A boneca “Amiguinha”

Amiguinha em menor tmEu estava para completar três anos de idade (não me pergunte como eu me lembro…) e estava numa enorme expectativa, pois, minhas duas irmãs mais velhas ganharam a boneca “Amiguinha”da Estrela quando completaram três anos de idade – agora seria a minha vez!

Era a maior boneca da época (80 cm), praticamente do meu tamanho, dava passos quando conduzida pelos ombros, era pesada, suas pernas eram grossas, sua pele era de um plástico macio ao toque, era bochechuda, chorava quando ficava de bruços, fechava os olhos ao deitar, vinha com pente, bobbies, uma bolsinha, um vestido e sapatos muito bonitos… Um sonho…

Bem, ganhei uma linda boneca, um pouco menor (uns 15 cm), que não fechava os olhos, era moderninha, magra, não tinha o mesmo cheiro… enfim, não era a “amiguinha”…

Quando colocávamos nossas bonecas no sofá para assistirem à televisão, a minha ficava menor… diferente… minhas irmãs trocavam entre si as roupas de suas “filhas”, mas eu não podia fazer o mesmo…

Fiquei decepcionada e minha família aborrecida: Foi-me dito que aquela boneca era mais cara e mais bonita que a “amiguinha”, que era menor e diferente porque eu era menor e a única brasileira da família… mais moderninha etc…

Então, sentindo-me culpada e inadequada com minha frustração, aprendi a elogiar as qualidades de minha boneca, mostrar-me satisfeita e agradecida por tê-la e assim fui prosseguindo…

Hoje, em meu quinquagésimo terceiro ano de vida, encontrei a boneca “Amiguinha” nas Lojas Americanas por uma promoção de R$ 59,99 (Vi na internet por até R$ 800,00)!

Bem… ela não é exatamente como aquela da qual me lembro, cuja fabricação foi interrompida nos anos noventa. Na verdade, essa é uma fabricação nordestina muito bem feita e autorizada pela Estrela. Ela é a “Amiguinha” que vou curtir, fazer roupas, abraçar e arrumar seus cabelos como gostaria de ter feito no passado e, quem sabe, um presente de herança para minha neta…

O que levo dessa história:

Que crianças de três anos de idade pensam, sentem e é bom ouvi-las com atenção…

Que o mundo dá voltas: cinqüenta anos depois, tenho oportunidade de realizar um sonho que tive aos três!

Que quando não recebemos algo de alguém numa época, pode ser recebido de outra forma, em outro momento…

Que não sou egoísta ou encrenqueira porque sinto e penso diferente dos outros… posso sim, aprender a lidar melhor com as expectativas e as diversas situações de alegria e decepção para relacionar-me melhor comigo e com as pessoas ao redor…

Que o importante não é ter ou fazer, mas ser…

Que hoje, sou alguém que viveu, sentiu, pensou, aprendeu… ainda continua nesse processo de construção e pode cuidar daquela criança que queria tanto a boneca “Amiguinha”de presente…

Mey Pestana é cirurgiã-dentista (FOUSP/1983), Especialista em Aconselhamento e Psicologia Pastoral (EST/2011), Bacharel em Teologia (SBN-FACETEN/2013), Terapeuta Comunitária Integrativa (ABRATECOM/2013), Mestre em Ciências das Religiões (PPGCR-UFPB/2017). Brasileira, caçula de quatro filhos de família imigrante da Indonésia (1960). Casada há 33 anos com Álvaro Cesar Pestana, mãe de Lucas (32) e Gabriela (26). Palestrante e facilitadora de rodas de TCI em Seminários e encontros femininos em todo o país. Aprecia a fé, a arte, boas leituras e amizades.

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Todos nós temos algo marcante na nossa história quando crianças… acontecimentos, desejos, sonhos, presentes, momentos…. É importante não somente aceitar o que sentimos e vivemos, mas também acolher, muitas vezes, aquela criança que ainda carregamos dentro de nós… Esta consciência nos traz paz e serenidade para seguir adiante, mas sem esquecer o passado, mas vivendo com ele, curando-o… curando-nos.

  • Muito lindo, mãe Mey, ver que até no seu aniversário, você consegue se lembrar de coisas que outrora tristes, hoje lhe trazem motivos para celebrar e aprender…. E muito obrigada por partilhar isto conosco!!!!
    Feliz aniversário!!! Reconheço que você tem cuidado de muitas crianças dentro de adultos, nestes 53 anos!! Parabéns pelo seu bonito trabalho!!

    Beijos, sua filha fã, Gabi

  • Obrigado por partilhar dessa parte que não sabia, na verdade me lembro muita coisa provavelmente nesta faixa de idade, hoje meu colega me levou pra uma loja outlet de biscoitos e eu disse que me lembrava mamãe me mandando comprar biscoitos quebrados que ainda estavam quentinhos.
    Tudo que passamos no passado nos faz o que somos hoje, coisas boas e más, somos construidos de acordo com as imperfeições dos nossos progenitores, sãos falhas que são passadas como gens, táo profundos que formam o nosso ser. Tudo isso nos torna a pessoa que agora somos, diferentes um do outro, de uma forma ou de outra não escolhemos e somos obrigados, empurrados goela abaixo a aceitar papeis que não foi nos dada opção, sejam elas cor de pele, sexo, defeitos, acidentes, perdas.
    Uma vez, num entardecer à beira de um lago digno de um belo quadro, antes de acamparmos, papai me sgredou, em um raríssimo momento, que êle era assim porque a vida o fêz assim, e que era difícil de mudar uma pessoa formada, estava admitindo vunerabilidade, como um segrêdo super bem guardado. Agora penso como deve ser difícil viver uma vida de super-homem sabendo não ser, que trauma não poder se abrir…..com ninguém……viver um compulsório faz-de-conta.
    Você abriu com essa história uma vulnerabilidade, que na verdade agora lhe libertou.
    Parabéns mais uma vêz pela sabedoria que você adquiriu por 53 anos de vida bem vivida na luz, e luz que é a sua vida para muitos, uma árvore que faz sombra para muitos.

  • Que maravilha poder ouvir seus comentários e textos tão ricos… tão profundos…
    Obrigada, amados filha Gabriela e mano Liong!

  • Tinham três coisas que sempre quis quando criança, mas nunca tive e depois de grande comprei só pra satisfazer esse desejo de crianca. Eram: um boneco woody do filme Toy story ( o comprei em 2013 na loja da Disney de Roma), um DVD da Pequena Sereia (sempre fui apaixonado pelo filme e na época eu queria muito o vhs. O DVD o comprei em 2014 numa promoção das americanas) e un livrao com contos favoritos da disney ( lançado em 1998. Comprei online na estante virtual em 2012). O engraçado é que não uso essas coisas, mas ficam aqui no meu quarto, como uma espécie de troféu…sei lá.

  • preciso do corpo da boneca amiguinha que se deteriorou com o tempo ela tem 34 anos e essta esfarelando so o corpo onde acho por favor

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