I Semana Teológica Dom Fragoso: um relato em construção

dom-antonio-fragoso-fotoEm agosto deste ano, foi realizada a Relato da I Semana Teológica Dom Fragoso. Espero que este relato possa ser complementado com os de outras pessoas participantes para, assim, termos um testemunho ainda mais vivo da vida e obra de Dom Antônio Batista Fragoso.

1. ORIGEM

Com o objetivo de estabelecer um marco na caminhada da Comunidade Laranjeiras, Bairro José Américo, João Pessoa-PB, onde Dom Antônio Fragoso, Bispo emérito de Crateús, passou seus últimos 8 anos de vida, 1998 a 2006, membros daquela Comunidade decidiram, com o apoio do vigário Pe. Luiz Júnior, promover a I Semana Teológica Dom Fragoso, por ocasião dos dez anos de sua partida.

A ideia inicial era, através de uma pesquisa por amostragem, estabelecer os principais problemas que, no dia a dia, incomodavam os moradores de Laranjeiras.

A partir da realidade revelada pela pesquisa, seria organizada e programada uma semana de estudos com a finalidade de conceber um grupo de pessoas que desse continuidade ao debate e, como protagonistas, promover meios de enfrentar e procurar solução para os problemas levantados.

2. PROGRAMAÇÃO
Foi gestada, então, uma programação para I Semana Teológica Dom Fragoso, como segue:

10/08: Exibição e Discussão do Filme de Francis Vale: “Dom Fragoso”
11/08: Círculo de Cultura
12/08: Roda de Diálogo sobre Educação Popular em Dom Fragoso e sua interface com Paulo Freire e Pe. Comblin
Celebração Eucarística
13/08: Oficinas Teológicas com a seguinte temática:

1. O Povo dos Pobres com foco maior na teologia de Dom Fragoso.
Responsável: Grupo KAIRÓS (Alder Júlio)
2. Experiências pastorais com fortes traços de Dom Fragoso: o caso da experiência “O Ninho” e outras experiências Pastorais.
Responsável: Luiz Gonzaga e Ir. Ana Vigarani
3. Aproximações profético-pastorais entre Dom Fragoso e o Papa Francisco.
Responsável: Nunes Dantas e Convidado
4. Direitos Humanos como campo político de construção de cidadania e Democracia.
Responsável: Núcleo de Cidadania e Direitos Humanos NCDH (Irmã Lindalva)
5. Tráfico de Pessoas
Responsável: Escola de Fé e Política: Dom Pedro Casaldáliga
Socialização das Oficinas
Show Cultural
14/08 – Missa com todas as Comunidades paroquiais e padres convidados. Após a missa, exposição em memória de Dom Fragoso (livros, cartas, fotos…)

3. DESENVOLVIMENTO

3.1 -Após exibição do filme Dom Fragoso, de conteúdo a seguir, deu-se o debate.

– Um bispo que se identificava com o povo
– Educador de consciências
– Organização do povo: Sindicatos, CEBs…
– Brasil: Fruto de aliança espúria entre Fé e espada
– Palavra de Deus como alimento
– Papa, como delegado de Jesus, tinha poder de doar todas as terras, a quem quisesse
– Monopólio da terra continua até hoje
– Formação latifundiária radical na estrutura agrária brasileira
– As terras ainda não chegaram aos pequenos camponeses
– A Igreja deve ser dos mais fracos,
– A Diocese de Crateús esperava um bispo construtor
– Sonho: Igreja popular e libertadora, comprometida com os pobres
– Protagonismo do homem do campo
– O trabalho da equipe gerou 700 CEBs
– O povo começou a se organizar e lutar pelos Direitos Humanos
– História de um poço: Em reunião com a comunidade levantou-se o problema da água, seguindo-se o diálogo:
Bispo: Não temos água, que fazer?
Comunidade: Esperar por Deus
B – Será que Deus vem cavar um poço?
C – Não
B – Então quem vai cavar?
C – Timidamente um diz: nós, outro diz: nós, daqui a pouco todos dizem: nós.
E o poço foi cavado, dando água para todos.
Conclusão: Quem faz as conquistas, não é Deus, não é o bispo, nem o padre. É o povo.

– Muitos se afastavam da Igreja porque queriam espiritualidade e, não falar em justiça, direitos…
– Movimento do Ninho – trabalho com mulheres prostituidas, assistência médica: escândalo para a sociedade
– Anticomunismo negativo
– A natureza tem que ser respeitada (“Ela se vinga botando flores”)
– Dom Fragoso resistia a tentação de ser chefe religioso, condutor, autoritário.
– Os movimentos sociais foram crescendo, enquanto o prestígio dos partidos políticos ia diminuindo
– Experiência de produção coletiva
– Experiência de Reforma Agrária
– As comunidades vivas encontravam na Palavra de Deus a inspiração

3.2 – CÍRCULO DE CULTURA

Na noite de 11/8, aconteceu um círculo de cultura, partindo de problemas levantados em pesquisa feita na Comunidade Laranjeiras: Violência, Saúde, Políticos Enganadores…
Nessa linha, foram apresentadas influências das origens familiares na formação de Dom Fragoso e, alguns aspectos da sua atuação pastoral em Crateús.

3.2.1 – A primeira parte foi exposta por João Fragoso, como segue:

“Eu sempre me perguntei e a Dom Fragoso, o porquê de nós, os sete filhos de Maria e José, agricultores extremamente pobres, semialfabetizados, trabalhando em um pequeno pedaço de terra alheia, numa região semiárida, tomarmos tanto interesse em lutar pela prática da justiça, como fundamento do Reinado de Deus.

Era gostoso navegar com Dom Fragoso na evolução do seu pensamento, que teve como base o exemplo de nossos pais, na construção de nossa educação.

Nossos Pais – Maria e José – eram muito religiosos, ou mais precisamente, frequentavam os atos religiosos de maneira muito frequente e piedosa, mas priorizavam a prática cristã.

Lembro-me do acolhimento que minha mãe dava aos pedintes, aos deficientes físicos, aliás, suas amizades mais aproximadas eram com os excluídos. Tímida e calada por natureza, se soltava com essas pessoas, escutava suas queixas, dizia-lhes palavras de esperança, fazia-lhes um chá e, na hora da refeição, levava-os para nossa pobre mesa, partilhando o pouco que nós tínhamos.

Meu pai e minha mãe se complementavam, ele era um modelo de desprendimento. Quantas vezes eu vi meu pai dar seu único lençol para abrigar alguém do frio.

Um dia, nosso pai, trabalhava com os filhos mais velhos no roçado, a terra seca, esturricada, o céu sem nuvens, sem esperanças de chuva, ele se escorou no cabo da enxada e pensou: meus filhos aqui não terão um amanhã. À noite disse a nossa mãe: Não temos recursos, mas os filhos precisam estudar, eu vou pedir para aceitarem meus filhos de graça. Conseguiu dinheiro emprestado para a viagem, e a primeira porta a bater foi no Seminário Arquidiocesano (onde, hoje, fica o museu São Francisco em João Pessoa). Não foi fácil aceitar o menino sem pagar, mas diante da insistência de que “e se o menino tivesse vocação para o sacerdócio? De quem seria a responsabilidade diante de Deus se ele tivesse vocação e não pudesse ser ordenado padre”? O reitor do Seminário resolveu aceitar, porém, como porteiro.

Então, Antônio Fragoso foi para o Seminário, trabalhar como porteiro, aos 13 anos. Sobrava-lhe pouco tempo para os estudos, sendo sua função fazer mandados dos padres, pois nessa época, quase ninguém tinha telefone. Certo dia, não encontraram Antônio na portaria, procuraram e o acharam dormindo debaixo de uma mangueira. O Reitor, de imediato, avisou ao nosso pai que viesse buscar o filho, pois, este não tinha vocação para padre. Meu pai, ouviu primeiro Antônio, tomou conhecimento do excesso de trabalho, argumentou com seu jeito forte, e Antônio ficou no Seminário.

De outra feita, já aos 19 anos, Antônio Fragoso, tinha incontinência urinária noturna, ou seja, fazia xixi na cama. O Reitor, no seu método pedagógico, ameaçou mandá-lo para casa, mas antes testou outro recurso: o da humilhação. Quando todos os seminaristas estavam no pátio, perfilados para o almoço, lá vem Antônio, jovem de 19 anos, desfilando com o colchão na cabeça para colocá-lo no sol. Não sei se deu resultado, ou não, o que é certo é que ele resistiu e um dia o problema foi resolvido.

Ao menino Antônio, desde criança, foi ensinado que “padre, era para salvar as almas”.

Mas essa doutrina inquietava Antônio, como seminarista. E o corpo, não necessitava de salvação?

Então para que aquele empenho dos nossos pais em aliviar as dores do corpo das pessoas mais pobres, se a alma é o que importava?

Como estudante de filosofia, ele entrou em contato com outros pensadores, que foram mudando, nele, o entendimento sobre essa doutrina. Foi percebendo que alma e corpo formam uma só unidade.
Sua relação com a JOC – Juventude Operária Católica – e participação no Concílio Vaticano II, lhe deram a compreensão de que o padre é um servo de todos os seus irmãos e, portanto, lhes anima e educa na Fé (Fé aqui é entendida como adesão ao Projeto de Deus).

Dom Fragoso foi se distanciando daquela compreensão de que a Fé é uma simples crença, ou, de que vem do conhecimento, passou a entender que a fé nasce de uma convicção assumida livre e consciente.

Portanto o padre não é um condutor do povo, não é o dono da paróquia, o padre é um servidor, ele está a serviço do povo, lhes ajuda a formar a consciência, uma consciência crítico/cristã diante da realidade. A Igreja e, logicamente o padre, não podem ignorar a realidade política, econômica, ambiental em que vive a comunidade.

Vê-se então que a compreensão de que o padre é para salvar as almas, não mais se adéqua à realidade de hoje.

A JOC e o Concílio deixaram Dom Fragoso preparado para começar a grande experiência da Teologia da Libertação. Aí se deu um fato extraordinário: o sopro do Espírito promoveu em Crateús o encontro do pensamento que Dom Fragoso trazia de suas experiências na JOC e no Concílio, especialmente na convivência com os signatários do Pacto das Catacumbas, com a Equipe de agentes da Pastoral, entre outros: Pe. Eliésio, Pe. Alcides, Ir. Ana Vigarani, Ir. Ailce, Ir. Siebra, Pe. Helenio, Pe. Machado, Pe. Maurício, e aí Crateús se transformou.
Mas isso cabe ao Pe. Maurício comentar.

Voltemos àquela pergunta inicial: Por que os sete filhos de Maria e José, de maneira especial Dom Fragoso, resistiu às ameaças, perseguições no esforço de anunciar e viver a Justiça?

Dom Fragoso fazia uma leitura simples: Foi o exemplo de nossos pais. Para ele, o sentimento mais forte que falava neles, era a compaixão, compaixão como solidariedade plena ao próximo. A compaixão brotava em nossos pais de maneira fácil: Atender e se identificar com um pedinte, às vezes, e não poucas, reunir um grupo de amigos e levar um enfermo, numa rede, para confessar-se e receber a Eucaristia, a 6 ou 7 km de distância. Promover a reconciliação entre desafetos, já que a união era uma de suas metas.

Vou concluir contando, de forma jocosa, um acontecimento sobre nosso pai, conhecido em Teixeira como Zé Fragoso, que bem diz do seu alto conceito, uma espécie de recompensa pelo serviço que ele prestava:

Eu tinha 14 anos, quando comecei a namorar com uma menina de mesma idade. A mãe, ao saber, correu pressurosa a contar ao pai. Este perguntou furioso: “Quem é o rapaz? ”. “É um filho de Zé Fragoso”, disse a mãe. “Qual deles”? A mãe disse “João, o
mais novo”, então o pai arrematou: “O kba é feio que é danado, mas é filho de Zé Fragoso”.

3.2.2 – Algumas experiências pastorais na Diocese de Crateús foram comentadas pelo Pe. Maurício Cremaschi, como resposta à indagação que Dom Fragoso fazia: Houve ou não houve um processo de gestação de uma Igreja Popular e Libertadora em Crateús?

I. “De uma Igreja tradicional para uma Igreja que se diz popular libertadora”: Imaginava-se que o novo bispo seria um construtor de igrejas, de colégios, um chefe religioso, surpreenderam-se, Dom Fragoso acreditava no protagonismo dos mais fracos e, estes é que promoveriam a sua libertação. Competia a ele animar e educar na fé.
II. Uma das etapas mais importantes na caminhada da Igreja de Crateús no período de 1964 a 1998 foi a prioridade dada à criação das CEBs – Comunidades Eclesiais de Base.

a) – CEB é uma Igreja viva na base, convocada pela Palavra de Deus. Através dessa Palavra descobrem a miséria em que vivem, e Deus como “Pai e Amigo, não quer a miséria, mas que lutem contra ela. A pregação missionária que percorreu os sertões do Ceará foi compreendida pelas famílias rurais deste modo. O raciocínio que se passava a combater era aquele, tradicional nas comunidades de que ‘tudo que acontece é porque Deus quer: as crianças que morrem antes de um ano de idade, as doenças, a morte de parto das mães, a falta de terra, de trabalho e moradia, a política que explora o povo”. Isso é alienação.

b) – “Alienado é todo aquele ou aquela que transfere para o político, para o proprietário de terra, para o padre, para Deus, a capacidade criadora que Deus lhe deu de graça. A pedagogia das CEBs leva seus membros a se reapropriarem da sua capacidade criadora.

c) – Se a miséria não vem de Deus, mas da exploração dos pobres por uma classe opressora, é necessário lutar contra ela com vigor, de modo consciente e organizado, sem violência, com este amor com que Deus não quer a morte do pecador, mas que se converta e viva”.

d) – As CEBs levaram a uma percepção de que a classe opressora está articulada. É fundamental que os oprimidos também se organizem e se articulem, principalmente e através da luta sindical, que objetiva a criação de sindicatos livres e eticamente corretos.

Fiel à tradição do Evangelho, a Diocese de Crateús não procurou “sábios e inteligentes” para acompanhar e ajudar o pessoal do campo na conscientização e organização. Valeu-se de uma modesta operária francesa, integrante do Sindicato dos Trabalhadores Cristãos da França, para essa tarefa: Paulette Ripert.

Na Diocese tudo fermentava estimulado pelo sopro do Espírito. Trabalhadores camponeses, antes submissos e acomodados, tomaram consciência do seu protagonismo, se organizaram e se articularam e, de tímidos, inibidos, se soltaram enfrentando até o coronel comandante do 4º Batalhão de Engenharia e Construção, do Exército.

III. Uma Igreja comprometida com os pobres vivendo a insegurança dos pobres.

Desde o começo a Diocese de Crateús já definira o seu horizonte: ser uma igreja servidora, pobre, popular e libertadora.

Mas como viver essa prática evangélica, quando a tradição eclesial é estabelecer limites para que a mesa episcopal e paroquial fosse preservada?

Não era da essência dessa igreja particular viver materialmente bem, em meio à insegurança dos pobres.

As pessoas que se sentiram chamadas ao trabalho de evangelização renunciaram às possibilidades de ter uma vida fácil e à tentação de uma aposentadoria tranquila. Viveram como pobres entre os pobres, deixando transparecer nos seus rostos as marcas das dificuldades.

Para se ter uma ideia do contraste entre a exigência da Nunciatura Apostólica, para permitir a criação de uma diocese e a visão do bispo, basta citar o seguinte:

– A nunciatura não abria mão, para garantir a “mesa episcopal”, os seguintes bens:
– Dois terrenos, sendo um destinado à construção do seminário;
– Dois milhões de cruzeiros (moeda da época);
– Patrimônios de casa paróquia;

E também a Diocese tinha direito:

– 20% das rendas patrimoniais das paróquias;
– Uma pequena percentagem das taxas de sacramentos;
– Uma promessa de doação de 50 reses, das quais foram recebidas 30.

A maioria das Dioceses do Brasil recebiam doações de bens e muitas ajudas financeiras externas. Dentro desse horizonte, “viver como pobre a insegurança dos pobres”, o bispo fazia a distinção: ajuda fraterna e ajuda externa.

A primeira é partilha que é feita como irmãos, por irmãos. Os que podem, ajudam aos que não têm, porém, sem exigir nada, nem prestação de contas, nem relatórios, nem acompanhamento.

A segunda, e que foi dispensada pela Diocese, trata-se o financiamento de projetos. Essa forma de ajudar estava criando dependências, e, como dizia Dom Fragoso, “tornando-se uma espécie de muleta”.

3.3 – OFICINAS TEOLÓGICAS

I. Direitos Humanos

Participei da Oficina Teológica, com a presença de 9 pessoas – Vitória, Vanessa, Nazaré, Lindalva, Beatriz, Marta, Júlia, Lúcia e João Fragoso – cujo tema foi Direitos Humanos.

Em resumo, houve uma conversa em torno do seguinte:

– Por que o ser humano tem direitos inalienáveis?
Por que ele é único ser vivo que tem dignidade, o único que tem consciência, o único capaz de amar. É o único capaz de lutar por seus direitos.
Isso lhe imprime um caráter especialíssimo ao ser humano que chamamos de dignidade, por isso o direito â liberdade, à educação, à moradia, à saúde, a escolher o sistema de governo, a participar nas decisões dos poderes (executivo, legislativo e judiciário), são valores inalienáveis.
– De quem é a responsabilidade pelo que acontece na comunidade?
Chegou-se a uma conclusão de que esse assunto deve ser levantado nas comunidades, levando-se em conta que os Direitos Humanos são conquistas e, como tal, serão alcançados pela comunidade.
Como se vê, esse relato está incompleto. Aqui está o que pude captar daquilo que participei. Faltam outros eventos da programação, muito importantes.
Como seria bom que outros completassem os registros da Primeira Semana Teológica da Arquidiocese da Paraíba, conforme apurei.