Um 2005 diferente
Carlos Chagas, Tribuna da Imprensa, 30 de dezembro, 2004

BRASÍLIA. Faltando um dia para o Ano Novo, pergunta-se: que surpresas 2005 nos reserva? Claro que para o presidente Lula e seus ministros, exceção dos que serão substituídos dentro de poucos dias, o futuro surge promissor. Respira-se otimismo, em Brasília, ajudado pela monumental campanha de propaganda que tenta demonstrar o crescimento econômico, o aumento das exportações, a ampliação do comércio e dos serviços, a diminuição do desemprego e a felicidade geral. Porque, afinal, apregoa o governo, "o melhor do Brasil é o brasileiro". Não há que discordar. O brasileiro tem sido mesmo o melhor, até na medida em que sofre calado, ou até sorrindo, mantém a esperança e continua acreditando em promessas.

Especular rende mais que produzir
 

Sinistroses à parte, porém, seria bom ir com cuidado. Marcar no mínimo coluna do meio, porque, se tudo der certo, teremos sido sorteados, mas, se não der, ao menos não teremos participado desse festival explícito de euforia desenfreada. Alguns nós não foram desatados em nossa realidade. Como, por exemplo, manter o otimismo sabendo que a atividade especulativa continuará a render bem mais do que a atividade produtiva?
A dívida pública ultrapassou o trilhão de reais, a dívida externa chega aos US$ 400 bilhões. Só em 2004 o Brasil destinou R$ 200 bilhões de sua riqueza para o pagamento dos juros dessas dívidas, mas, na equipe econômica, ao que se sabe, ninguém pensa em renegociá-la com os credores.
.Comprar títulos do governo é tão rentável quanto aceitar recursos predatórios de fora, daqueles que não criam um emprego nem forjam um parafuso, mas saem daqui carregando juros dos mais altos do planeta.

Como admitir o progresso de empresa trabalhando com 17,75% de juros ao mês, concorrendo com multinacional financiada por juros de 2% por sua matriz?

De que maneira ser otimista com a carga fiscal aumentada para 40%, isso para os empresários, porque para os trabalhadores é muito pior. Taxas públicas aumentaram três ou quatro vezes a inflação, sem falar nos combustíveis, ao tempo em que os salários, na imensa maioria dos casos, mantiveram-se congelados?

A dívida pública ultrapassou o trilhão de reais, a dívida externa chega aos US$ 400 bilhões. Só em 2004 o Brasil destinou R$ 200 bilhões de sua riqueza para o pagamento dos juros dessas dívidas, mas, na equipe econômica, ao que se sabe, ninguém pensa em renegociá-la com os credores.

A instabilidade no campo não deixa um só produtor rural otimista, porque suas terras podem ser invadidas de madrugada. E mais até as produtivas do que as mantidas para especulação. Do lado dos sem-terra é pior: uma bala pode encerrar a esperança de cada um, com a certeza da impunidade dos jagunços e mandantes.

Obstáculos podem ser superados

Que otimismo terá o trabalhador que não pertence a um raro e privilegiado sindicato, daquele forte e em condições de enfrentar os patrões? Manter empregos tornou-se objetivo maior até das centrais sindicais, manietadas na expectativa de obter aumentos e reajustes, exceção, vale repetir, a certas categorias.

Com que sentimento os assalariados assistem às novas tentativas das elites de suprimir os direitos sociais que sobraram do maremoto desencadeado pelo sociólogo, durante oito anos? Ninguém poderá manter o otimismo ouvindo falar da reforma trabalhista em gestação na equipe econômica, quem sabe até já decidida no Planalto? As férias remuneradas estão em vias de ser fatiadas em doze, assim como o 13º salário, ficando pior quando se sabe o que pretendem fazer com as indenizações por dispensa imotivada, ou, mais execrável, frente à substituição da Consolidação das Leis do Trabalho pela negociação entre patrões e empregados.

É claro que esses e outros obstáculos podem ser superados, desde que o presidente se disponha a cumprir suas promessas de campanha, despindo-se da blindagem neoliberal que lhe impuseram. Para isso foi eleito, apesar de haver chegado à metade de seu mandato. Talvez advenham daí os motivos para o brasileiro continuar otimista. Sem esperar milagres, disposto ao sacrifício mas diante da perspectiva de que 2005 não deve ser melhor do que 2004. Precisa ser diferente.
 

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