A crise do Coronavirus. Crise irreversível ou interrupção necessária?

Por Pirmin Spiegel

Faz alguns dias que o mundo se encontra num estado excepcional. O que parecia ser problema de uma província chinesa, muito distante de nossa realidade vital, com velocidade rasante se espalhou no globo inteiro e assalta cada vez mais a nossa vida.  Espalham-se sentimentos de medo e pânico em face deste virus ainda desconhecido e da incerteza acerca do tamanho do perigo que ele esconde. Além do medo de perder entes queridos, tem o temor de  ele botar abaixo todo o nosso sistema de saúde e levar ao fracasso a economia mundial. Perda de controle, incertezas: ainda não sabemos o que há de acontecer. Andamos devagar, na medida que a visão permite. São situações que a Europa ocidental não mais conhece e que irritam profundamente. Há sinais de solidariedade e atenção ao lado de desamparo e desespero. A ânsia de comprar e estocar é um dos recursos que dá ilusão de segurança neste cenário de crise. As mais diversas medidas de “distância social” que de repente se introduzem paralizam em grande parte o dia a dia. As exigidas auto-limitações trazem uma radical interrupção do convívio cotidiano. Crises sempre causam um suspense e fazem ver o que há tempos se ocultava. Assim acontece que a crise do Coronavirus desmascara que nosso sistema econômico não é solidário: pois ele “normaliza” a crescente morte de milhares de pessoas por guerras, por sistemas insuficientes de saúde ou por perigosos caminhos de fuga. Além disto, esta interrupção da rotina nos convida a uma parada que nos faça pensar na vida e a procurar caminhos de conversão.

O teólogo João Batista Metz, que morreu no fim do ano passado, disse que a INTERRUPÃO é a mais curta definição de RELIGIÃO. Para ele, religião não é coisa privada, nem consolo da alma, nem a preparação para a vida no Além. Religião é o dedo levantado que reclama RESPONSABILIDADE POLÍTICA do cristão. O que parece fatal deve ser interrompido, para que a agonia da criação seja percebida e o grito de Deus seja ouvido. Requer-se uma mística dos olhos abertos que chama atenção para o sofrimento dos homens e o grito de Deus, uma mística que em tempos do Coronavirus se compadeça dos mais vulneráveis. Não esqueçamos, com todas as medidas que tomarmos em tempo de crise, da catástrofe humanitária inevitável que é de esperar fora das nossas fronteiras. Não percamos de vista os nossos parceiros nos países, onde a proteção contra o virus será bem mais precária. Requer-se prudência e responsabilidade. Mas não aconteça que o pânico e a aflição se apoderem de nós a ponto de ver no outro um inimigo de quem devemos ter medo e desconfiança. Distância física não deve trazer distanciamento social. Devemos achar novas formas de proximidade e cuidado. A crise muda totalmente o nosso convívio, mas também traz novas formas de solidariedade que já estão se introduzindo. O cientista do futuro Matias Horx acha que depois da crise nada vai ser como antes, porque o mundo em que vivemos está para se desfazer e tomar um rumo novo. Se isto é verdade, nós estamos diante de uma encruzilhada. Então, as decisões que agora tomarmos e as visões que nos guiam são decisivas para o amanhã. A presente parada da mobilidade global e a mudança radical em nossos hábitos diante das ameaças fazem a criação respirar e nos mostram, que é possível interromper a aparente falta de alternativas de nosso sistema econômico. Sim, devemos questionar o que parecia irrefutável. Nosso relacionamento com o mundo e a criação deve ser reinventada. Vivamos esta quaresma sob o sinal da crise do Coronavirus e aproveitemos a interrupção para nos perguntar o que podemos dispensar e o que é realmente importante na vida. Queremos seguir em frente como até agora? Ou temos a coragem de mudar a situação social, de interromper as evoluções atuais e mudá-las de braços dados  com aqueles que têm sofrido as conseqüências? Voltados para a Páscoa e animados pela fé que anuncia a vitória da vida sobre a morte, queremos firmar-nos nesta visão: este mundo tem capacidade de ser diferente daquele que conhecemos até agora.

O autor é presidente da MISEREOR

Tradução frei Adolfo Temme