Entre o dito e o (não)feito: em busca de uma (auto)avaliação propositiva

Ao término de certos períodos – por exemplo, ao final de um ano ou de atividades existenciais de nossa movimentada agenda -, resulta oportuno nos darmos ao trabalho de um salutar (auto)reexame. Trata-se, aqui, não de um exercício de (auto)flagelação, mas de uma (auto)avaliação propositiva, que contribua frutuosamente para o nosso processo de humanização. Eis o propósito destas notas, nas quais sou o primeiro a me incluir como alvo destas considerações.

Partindo de situações concretas, no chão do dia-a-dia

Pequenos e grandes sonhos conformam parte relevante de nosso co-existir. Entre a concepção e a efetivação dos mesmos costuma interpor-se uma distância considerável. Em parte, estamos a lidar com um fenômeno do dia-a-dia bastante saudável, quando não extrapolam certos limites, pois se, de um lado, não podemos viver sem sonhos, por outro lado, não resulta saudável investirmos em sonhos demasiado descolados de nossas reais condições de alcançá-los, por extrapolarem em demasia do concreto vivido. É claro que de sonhos e utopias não devemos abrir mão – Eduardo Galeano, por exemplo, dizia que a Utopia serve para seguirmos caminhando, ainda que a linha do horizonte do almejado teime em se afastar, cada vez que damos um passo em sua direção… Mas, como tudo na vida, também aí esbarramos num limite: nossa saúde mental, alimentada por certo nível de razoabilidade. Nesse sentido, vale que nos perguntemos coisas do tipo: de nossa lista de pequenos sonhos (planos, projetos, etc.), que proporção razoável temos sido capazes de materializar? Por exemplo, no caso de planos de leituras, quantas vezes prometemos a nós mesmos, a nós mesmas fazer coisas mil, e, no entanto, (quase) nada acontece? Quantas vezes nos sucede até adquirirmos livros e mais livros, e os enfileiramos, anos a fio, nas prateleiras, tendo-os, quando muito!, mal folheado? Quantas vezes, ao recebermos mensagens com notícias empolgantes de livros, artigos, entrevistas, reportagens, vídeos, etc., que mexem conosco, e chegamos a salvá-los, às centenas, em nossos arquivos, dizendo-nos: “Depois, vou ler. Quando tiver tempo, vou conferir!” E, anos e anos depois, (quase) nada acontece… Quantas vezes – até sem necessidade, mas apenas movidos por um impulso voluntarista -, nos propomos assumir tarefas (pessoais ou grupais), e acabamos deixando-as para lá… Nada demais haveria, se com elas não nos houvéssemos comprometido, expressamente. O problema é que, uma vez tendo assumido tais tarefas, perante o grupo ou a comunidade, estes passam a alimentar, a justo título, uma expectativa a nosso respeito. E, ainda no plano estritamente pessoal, quantas vezes, planejamos algo para uma mudança desejável, e não lhe damos consequência, em prejuízo para nós e para os outros? E assim por diante. Poderíamos multiplicar, à saciedade, questões deste gênero…

Estamos lidando (bem ou mal), como se percebe, com nossos limites, ou, mais precisamente, com a relação entre os nossos limites e as nossas potencialidades. Os limites, como sabemos, fazem parte de nossa condição humana, portanto não nos devem causar estranhamentos: “Homo sum et nihil humani a me alienum puto” (“Sou um ser humano, e nada do que é humano me deve ser estanho”), dizia o Poeta latino Terêncio. Paulo Freire, por sua vez, afirmava que só enfrentamos adequadamente nossos limites, se e quando deles tomamos consciência. Mais do que apenas experimentarmos o mero inacabamento, precisamos dele tomar consciência, como primeiro passo em busca de superação dos mesmos, desde que isto se dê também no plano relacional: sozinhos, isolados, não logramos enfrentar exitosamente nossos limites.

À parte o período de infância e de adolescência, quando parece mais “natural” o mundo de sonhos e fantasias, nas fases subsequentes, somos instados a irmos colocando nossos delírios, sonhos e fantasias em seu devido lugar, isto é, buscando lidar com eles, de modo saudável, o que implica (também) um ensaio de equilibração da relação sentimento-razão. Com efeito, se no caso de um(a) adolescente, é compreensível viver tendo “o céu como limite” – aqui me vem à lembrança um lema característico da moçada de 1968, na França e alhures: “Soyez raisonnable: demandez l´impossible” (“Sejam razoáveis: peçam o impossível”) -, e dando vazão a todo tipo de devaneio, já não se faz, por outro lado, tão inteligível que um adulto siga por essas trilhas, sob pena de ter que se deparar com sucessivas frustrações, por vezes sobrando para além de quem teima seguir delirando, sem controle. Sucede, contudo, que não é bem isto que se dá. Ao contrário: numerosas são as pessoas adultas que teimam em agir como crianças e adolescentes. E contam com fascinantes apelos, principalmente por parte do Mercado capitalista, e seu paraíso consumista: “Sim, você pode!…” E haja as milagrosas receitas propagandísticas de convencimento: facilidades de cartões de crédito, política de empréstimo consignado, distribuição do valor de compra à prestação, por dez, vinte meses, sem mencionar a força persuasiva do agressivo e onipresente “marketing” capitalista…

Reexaminando nossa agenda…

Seguimos conscientes de que (auto)avaliação (ou revisão de vida, autocrítica ou que nome lhe emprestemos) não é, por si mesma, uma panaceia ou um antídoto suficiente contra todos os males. Sondando aspectos do vasto acúmulo da experiência humana, constatamos que se trata de uma via fecunda de acertos de conta consigo mesma, ontem e hoje. Buscamos seguir esta trilha, ao nosso modo, sabendo, por outro lado, que não há tampouco um receituário para se fazer (auto)avaliação. Buscamos ensaiá-la, também, ao nosso modo. Um passo nessa direção, por exemplo, pode ser o exercício de um olhar crítico de nossa própria agenda. Sem pretendermos propriamente uma análise sociológica de nossa agenda, entendemos útil tal iniciativa, em relação à qual algumas perguntas podem ajudar-nos a nos situarmos melhor, considerando que “a cabeça pensa lá onde os pés pisam”: – Ao final deste ano, o quê registra minha agenda? Qual a tendência dominante de seu movimento?

– Que atividades mais frequentes nela se acham registradas?
– Que prioridades mais destacadas daí podem ser deduzidas?
– Quais as parcerias (coletivas e pessoais) priorizadas, em nosso percurso existencial?
– Num exercício de balanço, quais os frutos mais relevantes do nosso agir, tal como refletido por meio de nossas agendas: o balanço aponta para um saldo correspondente aos esforços envidados, ao tempo e energia investidos, para a nossa realização e a dos outros?

Há um adágio italiano emblemático, a este respeito: “Trai il dire e il fare c´è di mezzo il mare” (Entre o dizer e o fazer, há no meio, o mar.”). É possível que este dito nos possa ajudar, neste esforço de revisão. Não são poucas as vezes que prometemos a nós mesmos, a nós mesmas, fazer isto e aquilo, no sentido de darmos passos concretos favoráveis ao nosso processo de humanização, e, ao cabo e ao fim, nos damos conta de que, em parte considerável, foram palavras jogadas ao vento… Por certo também se remete à condição humana. Ontem e hoje, seres humanos foram e seguem sendo limitados. Até aqui nada a contestar, até ao ponto em que, vulpinamente, alargamos de tol sorte seu alcance, ao ponto de transformá-lo em verdadeiro “álibi” a qualquer possibilidade de superação, transformando, assim, condicionamentos nossos em verdadeiros determinismos, sem a menor chance de superação. O problema, então, é que assim acabamos por transformar o que é uma tendência na condição humana em uma fatalidade, ou seja: passamos a, não apenas constatar os riscos, mas a assumi-los como algo inexorável, a que estamos inevitavelmente submetidos, passando assim de uma constatação de tendência a uma cultura (cultivo) da tendência, com a autojustificativa de que, se assim é, só nos resta render-nos a esta tendência e buscar tirar dela vantagem. Copiosos relatos de tal experiência nos induzem a concluir que o adesismo a tal arrazoado não tem resultado, em geral, em ganhos do processo de humanização.

Ensaiando passos de uma agenda propositiva

Bem longe de qualquer ideia de receituário – menos ainda, pretensamente voltado para os outros -, cuido de compartilhar algumas perguntas que, sobre o tema focado, cuido de me fazer, a partir de minha própria experiência existencial. Se as compartilho, é que não descarto sua eventual utilidade para outras pessoas. Faço-me, então, perguntas do tipo:
– Quantas vezes, entendendo a necessidade de mudar (para melhor) algumas coisas de mim, consegui levar adiante meus objetivos?
– A proporção relativa das coisas que consegui mudar em mim, julgo razoável ou muito aquém do que eu imaginava ou do meu potencial?
– Naquilo em que obtive êxito, que passos consegui dar até conseguir o desejado?
– Nas coisas que não consegui mudar em mim, a que devo atribuir o insucesso? Teria sido à desproporção entre o nível de meus limites e a complexidade do objetivo perseguidos?
– Recorrendo à voz de minha consciência e do meu discernimento, que pontos de minha agenda resultaram aquém do que estava ao meu alcance?
– O que terá pesado mais para o insucesso nesses ponto?
– E dos êxitos alcançados fazem parte os pontos de agenda que considero prioritários ou não?
– Observando e escutando relatos de experiências de outras pessoas, próximas ou menos próximas, é possível fazer algum tipo de analogia, em relação a eventuais pontos comuns e atitudes e posturas distintas?

– E examinando, também, figuras históricas de referência, bem como relatos de pessoas anônimas que marcaram pela força de seu testemunho, o que há de comum e de singular?

– O que em mim é possível assumir como aspectos urgentes de mudança, que sinto estarem ao meu alcance?
– Por onde parece melhor começar? Dando que primeiros passos, nessa direção?

São algumas das perguntas que me faço, com o propósito de ir ensaiando passos concretos,ao meu alcance. Quem sabe, ousando ensaiá-los, eu não consiga algo desejável?

João Pessoa, 20 de dezembro de 2016