música
Pedro, parede e as portas abertas
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Reprodução do site oficial / www2.uol.com.br/neymatogrosso
Pedro Luis brinca com a Parede. Ney rodopia. Sentar e assistir ao ensaio de Ney Matogrosso e Pedro Luis e A Parede deveria ser um direito. Repertório no ar, a iluminação fazendo companhia e a performance puramente natural. Quem acha que lá em cima é tudo teatral talvez esteja certo quanto ao figurino, mas não às interpretações. Para quem não foi ao show, aqui está a oportunidade de prestigiar esta parceria harmônica através de nossos trejeitos e olhares curiosos expostos nessas linhas. Portanto, seja palco e luz, e usufrua do espetáculo.

Por Ana Rachel Carvalho Dantas e Paula Lima, de Fortaleza para a Revista Consciência.Net


A versão dele...
"Excêntrico" ja deixou de ser adjetivo para Ney Matogrosso. Com uma carreira única, dispensa qualquer tentativa de tradução. O fato é que, aos 60 anos, ele ultrapassa o substantivo para se tornar adjetivo. Quando se vê Ney Matogrosso no palco, a confusão gramatical se desfaz. Ele é, na realidade, arrasador. Contrariando modismos e tendências, aglomera um público fiel há mais de 30 anos e outros admiradores com menos que isso em seus shows. Imagina então quando, atrás dele, se ergue um paredão sonoro!

Vagabundo, o show que junta no palco Ney Matogrosso e Pedro Luis e a Parede, fez barulho no cenário da música brasileira, sucesso que Ney comenta com modéstia: "O impacto que causou foi o inesperado do disco. Tem um bom repertório e as pessoas gostaram". Com poucas palavras, Ney discorda da relação feita pela imprensa entre o cedê Vagabundo e o inicio de sua carreira à frente do grupo Secos & Molhados. "Não tem nada a ver, é outro trabalho. Não gostaram desse disco pelo fato de lembrarem de mim mais jovem ou dos anos 80. Gostam porque o disco é bom". Mesmo assim, não deixou de fora os hits Balada de Louco e Sangue Latino. "Foi a pedido de Pedro Luis que incluí essas musicas", explica.

Reprodução do site oficial / www2.uol.com.br/neymatogrosso

Ao lado da banda, se reveza com Pedro Luis entre protagonista e coadjuvante. A harmonia entre eles, entre percussão e violão, é total e contagiante. O rebolado, o figurino inusitado e a voz vibrante emocionam tanto quem pela primeira vez assiste ao show, quanto aos veteranos em matéria de Ney.

E a deles...
Talvez seja o som. Talvez seja a essência deles. Mas Pedro Luis e a Parede é uma construção que deu certo e que o Brasil abriu as portas para recebê-los. Depois do sucesso no Japão e na Europa com os cedês Austronauta Tupy e É tudo um real, a banda aposta na sua diversidade sonora aliada ao pop, mas, a partir de agora, de peito aberto para o grande público.

Considerado o melhor disco do ano pela Associacao Paulista de Críticos de Arte – APCA, o álbum Vagabundo é singular: unir a turma de Pedro Luis e Ney Matogrosso é interpretar espaços de tempo. Para Ferrari, integrante da banda, tudo começou simplesmente na casa de Ney, onde cada um levava um instrumento e começava a experimentar as canções, vendo como elas funcionavam.

Pedro Luis e a Parede / http://pedroluiseaparede.blogspot.com/

Para a crítica, o repertório escrito a 18 mãos foi ousado e criativo – e como! O cedê contém músicas de Martinho da Vila, Milton Nascimento, Jackson do Pandeiro, Secos & Molhados, entre outros. Uma combinação não tão provável de ser pensada. "A gente vai testando e é experimentação. É muito ensaio e não tem fórmula pronta, graças a Deus". Foi obra de alma de artista. Para equilibrar essa diversidade sem cair em um excesso, Ferrari afirma que o parâmetro é todos se sentirem bem ao tocar uma música em especial. "Os arranjos foram um pouco desenhados de início, mas depois que senta todo mundo pra tocar fica um coisa bem coletiva. Todo mundo vai dando opinião até ficar no ponto. É como fazer comida", complementa.

Ainda distante das rádios, o repertório exala e informa. Fora a cidade do Rio, onde já possui um público mais formado, a recepção do grande público ao velho-novo criou um expectativa nos integrantes da banda. "Nós mostramos agora nosso trabalho, que vem de um outro circuito, mais avancado, universitário, às vezes até alternativo, dependendo da cidade. Nos outros lugares, é bacana poder herdar um pouco essa platéia formada pelo Ney e mostrar outra sonoridade que não aquela que eles ouviriam nas rádios ou na tevê. Foi bacana e muito bem recebido", reafirma Pedro Luis.

"Quando o Pedro chama pra dançar, vem todo mundo. E a gente vê uma galera também do público da gente curtindo a onda do Ney", explica Celso, um dos integrantes da Parede. Ainda que as platéias sejam distintas, tornam-se uníssonas ao cantarem a jovialidade de Pedro Luis e a ao dançar com o "sangue latino" de Ney.

Alem de balanços, Pedro Luis e A Parede provocam reflexões sociais. Como brasileiros e artistas, acreditam que até hoje pouco foi feito para mudar o País. "Temos que continuar tentando uma forma que dê certo pra todo mundo. A tentativa é que vale, mas a bem intencionada", finaliza Ferrari.
 

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Texto de Ana Rachel Carvalho Dantas e Paula Lima, para a Revista Consciência.Net, escrito em fevereiro de 2006 e publicado em setembro do mesmo ano.

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