Unidade, só a partir das bases
Carlos Chagas, Tribuna da Imprensa, 16 de março, 2004


Ao presidente Lula são atribuídas muitas opiniões, determinações e até ameaças, nos últimos dias. "O presidente proibiu seus ministros de criticarem a política econômica", dizem uns. "Um ajuste no governo, restringindo os poderes de José Dirceu, foi prometido pelo presidente, assim que baixar a poeira do escândalo Waldomiro Diniz", sustentam outros. "Lula estabeleceu prazo até julho para a política econômica dar certo", garantem estes. "A política econômica não muda até o final do ano", replicam aqueles. 

Tentam conciliar o inconciliável
Não se passam 24 horas sem os jornais destacarem o que seriam comentários e iniciativas presidenciais confidenciadas a um razoável número de interlocutores. Partindo do pressuposto de que a imprensa não inventa, apesar de superdimensionar qualquer fato, a conclusão a que se chega é de haver sido o governo transformado numa peneira. 

Tudo vaza. Uma simples expressão facial do presidente é revelada aos jornalistas como se fosse um minucioso plano de reformas e de mudanças, ou, no reverso da medalha, uma reafirmação definitiva de que nada vai mudar. 

No fundo de tudo encontra-se a grande contradição que tem gerado crises em cima de crises para diversos governos: a tentativa de se conciliar o inconciliável, ou seja, a existência de ministérios com representantes de grupos e estratégias conflitantes. Desde Juscelino Kubitschek nos acostumamos a assistir choques virulentos de concepções, das quais não escaparam sequer os generais-presidentes. De tudo fica uma lição: a unidade dos governos não acontece a partir do ápice da pirâmide, quer dizer, dos presidentes. Precisaria ser construída das bases para cima. 

A guerra dos juros
Qualquer que venha a ser a decisão do Copom, amanhã, haverá ebulição. Pelo jeito o presidente do Banco Central não pretende ver os juros reduzidos. No máximo, cederia em 0,5%. Se for assim, a equipe econômica enfrentará nova saraivada de críticas do empresariado nacional, do vice-presidente da República e dos partidos da base parlamentar governista, para não falar das oposições e das centrais sindicais. 

Henrique Meirelles insiste em que a hora de reduções drásticas não chegou e que a sombra da volta da inflação permanece a mesma. Coincidência ou não, números pessimistas surgem sempre às vésperas das reuniões do Copom, ameaçando a economia com o caos inflacionário. Logo depois, também por coincidência, essas previsões catastróficas somem para voltar um mês depois. 

A grita será geral, caso não haja redução, ou se a redução for pífia. Aqui reside o maior problema. A questão dos juros é emblemática, serve de denominador comum para todo mundo criticar a equipe econômica. Deve incomodar o presidente e até levá-lo a esperar iniciativas mais corajosas por parte de seus auxiliares. Vamos aguardar. (...)


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