A ausência contínua

A implantação da ausência continuada das pessoas via celular e redes sociais criou uma situação de esvaziamento das relações cara a cara. Gente com seu androide na mão, seja caminhando ou dirigindo carros ou motos, ou ainda nas lojas ou oficinas, bem como nas reuniões familiares e de amigos/as, tem ido me “acostumando” com um mundo cada vez mais meio.

Meio lá, meio cá. Na verdade mais pra lá, sabe Deus aonde, em alguma conversa virtual menos cá, onde estou eu, quase uma espécie de antiguidade viva, mas presente. Meias conversas, meia atenção. Meia pessoa. O que é isto? Ao que temos nos costumado? Eu não vou me acostumar.

Quando vejo a pessoa dividida na minha frente, fico em posição de ataque. Se ela não está, eu estou. Às meias palavras desescuto. Desrespondo. Até que a pessoa se toca, se é que se toca, e vêm pra cá, ao menos um pouco. A relação humana, tão preciosa e essencial, está por um fio.

A descomunicação tomou conta. Ontem me aconteceu numa oficina mecânica onde tinha ido para que fosse trocado o óleo do meu carro. Simplesmente me tiveram uma hora esperando para uma operação que não demora nem 15 ou 20 minutos. Estourei. Disse que ia embora, que não voltava mais lá.

E nem vou voltar, podem crer. Ainda a moça me disse que eu poderia ter dito que estava com pressa. Eu não aguentei. Você nem está falando comigo, disse eu. De fato, ela estava falando para uma tela de computador, tinha um celular na mão, e havia um carro entre nós.

Eu disse que eu não estava sendo respeitado, que eles não estavam nem aí com o que deviam fazer, e que eu ia embora. E fui embora com a certeza de que cada vez mais conta menos o único que deveria contar: a pessoa que está aqui agora conosco.