A partir de Mia Couto III

Acabo de assistir à terceira parte da entrevista do escritor e biólogo moçambicano Mia Couto, concedida ao programa Roda Viva, da TV Cultura, no dia 5/11/12. Em primeiro lugar, gostaria de dizer que está sendo uma experiência muito rica, esta de estar assistindo por partes, as sessões de conversa deste escritor africano branco. São momentos de uma escuta ativa, da forma como na Terapia Comunitária Integrativa aprendemos a fazer, e como de alguma maneira, como seres humanos, sempre soubemos fazer.

Escutar o outro sem anteparos, sem expectativas, sem julgamentos. Deixar o outro vir, deixar o outro chegar, para ver que não é tão outro, é muito mais eu. Não deixa de me maravilhar como Mia Couto é alguém que não se apresenta, ou seja, não é alguém que se prepara para dizer, para aparecer de uma certa forma. Ele está aí, e você pode se ver no lugar dele. Você pode se ver no lugar dele, e perceber que não há tantas diferenças, alguém ser africano, moçambicano, argentino, brasileiro, é gente.

Verdadeiramente acho muito notável, o efeito de uma pessoa que se mostra como é, sem enfeites nem encenações. Ela provoca o emergir, a recordação total e profunda do nosso próprio ser, da nossa própria e verdadeira essência. Aliás, uma das questões que Mia Couto coloca nesta terceira parte da entrevista, é sobre o ser e o estar, uma situação privilegiada do português (e do castelhano). Em outros idiomas, como no inglês, tem um único verbo que não distingue entre ambas condições.

Nesta parte da entrevista, pude perceber como o escritor integra os seus entrevistadores e entrevistadoras. Ele não se destaca, não se separa e nem se opõe. Ele se integra numa fala circular na qual está incluído, da qual faz parte, mas ele não é o centro, embora esteja no centro, e seja o centro. Mas aos poucos, o espectador percebe que o centro é a própria pessoa, o centro é você, o centro é a sua própria história de vida, o seu próprio percurso existencial, a sua própria vivência como ser humano.

Nesta terceira etapa da entrevista, Mia Couto falou, entre outras coisas, sobre as diferentes linguagens, o que já tinha ocorrido nas fases anteriores, onde o lugar da fabulação fora reconhecido como uma forma de conhecimento. Aqui a poesia ganha status de um conhecimento superior ao de um relatório científico. Como uma pessoa pode manter a sua espontaneidade, a sua simplicidade, e, assim, provocar nos ouvintes ou nos espectadores, um movimento de revalorização da própria vida.

Num momento, Mia Couto lembra do pai dele, andando pelos caminhos empoeirados, encontrando pedrinhas brilhantes. Nesse momento, diz o escritor, meu pai era um menino como eu. Uma outra coisa que me chamou a atenção neste terceiro trecho da entrevista, foi o que Mia Couto comenta sobre Moçambique a respeito da questão racial. Ele sendo branco, não se sente branco, se sente gente, moçambicano. Achei isto bonito. Muito lindo.