Fim de uma farsa
Carlos Chagas, Tribuna da Imprensa, 3 de outubro, 2004

BRASÍLIA - Uma série de mitos envolve a vida de todos nós, provavelmente desde que o primeiro macaco desceu da árvore e passou a considerar-se um troglodita, denominação naquela época equivalente a neoliberal. Andar ereto era o máximo, ilusão que fez nossos bisavôs levantarem o nariz, presumindo-se donos do próprio. 

Assim, convencionou-se que, havendo eleições, vive-se uma democracia, ou seja, passamos a detentores de todas as verdades absolutas se dispusermos do direito de votar. Não se imaginou a distorção cada vez maior e inevitável do processo, ou, ao contrário, era precisamente isso que as elites engendraram para continuar onde sempre estiveram: no gozo de seus privilégios. 

Eleição virou operação financeira

Amanhã é dia em que se comemora e se pratica esse engodo. Primeiro, porque a escolha dos chamados representantes do povo transformou-se numa operação financeira. Sem muito dinheiro, nada feito. Com as exceções de sempre, eleições transformaram-se num contrato não escrito de compra e venda, onde uma das partes aliena seu poder de decisão em troca do que imagina receber da outra que apenas mente, seja em promessas, ilusões, favores ou até dinheiro vivo. 

Tome-se a escolha dos prefeitos e vereadores. Os candidatos buscam vantagens, desde fama, riqueza ou poder. Para tanto, não hesitam transformar-se em mágicos, prometendo tirar da cartola hospitais, escolas, transporte e rodovias para quantos se dispuserem sufragá-los. 

Eleitos sob o rótulo de servidores do povo, segue-se logo a metamorfose, a exposição do que efetivamente eram e continuarão sendo: aproveitadores da ingenuidade de uns ou da malandragem de outros, porque eleitores malandros não faltam. Todos imaginam cada vez mais tirar alguma vantagem do voto, assim como, do lado de lá, encontram-se os que se beneficiarão em ser votados. 

Vai mudar o quê, na vida de cariocas, paulistanos, recifenses, belo-horizontinos e tantos outros? Absolutamente nada. Para o cidadão comum, na realidade, trata-se de um ato inócuo o sair de casa para digitar teclas que não mudarão seus anseios, frustrações, necessidades e esperanças. A sociedade permanecerá a mesma, tanto faz o regime ou o sistema em que se encontre. 

É imprescindível não voltar ao individualismo, depois de concluirmos ser um devaneio votar e aguardar passaporte para o Nirvana. Urgente é não participar da farsa encenada de tempos em tempos, onde uns falsamente prometem que vão mudar e outros fingem acreditar. Eleitores e eleitos deixam de ser detentores de um mecanismo inexistente, onde pobres e fracos supõem enquadrar ricos e poderosos, enquanto estes detêm a certeza de continuar dominando aqueles. 

2002, um dos derradeiros logros

Perguntarão os presunçosos e os humildes se existe outra forma de aprimoramento social. Responderão todos ser a barbárie a opção. Pois é. Aqui uma nova equação começa a se desenvolver. Não votar torna-se um ato de vontade mais eficaz do que votar. Tome-se o que acontece nos Estados Unidos. Menos de 40% comparecerão às urnas para escolher o seu presidente. Tanto faz quem vier a ser escolhido, a maioria desinteressa-se por trocar o seis pelo meia-dúzia. Não é preciso falar no bilhão e 200 milhões de chineses que votam por outros motivos, apenas obedecendo ordens, por simples medo de represálias.

Esse fenômeno já começou. Logo vai se estender ao asfalto o sentimento das periferias, de rejeição ao gesto meramente formal de coonestar a pantomima imposta pelas minorias. Democracia nada tem a ver com essa distorção. Para construir, será preciso destruir, primeiro. Relegar ao lixo da História métodos que só fazem multiplicar a injustiça, a subserviência, a miséria e a ilusão. 

Ocorreu em 2002 um dos derradeiros logros, quando a maioria empenhou seu futuro acreditando em mudanças. Jamais se condenará o eleito, ele também enganado pelo processo que o fez prometer mudanças fundamentais. Não conseguiu. Nem poderia, viciado que estava o processo da ascensão ao poder. 

Amanhã ainda não estaremos assistindo ao ensaio do espetáculo que um dia estará no palco: a rejeição dos mecanismos de seleção dos representantes do poder público. Eleitores continuarão formando filas na porta das seções eleitorais. 

O cidadão não espera nada. Imaginar que vota para mudar, de jeito nenhum. Logo, não votar exprimirá o fim da farsa. Quem sabe o início de outra.
 

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