A comunicação popular e a soberania popular

Elaine Tavares

Em Curitiba, o Centro de Formação Urbano Rural Irmã Araújo (Cefuria), mais o Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Curitiba – Sismuc, Levante Popular da Juventude, SINPAF – Floresta, Rede de Educação Cidadã – Recid, Jornal Brasil de Fato, Central Única dos Trabalhadores – CUT e Sindicato dos Empregados em Estabelecimento Bancários de Curitiba e Região cumpriram a difícil tarefa de reunir jornalistas e comunicadores populares no II Encontro de Comunicação Popular do Paraná. Esforço gigantesco num tempo em que as pessoas estão mais ocupadas em teclar no face, em vez de realizar discussões em profundidade. Ainda assim, o trabalho desse grupo aguerrido vai rendendo frutos.

O segundo encontro trouxe debates importantes como a regulação da mídia, a conjuntura das lutas sociais e as alternativas que a comunicação popular consegue apresentar em várias partes do país. Reuniu uma gente ávida de conhecimento que se dividiu em oficinas específicas, mas que também apontou o caminho árduo do estudo sistemático de textos clássicos, de autores fundadores do bom jornalismo, tais como Adelmo Genro, Antônio Olinto, Marcos Faerman, Ludovico Silva e outros, esquecidos pelas escolas e pelos colegas.

Durante a atividade pudemos conversar sobre a comunicação popular, os desafios que temos em produzir jornalismo que seja conhecimento e a necessidade de avançar para o debate de soberania, seja no ponto de vista político, econômico ou comunicacional. Apontar para o novo, dialeticamente. Segue o conteúdo da fala que fiz:

“Eu estive aqui no ano passado e disse algumas coisas que entendo sigam bem atuais. A primeira delas é que a comunicação popular/comunitária/libertadora precisa superar a posição de resistência. Avançar para o novo, ser capaz de pavimentar outra práxis. Vejamos: qual é o alcance dos nossos veículos populares na relação com os meios de comunicação de massa comerciais? Então, trinta segundos no jornal das sete horas, na TV local, conseguem fazer a cabeça de milhões de pessoas em um mesmo instante. Número esse que não atingimos com nossos espaços de comunicação popular. E ainda que fiquemos por dias e meses falando num tema nos nossos jornais comunitários, sindicais ou rádios comunitárias, o nosso discurso é quebrado sem dó nem piedade pelos meios massivos, nos mesmos 30 segundos. Sequer somos uma alternativa para a maioria da população.

Dou um exemplo simples: a ação dos black bloc. Como podemos, com nossos veículos vencer a visão ideologizada que os meios disseminam de que essa gente é “vândala”? E, se, muitas vezes, até mesmos nossos companheiros demonizam a ação desse grupo, como vamos desconstruir o discurso edificado sobre os chamados “vândalos”, ou “baderneiros” ou “bandidos”, como a mídia diz. Um discurso no qual estão também incluídos os sindicalistas, os lutadores sociais, gente como nós. Basta que a gente comece a radicalizar a luta, sair da “ordem”, do “trilho democrático”. Pois, qual a eficácia do nosso trabalho diante da violenta massificação de uma ideia só? Por isso digo que o trabalho que fazemos tem de dar um salto de qualidade. Ele é, ou deveria ser, uma outra proposta, radical e diferente da que vemos na mídia comercial. Outra lógica, outra episteme. Pavimento para outro mundo, outra sociedade. Bueno, mas como fazer? Vamos apontar algumas veredas…

Proponho a vocês agora um exercício de perguntatória. Vivemos num país capitalista, dependente. Ou seja, somos a periferia do sistema, embora em alguns setores apresentemos aparência de “primeiro mundo”. Isso é maya, ilusão. Somos dependentes. Exportamos grãos, minérios, matéria prima. Importamos tecnologia. Nossa indústria está focada em nichos bem específicos. O abismo entre as classes é imenso. Logo, somos periferia. Então: Se nossa classe dominante escolheu ser associada menor dentro do sistema capitalista, acreditam vocês que há algum interesse em “democratizar” a comunicação? E o que queremos dizer com democratização? Seria melhorar o que aí está? Dar um pouco mais de espaço para os negros, as mulheres, os homossexuais, os movimentos sociais? Isso significa que se a Globo colocar mais negros, mulheres, pessoas com deficiência, índios e sindicatos na programação, está muito bem? Que me dizem? Pensem!

A questão que ponho para debate é bastante simples: nossa luta, como comunicadores, só tem sentido se visarmos a queda do oligopólio da informação. Cada jornal sindical, cada panfleto, vídeo, rádio comunitária preciso fazer sistematicamente esse trabalho de informação sobre o que significa para um povo ser informado por um conglomerado que detém todos os meios para si. No caso do Brasil, conforme o sítio “Os donos da mídia”, são de seis a 11 grupos ou famílias que ditam as regras. Depois vem mais uns poucos milhares de subordinados que reproduzem o mesmo discurso nos seus estados ou municípios. Quase 70% dos caras que fazem as leis nesse país são donos de algum meio de comunicação. Então, tudo está ligado. Existe um grupo que manda e é esse grupo que decido o que vamos ouvir ver, ler. Isso sim é uma ditadura. Temos de ter o compromisso de denunciar a desvelar isso todos os dias. Mostrar que, sim, vez em quando esse oligopólio faz uma novela com o negro como protagonista, ou coloca um cara bonito fazendo um comunista. Mas, no final, o negro reproduz as mesmas misérias do mundo branco, rendendo-se à ordem capitalista, e o comunista, no final, se “arrepende” e vira um moço comportado. Ou seja. Não basta ter negro na TV se ele reproduzir o modo de vida do branco. Não basta ter mais índio na TV, não quando ele faz o papel de um serviçal sem voz, ou uma figura exótica como a linda Cléo Pires. Não basta ver comunistas, sindicalistas ou lutadores sociais na TV, essa grande usina ideológica, se eles acabam sempre acomodando-se à via social democrata, reproduzindo e reforçando o discurso da elite dominante. Essa “democracia” não deve ser a nossa meta.

Tem aquele conto moralista do cara que diz: não podemos dar o peixe, temos de ensinar a pescar. Pois há quem vá mais longe nesse discurso moralista. Nem dar o peixe, nem ensinar a pescar, mas, juntos, em luta coletiva, conquistar o lago. Esse é o assunto. Conquistar o lago, destruir o oligopólio.

Nesse sentido, nosso trabalho é caminhar para a conquista dos meios massivos. Isso pode parecer uma coisa meio fora da casinha, mas não é. Significa que temos de tomar a decisão, a difícil decisão de fazer uma luta mais articulada e mais arriscada. Porque às vezes, pode ficar cômodo, ficar na periferia do problema, fazendo jornal, rádio ou vídeo, financiado até por algumas fundações estrangeiras, dos mesmos países que reforçam nossa condição de dependentes. Pode parecer suficiente que distribuamos alguns jornais, gravemos alguns vídeos, contemos algumas boas histórias. Mas, isso não é suficiente. Isso apenas amansa o monstro.

Não defendo que a comunicação seja o estandarte da revolução. Defendo que os que fazem comunicação popular e comunitária sejam mais ousados no enfrentamento das lutas gerais. Fazer o trabalho de resistência, mas subir um passo na compreensão de que o que precisa mudar é o tipo de estado que temos. E isso é algo que temos de ter dentro de nós, de cada um. De verdade. Senão tudo isso vira apenas uma musculação de consciência. Aquela conversinha de “ajudar os pobres”, ou “dar voz aos que não tem voz”. Os pobres não precisam de nossa comiseração e têm sua própria voz. O que deve ser nossa ação no mundo é o compromisso com mudar, de verdade, esse estado de coisas.

E aí vamos precisar de todo mundo. Principalmente dos sindicatos e dos movimentos sociais. Também eles precisam sair do discurso de gueto e começar a dialogar de verdade com a população. Uma rádio comunitária isolada não ajuda em nada. Há que estar articulada aos que lutam para transformar o mundo. E isso significa o nosso compromisso político para além do campo comunicacional. Temos de estar envolvidos com as lutas gerais, com a proposta de mudança, com a revolução. Pois afinal, só uma viragem total muda esse mundo. A disputa que travamos é desigual daí que temos de inventar. Ou inventamos ou morremos, dizia Simón Rodríguez.

Sobre a forma de dizer as coisas

Nosso trabalho como comunicadores ou jornalistas é noticiar. Falar de tal forma que toda a gente entenda, saindo do particularismo de um fato qualquer e garantindo àquele que lê, escuta ou vê a condição de compreender a universalidade do fato, como bem ensinou Adelmo Genro Filho. Narrar as coisas de tal forma que a pessoa compreenda a atmosfera toda na qual se deu o fato. As causas, as consequências, as forças envolvidas, os detalhes, o pano de fundo. É quase como se a notícia fosse uma espécie de análise de conjuntura em miniatura. E não importa o número de linhas. Temos de ter a capacidade de construir essa universalidade mesmo num texto de 20 linhas. Esse é o desafio do jornalista que precisamos ser.

Nossa trincheira é a palavra e ela tem de ser criadora. Não adianta fazermos comunicação comunitária/popular/transformadora usando as mesmas fórmulas alienantes que tanto criticamos. É, porque não criticamos a Folha apenas por sua posição política diante dos fatos. A própria forma de narrar é um elemento importante da política. Se eu conto um fato sem dar ao leitor a chance de vê-lo na sua inteireza, não faz diferença se somos a favor dos Sem Terra ou contra. Estaremos igualmente alienando e manipulando. Nossa forma de narrar tem de garantir ao leitor a possibilidade de entender o processo. E não estou falando aqui da fórmula liberal de mostrar os dois lados. Isso não existe, de novo é maya, ilusão. Nenhum fato tem dois lados. Existem muitos lados e nós temos de ter competência para narrá-los, percorrendo os fios da realidade, oferecendo chaves para que o leitor/espectador/ouvinte possa ele mesmo tecer a grande colcha da realidade.

Para isso precisamos estudar. E eu proponho a teoria marxista do jornalismo, de Adelmo Genro Filho. Do meu ponto de vista ninguém ainda conseguiu superá-lo. Mas sugiro a vocês um estudo sobre como fazer o jornalismo que ele anuncia. Não se ele citou bem a Hegel, ou se ele entendeu ou não a Habermas. Quero que vocês se fixem na proposta de narrativa. Como escrever, como contar uma história. Ele é brilhante. Ele é o novo! Não caiam nas armadilhas acadêmicas que buscam jogar luz em pontos que não interessam a ninguém. Como narrar, como fazer de um fato singular algo que transcenda para o universal. Ah, esse é o tesão! Essa é a revolução! Esse é o desafio.

Ludovico Silva

Outro teórico que deve entrar para o rol dos interesses dos jornalistas e comunicadores sociais é Ludovico Silva, um venezuelano que compreendeu muito bem como a televisão – e os meios em geral – agem na cabeça da gente. Ele percebeu que os meios são responsáveis por produzir na gente a mais-valia ideológica. Se o trabalho mal remunerado, se a superexploração tira de nós o que Marx chamou de mais-valia (que seria, ao fim, o lucro do patrão em cima do nosso esforço, o nosso trabalho excedente não remunerado), os meios de comunicação de massa, em especial a televisão, tiram a mais-valia ideológica. Assim, ele ultrapassa o conceito de indústria cultural, trazido pela escola de Frankfurt, e avança para o que define como indústria ideológica. Como assim? Ele mostra que a pessoa que está em casa, sentada diante da televisão, supostamente fora do mundo do trabalho, descansando, na verdade, segue enredada no mesmo processo de produção que já lhe extrai mais-valia. Diante da TV, bombardeado por anúncios de produtos, por programas que ditam moda e comportamento, a pessoa está colocada diante de uma consciência ideológica, portanto falsa, completamente ligada aos interesses do capital, permanecendo assim, de certa forma, escrava ideológica da burguesia e do capital. Logo, a indústria do grande capital não produz cultura, mas sim ideologia. E a televisão explora o homem como ser humano mesmo, e não como um produtor de força de trabalho. Invade sua consciência no mais profundo.

A leitura de Ludovico é fundamental para consolidar a compreensão da realidade daquilo que é produzido pela indústria ideológica, na qual os meios de comunicação ocupam papel importante. Entendido como essa indústria atua, nosso trabalho é desconstruir esse monstro para que os trabalhadores, os oprimidos, as gentes possam também entendê-lo e, desde aí, se colocar diante do que Marx chamou de consciência de classe. Ou seja. Ter claro o seu lugar no mundo do capital. Entender porque uma pessoa tem de ser explorada enquanto outra leva o lucro.

Óbvio que isso não é coisa fácil nem trabalho só da comunicação. Há que convencer nossos compas sindicalistas que têm tantos recursos na mão, como bem lembra o Vito Gianitti, mas que acabam também reproduzindo a mesma lógica dos meios. Mesma lógica, mesma linguagem, mesmo jeito de narrar. É certo que as mudanças tem de vir lentamente, muitas vezes usando as ferramentas dos inimigos porque, afinal, é o que as gentes conhecem, mas é necessário o compromisso com a mudança, senão acabaremos presos na armadilha ideológica.

Marx definiu muito bem o que é ideologia. Ela é o falseamento da realidade, ela esconde o real. Cabe a nós essa dura tarefa de tirar o véu, desvelar, revelar. Mas só poderemos fazer isso se também compreendermos todo esse processo. A partir daí cada ação nossa será feita com intenção, no plano da consciência crítica. E não no âmbito da consciência ingênua que é aquela que move as pessoas na abstrata intenção de “fazer o bem”, “ajudar os pobres”, ” dar voz aos sem voz”. Cada ação nossa será para desvelar a realidade e anunciar o mundo novo. Precisamos atuar na lógica da pedagogia da beleza, mostrando que um mundo em equilíbrio com a natureza, com as riquezas repartidas, trabalho coletivo e o fim da exploração é possível de existir e que cabe a todos nós construir.

Assim, nossa luta não deve ser reduzida a “democratizar” o que aí está, mas avançar para uma soberania comunicacional, dentro de um estado também soberano e destituído das amarras do capital”.

Fonte: ALAINET, América Latina em Movimento