A memória de Freire nos instiga a tomar mais a sério seu legado!

No octogésimo sétimo aniversário
Desse homem-menino recifense
Que por gesto e atitude nos convence
Junto ao Povo a manter-nos solidários
Em suas lutas, qualquer seja o cenário
Sem tornar-nos reféns do deus Mercado
Em mudanças autênticas engajados
Quando a moda é seguir outra “cantiga”
A memória de Freire nos instiga
A tomar mais a sério seu legado

Quem milita no campo dos mortais
Sabe bem como é frágil e incoerente
Nosso andar – dois p´ra trás, umpasso à frente
Recomenda humildade, ler sinais
Exercendo autocrítica sempre mais
Em estado de busca de outro achado
Dando asas a sonhos mais ousados
Liberdade ensaiando, sem fadiga
A memória de Freire nos instiga
A tomar mais a sério seu legado

Ninguém pode de Freire virar dono
Mesmo quem seja membro da família
Ou quem tempo mais longo compartilha
O autor lhe diria: “Eu desabono!”
Isso posto, não vale o abandono
“Vale tudo, no grosso e no atacado”
Pois sua vida e escritos variados
Nos ajudam a enfrentar bem essa briga
A memória de Freire nos instiga
A tomar mais sério seu legado.

Há critérios saudáveis, boas pistas
Inspirados em Freire, no bom senso
Não pinçar do legado seu imenso
Expressão desligada, imediatista
P´ra calçar argumentos meus, de “artista”
Convém ler o conjunto dos seus dados
E de modo contextualizado
Com andaime erguido sobre viga
A memória de Freire nos instiga
A tomar mais a sério leu legado.

Hoje a moda global se faz mais forte
Seduzindo amplamente a “confraria”
E a quem fácil aos encantos se filia
Semeando de Freire, antes, morte
Sem que a seus postulados se reporte
E teimando em fingir-se lado a lado
Seu agir se mostrando pontilhado
De engodo, impostura – nova e antiga
A memória de Freire nos instiga
A tomar mais a sério seu legado

Aprendiz freireano é sempre inquieto
Corre atrás do que seja alternativo
Não se deixa enjaular: não é cativo
Exercita a escuta com afeto
Do erudito e do adulto analfabeto
E com ambos aprende, fascinado
Mas, conosco também tal se tem dado?
Ou somente se o outro é gente amiga?
A memória de Freire nos instiga
A tomar mais a sério seu legado

É tão fácil afirmar-nos freireanos
Desafio é viver seus fundamentos
Nesse ponto marchamos bem mais lentos
Desprezamos o cerne dos seus planos
Preferindo um verniz palaciano
No varejo o seguimos, disparados
Mas, no grosso, o desprezo é agravado
Pois implica enfrentar com pouca liga
A memória de Freire nos instiga
A tomar mais a sério seu legado

Radical oponente do sistema
Acusava inclusive os seus agentes
De concreto, o quê mesmo faz a gente?
Ora apóia ou se cala, e assim rema
Já sem causa, abandona antigo lema…
O pior do soneto é o emendado
Pois em vão buscam em Freire um renegado
E no lucro saem as forças inimigas
A memória de Freire nos instiga
A tomar mais a sério seu legado

Autocrítica é artigo “démodé”
Mesmo a crítica reflui a olhos vistos
O que (a)trai_ é por todos ser benquistos
O inimigo sumiu – sei lá por quê…
Pois quem isso enxergava, já não vê
Aliança se faz… viva o Mercado!
Todo o mundo está de braços dados
Tudo segue empurrado com a barriga
A memória de Freire nos instiga
A tomar mais a sério seu legado

Inventivos – eis como nos acena
É em vão que tentemos repeti-lo
Recriá-lo atende a seu estilo
É tarefa difícil, nada amena
Enfrentar desafios vale a pena
Não traí-lo, porém, convém cuidado
Pois não basta “dizer”-nos do seu lado
É preciso engajar-nos nessa briga
A memória de Freire nos instiga
A tomar mais a sério seu legado!

(João Pessoa/Recife, 18/09/2009)

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