A Igreja que abandonou seus filhos aos contágios do corona vírus?

Pe Gedeão José de Oliveira

A Igreja sob um Papa que se chama Francisco, esqueceu que Francisco abraçava os leprosos, esqueceu que uma das obras de caridade é a de visitar os enfermos, esqueceu que os mártires ensinam que é necessário estar disposto a sacrificar a vida em vez da fé e que renunciar ao próximo significa renunciar a fé. Cf. (http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/598071-uma-pergunta-artigo-de-giorgio-agamben).

No contexto de uma ameaça a humanidade pelo corona vírus, Giorgio Agamben pergunta: O primeiro ponto, talvez o mais grave, concerne aos corpos das pessoas mortas. Como pudemos aceitar, unicamente em nome de um risco que não era possível medir, que as pessoas a nós caras e os seres humanos no geral não somente morressem sozinhos, mas que – algo que nunca havia acontecido antes na história, de Antígona a hoje – seus cadáveres fossem queimados sem um funeral?

Ao perder de vista o essencial, ou seja, a teologia trinitária que sustenta e difere a Igreja do Estado político, a instituição Igreja compartilha e se insere nos mecanismos de dominação e sujeição política. Michel Foucault, (Vigiar e punir: nascimento da prisão; tradução de Raquel Ramalhete. Petrópolis, Vozes, 1987.) Tem razão ao afirmar que a escola, o estado, as forças armadas, enfim, as instituições operam segundo discursos de legitimação dos modos de subjetivação. Deste modo Igreja, como instituição dentro do estado se mostrou como aquela que abandonou seus filhos no momento em que mais precisavam. Bastou o Estado baixar decretos de proibições, que a Igreja seguiu os mesmos procedimentos sem questionar a validade do respeito aos que foram mortos pelo corona vírus.

A morte é a marca da temporalidade; angústia certeira no coração do homem que vive o presente, um espaço entre dois nadas: um que já não mais é, e outro chamado futuro, ainda incerto e intrigante. As práticas fúnebres, para a grande maioria das culturas, implicam o cuidado com os mortos, embora os enderecem para fora da vida, oferecendo aos vivos crenças de sobrevivência pós-morte, não existindo nenhum grupo, por mais primitivo que seja, que abandone seus mortos ou que os abandone sem ritos.

Para nós cristãos a morte é uma experiência de pertencimento a Deus que o integra à vida reduzindo seu assombro. Pode-se dizer, pelas produções artísticas dos períodos históricos, que existiam até uma espécie de experiência amorosa com as noções de morrer, tais como: partida, despedida e/ou descanso. O medo eminente de contágio, o medo da morte, fez a instituição igreja abandonar o essencial, a saber a vida, em nome da segurança pública, o estado de exceção.

Para Paulo a proclamação do evangelho não é uma mera informação ou comunicação. Diferente de um presidente que proclama o uso de armas e de juízes que comunica soltura ou prisão de alguém, Paulo proclama o que é mais importante: o evangelho. Segundo Heidegger, Paulo é o mensageiro autêntico porque Paulo não recebeu a mensagem de nenhum homem, mas diretamente de Deus. (O escândalo de Cristo. Ensaio sobre Heidegger e são Paulo. Luiz Hebeche. 2005. Ijui: Ijui editora. Pg.37) Com isso, a situação da vida de Paulo estará vinculada a destinação da sua mensagem. A mensagem está para além do próprio Paulo, ela aponta pra Cristo. Cristo é o destino daquele que não deve ser abandonado na cruz. Paulo experimenta na conversão que a vida está para além da morte. Assim é a experiência de Cristo na América Latina: descer da cruz os crucificados. Negros, mulheres e indígenas. Está experiência coloca Cristo como centro de toda sua atividade, de modo que as comunidades por ele fundada carrega o testemunho daquele convertido. Na plena modernidade ou pós modernidade, como queiram, a Igreja institucional adaptou-se de forma que paralisou o pensamento em torno da sua própria missão, a saber: dar testemunho do CRISTO RESSUSCITADO. Testemunho de que a vida é a última resposta a morte imposta pelo império romano e hoje pelo Estado político, em nome do corona vírus.

Mas Igreja é mais do que a instituição. Igreja é povo de Deus a caminho. Nestes caminhos muitos cristãos deram suas vidas. Sem medo de ser feliz, cristãos e cristãs pelo mundo inteiro, conseguiram vencer o medo da morte. Médicos/as, Enfermeiros/as e tantas outras pessoas, conseguiram testemunhar que Cristo vive, e em nome de Cristo a vida só tem sentido para além da morte.

 

Fonte: Teologia Nordeste

(30-04-2020)