A luz dos pobres que transformam a história

A luz dos pobres que fazem história

Neste 3º domingo comum do ano A, o evangelho de Mateus que começamos a ler cada domingo nos traz hoje o início da atividade libertadora de Jesus e a interpretação do seu projeto de vida (Mateus 4, 12- 23). O evangelho dá uma dica para compreendermos o rumo que a missão de Jesus toma e a qual ele nos chama para atualizar permanentemente.

Mateus é o único que acentua a continuidade da história. Assim que João Batista é preso, Jesus assume a mesma missão de profeta. Só que muda de lugar. João cumpria sua profecia nas margens do Jordão. Jesus vai para a Galileia. Ao fazer isso, Jesus tem de mudar os destinatários da sua missão. Também muda  o modo de testemunhar a realização do projeto divino no mundo. João testemunha o reinado divino através do rito do batismo como mergulho na vida nova. Jesus faz isso curando as pessoas e as reunindo em uma comunidade. A Judéia é substituída pela Galileia, o deserto pela beira do mar, os judeus pelas nações. Jesus vai para Cafarnaum marítima, a “aldeia da consolação” que está na margem norte do lago de Genesaré, próxima do rio Jordão, na fronteira entre a Galileia e o território do Filipe, filho de Herodes, a periferia extrema do território bíblico.

No fato de Jesus ir para a região mais pobre e desprezada do país, Mateus vê a realização de uma profecia de Isaías que tinha anunciado a restauração do reino do norte. Essa esperança não vem mais dos centros de poder e sim do meio dos pequenos e considerados descartáveis.

Nessa semana no Brasil, o ministro da economia afirmou que os pobres são os causadores da crise e dos problemas que o país enfrenta. Ao contrário, o evangelho de hoje nos diz que são os portadores da luz e da esperança de libertação de toda a humanidade e do cosmos. Jesus sinaliza isso chamando um pequeno grupo de pessoas para acompanhá-lo em sua missão. Ele chama e convoca os primeiros desses companheiros (discípulos) entre pescadores. Como na Bíblia, o mar era considerado símbolo do mal e do perigo, pescar gente significa escolher como lugar e como grupo os que estão à margem da organização social e política do mundo. Ser “pescador de gente” pode significar: tirar as pessoas do mar, libertá-las de toda dominação. Ser pescador de gente é participar da missão de Jesus em sua luta contra o mar das estruturas assassinas que domina o mundo. É ali na beira do mar que Jesus começa o seu grupo como uma pequena minoria subversiva que vai tumultuar o mundo e transformá-lo. A primeira consequência disso será assumir o conflito em favor dos pequenos na luta pela vida. Jesus faz isso como pequeno e impotente mas que escolhe correr o risco. A própria decisão de, ao saber que João foi preso ir continuar a missão dele e na mesma Galileia onde ele foi preso é quase loucura. O texto de Isaías 9, 1 – 6 que o evangelho cita mostra que a esperança messiânica do reinado divino é política. Vem de baixo, ocorre na periferia mas precisa de governantes que realizem paz, direito e justiça, os termos que os profetas relacionam com a realização da aliança divina no mundo. Infelizmente, nas Igrejas cristãs espiritualizaram tanto essa mensagem do reino que ela se tornou espiritualista e apenas individual para as almas das pessoas e não para o mundo.

Nesses dias, no Xingu, lideranças de centenas de povos tradicionais fizeram uma assembleia e convocaram os povos indígenas à resistência e toda a sociedade à solidariedade com as comunidades ameaçadas. Agora, lhes escrevo isso de Porto Alegre onde estou participando do Fórum Social das Resistências, que reúne movimentos sociais e grupos da sociedade civil, acampamento de juventude e um encontro de teologia da libertação. Tudo isso para reacender a chama da esperança e articular a unidade nas lutas de resistência e libertação.

Para quem crê, é urgente reintegrar a esperança messiânica da salvação trazida por Jesus e a mediação concreta da esperança social e política que precisamos para o Brasil e o mundo de hoje. Toda a base do anúncio do reino para Jesus é o apelo à conversão (metanoia). Ele começou pedindo: “Mudem o modo de pensar!  (Metanoien) O Reino dos céus está próximo!”(4, 17). A comunidade de Mateus evita pronunciar o nome de Deus para respeitar a sua transcendência. Precisamos buscar a intimidade divina, mas ao mesmo tempo, respeitar o seu mistério. Ele se torna próximo, se manifesta em nós, mas sempre por trás de uma nuvem escura. É no cotidiano de nossas lutas e no meio da nossa caminhada social e política que temos de escutar o chamado de Jesus: Segue-me e o apelo permanente: Mudem o modo de pensar! O Reino dos céus está próximo!”(4, 17).