O que foi feito do sindicalismo?
Carlos Chagas, Tribuna da Imprensa, 3 de setembro, 2004

Houve tempo em que o movimento sindical funcionava como instância superior de defesa da nacionalidade e da população. Era um guarda-chuva capaz de abrigar reivindicações salariais, sociais, políticas. Isso aconteceu no período militar, quando emergiram lideranças autênticas, sendo Lula sua maior expressão. Foi antes até da criação da CUT, que quando surgiu mostrou-se sólida trincheira do anseio pela volta do País à democracia.

Não se limitavam, os sindicalistas, a promover greves de suas categorias organizadas. O grito de "abaixo a ditadura!" fazia parte de um elenco maior, onde pontificava o resgate dos oprimidos pelo arrocho salarial, mesmo sem pertencer aos sindicatos.

Em suma, o sindicalismo supria a deficiência dos partidos políticos sufocados ou acomodados, liderando a sofrida resistência da OAB, da ABI, da CNBB e de outras expressões da sociedade civil injuriada.

Sindicalistas arriaram as bandeiras

Com a democratização, continuaram as centrais sindicais na defesa dos interesses mais amplos, cuidando da conquista e da ampliação de direitos específicos dos operários. Não se limitavam a reivindicar horas extras. Eram a vanguarda do social, com cuidados especiais voltados para o salário mínimo, tijolo de sustentação de todos os assalariados. Não praticavam apenas o sindicalismo de resultados, apesar de mestres na arte de negociar com os patrões.

Vieram os tempos bicudos da globalização e do neoliberalismo, então chamado de modernidade por Dom Fernando I, o Collor de Mello. Foi quando o sindicalismo começou a refluir. Com Dom Fernando II, o Henrique Cardoso, o movimento sindical mais recuou, em vez de permanecer no ataque. Em tempo de Murici, cada um cuidou de si. Terão existido motivos, entre eles o da ascensão dos partidos, com o PT e legendas de esquerda à frente, além da truculenta prevalência do modelo que minimizava o trabalho em benefício da especulação.

Os oito anos do sociólogo fizeram do sindicalismo pálida voz a clamar pela manutenção dos postos de trabalho ameaçados e substituídos pela tecnologia e pela ganância dos donos do capital. O movimento sindical bateu em retirada, chegando ao absurdo de trocar salários por emprego, tantas vezes sem sucesso.

Os bancários foram destroçados, os metalúrgicos banidos para regiões isoladas no interior, os funcionários públicos obrigados a se concentrar na batalha inglória pela preservação de suas prerrogativas. Com ou sem razão, os líderes sindicais arriaram as grandes bandeiras que tão bem vinham empunhando. Deixaram de cuidar do todo imaginando que, assim, não perderiam a parte. Foi pífia a participação das centrais sindicais diante da avalancha das privatizações criminosas.

Mesma coisa quando da supressão de direitos trabalhistas ou de monopólios essenciais à nossa soberania. Por fim, concentrado na preservação egoísta do que restava para suas categorias, mesmo enfraquecidas, o sindicalismo acabou esquecendo da massa empobrecida do salário mínimo, como se ela não fosse a base de sua estrutura.

Pensava-se que o quadro mudaria com Lula

Imaginou-se que tudo mudaria com a posse de um sindicalista na presidência. Como tudo virou de cabeça para baixo e o governo continuou neoliberal, surgiu um misto de dúvida e de esperança: pelo menos as centrais fariam aquilo que o governo deixou de fazer. Ledo engano. O resultado primeiro apareceu com as propostas de reforma previdenciária e tributária. Curvaram-se os cardeais do movimento sindical, postos diante de um papa em marcha batida para a apostasia.

Aceitaram e justificaram o desconto previdenciário obrigatório para os inativos, como aceitaram os obscenos reajustes do salário mínimo. Convencendo-se "de que é o possível", abandonaram o sonho de uma nação mais justa. Deixou de ser problema deles perceber que um trabalhador que vive com US$ 75 está na indigência, ante-sala da indignação hoje sem liderança para orientá-la.

A quem recorrerá o andar de baixo? O narcotráfico? O crime organizado? Registre-se, simplesmente, a falência das centrais sindicais, primeiro como instrumento de defesa da soberania nacional, agora como tábua de salvação dos mais humildes. Pretendendo manter-se à tona, sem protestar, os sindicalistas mergulharam nas profundezas. Acontecerá o que quando emergirem? Pelo menos, a força incoercível do terremoto popular. Porque se as centrais não representam mais a nação, nem o povo, logo surgirão outras representações.
 

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