A mirada poético-literária

Pensava que poderia chegar a ser bom escrever alguma coisa sobre este assunto. Afinal, pensava, o que é que nos resgata da mesmice, da rotina cinza que nos faz crer que já vimos o que aqui está, que o que vemos é algo já conhecido? Não seria para dissertar mas apenas para clarear o que é este olhar, como é que existe e permanece em nós esta possibilidade de nos conectarmos com o que está aqui agora, e não com a cópia arquivada na memória.

O que aqui está é acessível, mas tenho que fazer algum exercício ou trabalho, tenho que parar de resistir e me deixar vir, me deixar estar aqui. Aqui encontro o que está aqui, porque aqui não tem nada mais do que o que aqui está. Surge a pergunta: onde estou quando não estou aqui? Em algum outro lugar ou em muitos outros lugares. Todo mundo está em muitos lugares ao mesmo tempo. A imaginação, o espírito, o desejo, a vontade, a lembrança, a projeção.

O ser humano é um feixe de possibilidades em movimento. Quando decido estar aqui, vir para o presente, ou quando por algum motivo acontece de eu estar aqui, o cotidiano se torna mágico. Posso relaxar então, diminuir alguma intencionalidade meio forçada, meio treinada a querer outra coisa, a estar em algum outro lugar, de algum outro modo.  A literatura e a poesia vão afastando os véus que nos separavam do que aqui está.

Quando nos deixamos levar por um poema, pela poesia da existência, ocorre o milagre, a maravilha de estarmos aqui plenamente. Então aquele mesmo velho par de óculos antigo e tão conhecido, não é mais nem tão antigo nem tão conhecido. Rebrilha com algo que nunca antes tinha visto, e me admiro das suas formas, dos seus reflexos.

E a chuva desta manhã, e o rosto dela no café da manhã, e as lembranças, não são as mesmas, porque é novo constantemente. Quando tento conhecer esta mirada poético-literária, abro uma fresta e a realidade vêm, e sou um só com o que aqui está. Quando leio uma novela, um romance, um conto, um poema, me dissolvo, me reúno, vou mais além, e venho mais para cá. Estou mais aqui, sou mais eu.