República Comunista-Cristã dos Guaranis (cf. comentário em http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=3281&secao=332 ).

Assim sucede, por igual, em relação à saga do Quilombo dos Palmares e outros tantos quilombos (de ontem e de hoje), com figuras como Zumbi, Dandara e tantas outras). Assim encontramos na heróica trajetória de Canudos, de Caldeirão, das Ligas Camponesas (ver o “site” do Memorial das Ligas Camponesas), e seus protagonistas coletivos e individuais (Antônio Conselheiro, Beato José Lourenço, João Pedro Teixeira, Elizabeth Teixeira…)

Ao cultivarmos essa memória perigosa, não nos anima qualquer idéia de reproduzi-las hoje, em condições tão diferentes, mas nos movem a inspiração, as intuições, a garra, a determinação daquelas gentes e daquelas figuras individuais, de quem recolhemos força e inspiraçõ para o enfrentamento dos desafios presentes. Cultivamos sua memória subversiva com o propósito de reinventá-la, a partir da realidade de hoje, dos novos desafios.

2. O diálogo como práxis relacional

Diferentemente dos demais animais, o ser humano nasce – bem o sabemos -visivelmente mais frágil, mais incompleto, mais imaturo, mais dependente. Por outro lado, diferente dos demais animais. Nisto repousa, porém, grande vantagem: ele vai tomando consciência de seus limites, de sua inconclusão. Mas, é somente graças ao efetivo exercício da consciência de seu inacabamento, que ele vai também descobrindo meios de superação (pelo menos parcial) de sua condição. E isto se dá pelo exercício da con-vivência, da relacionalidade. À medida que vai entrando em relação com os demais seres humanos e suas circunstâncias (naturais e culturais), é que ele vai aprendendo a lidar positivamente com seus limites, transformando-os, inclusive, em poltencialidades. Aqui estamos no terreno da formação, da educação, a aprender e a compartilhar experiências de saberes, de práticas culturais características do processo de humanização.

Nesse sentido, o modo pelo qual se processa tal relacionalidade é por meio do exercício do diálogo. Diálogo com os parceiros de caminhada, diálogo com os aliados, diálogo até com os diferentes (desde que não antagônicos). Diálogo com os antepassados, seus desafios, suas lutas, suas conquistas, seus reveses. Esses antepassados tanto podem ser sujeitos coletivos quanto sujeitos individuais; podem ser figuras de clássicos; podem ser protagonistas de lutas de movimentos socais, ajudando-nos, hoje, a neles inspirar-nos, não com pretensão de reeditá-los/las, mas de reinventá-los, deles/delas colhendo intuições e neles/nelas inspirar-nos em busca de acolher elementos que nos possam ser úteis nas lutas e enfrentamentos dos desafios de hoje.

Como se deu a experiência dos povos indígenas em conflito com o processo colonizador? De que modo resistiram? Quais suas formas de luta? Assim também procedendo em relação a movimentos indígenas, a movimentos negros, de Mulheres, de orientação sexal; de espacialidade (o que significa a ação político-pedagógica de quem respira os ares das lutas de distintos espaços: de quem vive na cidade ou de quem vive no campo; de quem vive no Nordeste e de quem vive no Sul, etc.?) Dialogar com as experiências de buscas e lutas dos trabahadores em face da ditadura empresarial-militar.

As diferentes formas de resistência de nossas gentes contra a tenebrosa herança do processo colonizador constituem um precioso legado a não perdermos de vista. Donde a necessidade de incessante reavivamento de nossa memória histórica, que aprendemos a reavivar em nós graças ao exercício de diálogo com nossos antepassados e com os nossos contemporâneos. Resistência de ontem e de hoje, face às novas expressões de exploração, de dominação e de marginalização. Mas, não bastam. Têm que vir acompanhadas de iniciativas de alternatividade.

Enquanto nos limitarmos apenas aos processos de resistência, estes indicam nossa oposição ao antigo regime (reciclado de “novo”, na atualidade), apontam nosso sonoro “NÃO” às velhas e novas formas de exploração, dominação e marginalização, sem ainda nos permitirem tomar iniciativa propriamente dita, ou seja: ousar o novo, o alternativo, já a partir de agora. Urge que sejamos capazes de ir além da mera resistência. Urge que ousemos ensaiar, já de agora, passos de alternatividade. Somos historicamente desafiados a exercitar bem essa saudável tensão entre o “já” e o “ainda não” (Ernst Bloch).

Nesse sentido, (também) em Paulo Freire, vamos encontrar um arsenal teórico-prático de instrumentos que bem nos ajudarão a ousarmos ir além de ações de estrita resistência. Um desses instrumentos teórico-conceituais podemos encontrar em sua constante referência à necessidade, por parte dos oprimidos, de exercitar a consciência de seu inacabamento, inclusive como condição de ousarem superar seus limites, na direção de um horizonte libertador.

Graças ao nosso esforço de exercitar ininterruptamente a consciência do nosso inacabamento, vamos descobrindo progressivamente as imensas possiblidades de superação de nossos limites por meio do exercício da relaconalidade. Descobrimos que, sabedores de nossa inconclusão, somente pela convivência logramos enfrentar exitosamente nossos limites. Descobrindo que somos um nó de relações, vamos sentindo-nos atraídos a aprender dos e com os outros, e a partilhar nossos limites e potencialidades, nos diversos espaços sociais de que participamos. Também no processo de construção de saberes.

Tendo em vista que tal desiderato não se dá espontaneisticamente e sem qualquer mediação, eis que também descobrimos com e em Freire que a grande mediação que nos assegura uma relacionalidade fecunda é o diálogo. Não, porém, qualquer diálogo.

3. A esperança (como utopia ou “inédito viável”) em resposta ao apelo histórico ao ser mais” e à reescrita do mundo

A despeito de haver aqui figurado como o terceiro passo ou momento de nossa reflexão, em verdade eu deveria ter iniciado a refletir justamente a partir da esperança, aqui tratada como utopia ou como o “inédito viável”. Justifica-se tal posicionamento pelo fato de que são os nossos sonhos que nos movem à ação transformadora. Descontentes com um mundo de desigualdades e injustiças, encontramos na esperança força de mobilização que nos impulsiona à mudança. Mudança do mundo, a partir de nos, das relações moleculares do cotidiano.

É no chão do dia-a-dia que cada pessoa, cada grupo social, movido pela utopia, pelo sonho, cuida de manifestar seu empenho em transformar tais relações, tanto no espaço macro quanto nas micro-relações.

Considerando que nós só lutamos por aquilo em que apostamos, do tamanho dessa gana vai depender a intensidade do nosso empenho de mudança. Se nosso desejo se limita, por exemplo, a assegurar a todos três refeições diárias, não há por que não nos contentarmos com eleger pessoas e partidos que, assumindo a gestão do Estado, tornem concreta tal meta. Não precisamos de mudanças estruturais. Os espaços hoje disponíveis na democracia representativa e nos aparelhos de Estado nos permitem alcançar essa meta. O mesmo se diga em relação a desideratos semelhantes (atendimento de políticas públicas pontuais, ainda que de maneira parcial).

Certamente BEM OUTRA será nossa posição, se nossa gana não se restringir ao cumprimento de políticas pontuais e parciais, ma alimentarmos o firme desejo de assegurar A TODOS (já não apenas a uma parcela da população), não apenas a satisfação de necessidades materiais fundamentais (terra, trabalho, moradia, saúde, transporte, segurança, etc.), mas igualmente a satisfação de suas necessidades imateriais, espirituais (protagonismo nas decisões de cogestão da organização da sociedade, exercício como sujeitos na produção de bens culturais, na definição, no planejamento, na implementação, na avaliação da política econômica e demais políticas sociais, etc.).

Neste caso, não há como seguirmos iludidos com o alcance da democracia representativa, expressão viva da lógica capitalista. Passamos, então, a mudar radicalmente nossas apostas, ainda que tendo claro que tais mudanças não virão da noite para o dia. Serão obra de décadas, graças ao paciente e persistente plantio de sementes de alternatividade à lógica do Capital seus componentes essenciais (o Mercado e e o Estado). Uma busca INCESSANTE de exercitarmos, nas micro e macro-relações, desde o chão do dia-a-dia, o inédito viável, a partir de nosso esforço pessoal e coletivo de buscarmos fazer valer nas ações minúsculas ou mais visíveis os princípios em que dizemos crer.