30 anos sem Glauber Rocha, gladiador defunto mas intacto

Nesta 2ª feira (22) se completam o 30 anos da morte do baiano Glauber Rocha, o maior cineasta brasileiro de todos os tempos.

 

Tudo nele era trepidante, tempestuoso. Depois de realizar um filme apenas promissor sobre misticismo e consciência social (Barravento, 1962), deu um salto incrível de qualidade em apenas um ano, obtendo consagração instantânea com Deus e o Diabo na Terra do Sol, parábola delirante sobre cangaceiros e fanáticos.

 

O espanto e a admiração foram tão intensos que poucos críticos perceberam se tratar de um filme um tanto desequilibrado: a primeira parte, em que o casal de camponeses  Manoel (Geraldo Del Rey) e  Rosa (Yoná Magalhães) ingressa no rebanho do   Santo Sebastião (ersatz de Antônio Conselheiro) é muito inferior à segunda, a da passagem de ambos pelo cangaço. E não só porque o ótimo Othon Bastos deu um banho de interpretação como  Corisco, enquanto Lídio Santos (Sebastião) era amadoresco e tinha carisma zero.

 

Aliás, o  Corisco glauberiano foi o melhor cangaceiro que o cinema brasileiro criou, em mais de uma dezena de filmes. Um personagem contraditório e explosivo, ora se vendo como um instrumento de São Jorge (“o santo do povo”), ora barbarizando o sertão qual endemoniado, para vingar a morte de Lampião.

 

Outro grande acerto de Glauber foi o contraponto de  Corisco: o jagunço  Antônio das Mortes (o papel da vida do grandalhão Maurício do Valle).

 

Antônio mata cangaceiros e beatos a soldo do latifúndio, mas acredita estar desimpedindo o caminho para a libertação do povo, pois este deverá travar sua grande cruzada “sem a cegueira de Deus [Sebastião] e do diabo [Corisco]” – motivo pelo qual ele liquida os dois.

 

É o conceito que encerra o filme: a morte de  Corisco tira  Manoel da órbita messiânica do Bem e do Mal. Em fuga, ele corre e o oceano parece vir ao seu encontro, realizando a profecia de  Sebastião: “o sertão vai virar mar e o mar virar sertão”. É claro que Glauber tinha em mente os altos mares da revolução.

 

O que veio, entretanto, foi o golpe militar. E a imensa depressão causada pela derrota foi expressa/purgada na obra-prima seguinte de Glauber, Terra em Transe (1967), sobre o confronto entre o político populista  Felipe Vieira (José Lewgoy) e o direitista  Porfirio Diaz (Paulo Autran) num país fictício com todo o jeitão de Brasil, culminando numa quartelada que tem total apoio da empresa estrangeira dominante.

 

Entre os dois está colocado o poeta  Paulo Martins (Jardel Filho), representando uma intelectualidade oscilante e confusa, mas que, no momento da decisão, lança-se à luta contra o golpismo (o maquiavélico  Diaz,  evidentemente, foi inspirado no  corvo Carlos Lacerda).

 

É uma contundente autocrítica da esquerda brasileira transposta para as telas. O que se discute, basicamente, são os erros cometidos pelo Partido Comunista e o apoio oportunista a um político que não era verdadeiramente revolucionário nem estava à altura do momento histórico. Quando  Vieira evita resistir para que não seja derramado “o sangue das massas”, é João Goulart que está falando pela boca dele.

 

E, de certa forma, trata-se de um filme premonitório: o poeta não aceita a perspectiva de viver debaixo das botas e provoca a própria morte, em nome do “triunfo imortal da justiça e da beleza”. Foi mais ou menos o que fizemos nos anos seguintes, ao lançarmo-nos numa luta impossível de ser vencida — embora, claro, não nos movesse nenhuma propensão ao suicídio, mas sim a esperança de libertar nosso povo. Tínhamos  fé cega na justeza de nossos ideais, mas a faca amolada, quem a possuía era o inimigo…

 

O ciclo se fechou com O dragão da maldade contra o santo guerreiro (1968), um filme feito com a consciência de que era iminente o confronto armado entre a esquerda e a ditadura.

 

Foi uma profissão de fé na revanche histórica dos humilhados e ofendidos. 

 

Antônio das Mortes entra em parafuso, repensa o papel que vinha cumprindo e acaba se reposicionando na trincheira correta, ao lado de um professor ligeiramente inspirado no médico Che Guevara (Othon Bastos) e dos fantasmas do cangaço, de Canudos e de Palmares, todos numa santa união contra o coronelismo personificado por Jofre Soares.  Finalmente, São Jorge crava sua lança no dragão.

 

Fora das telas, entretanto, quem acabou vencendo foi a besta-fera. E Glauber, como o  Paulo Martins de Terra em Transe, não reencontrou seu caminho, nem inspiração, em meio à pasmaceira e ao medo.

 

Fez filmes repetitivos e dispensáveis, até chegar ao fundo do poço: o caótico, no mau sentido, A idade da Terra (1980), tão sem rumo no espaço que o Glauber passou quase um ano tentando montá-lo, até que, por imposição da Embrafilme, entregou qualquer coisa para exibição num festival. Comentei, então, que podíamos entrar e sair no trecho que quiséssemos, dava no mesmo…

 

Chegou até a levar seu estilo nervoso, com câmara na mão, à TV, fazendo intervenções  criativas num programa dominical do SBT. Só que, estando aquelas  ousadias meio gastas, ele foi encarado mais como atração bizarra.

 

No Festival de Brasília de 1978, o curta-metragem estava começando quando alguém começou a gritar no escuro:

– Aqui é o Glauber Rocha, falando em nome das aberturas democráticas [a “distensão lenta, gradual e progressiva” do ditador Geisel]. Vim para denunciar o maior dedo-duro da História do  Brasil, que é fulano [nominou o então presidente da Fundação Cultural do Distrito Federal].

Os espectadores o calaram com apupos e berros de “respeita o trabalho dos outros!”. Foi embora furibundo.

 

No dia seguinte, ouvi o acusado. Ele disse que o problema do Glauber era apenas não ter recebido uma subvenção com a qual contava.

 

Telefonei também ao Glauber, pedindo-lhe uma entrevista. Ele marcou para o começo da tarde, no seu hotel… e decolou para o RJ na hora do almoço.

 

Mas, todos os que curtimos intensamente o sonho de 1968 ficamos fora do eixo naquela terrível década subsequente – uns mais, outros menos.

 

Prefiro recordar o Glauber que lavou a minha alma com os três filmes que, até hoje, melhor expressaram o transe brasileiro.

 

Cai como uma luva, para ele próprio, a estrofe de Mário Faustino que Glauber encaixou em Terra em transe, como um tributo ao seu personagem que também termina como poeta suicida:

Não conseguiu firmar o nobre pacto
entre o cosmos sangrento e a alma pura.
Porém, não se dobrou perante o facto
da vitória do caos sobre a vontade
augusta de ordenar a criatura
Ao menos: luz ao sul da tempestade.
Gladiador defunto mas intacto
(Tanta violência, mas tanta ternura)

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