Mistificações semânticas
Carlos Chagas, 01.mar.2004


De uns tempos para cá determinadas modas semânticas vêm sendo adotadas por governos empenhados em justificar mudanças inadmissíveis ou fracassos retumbantes. "Flexibilização" foi uma delas. 

Reinventado por Fernando Henrique Cardoso, de quando em quando o verbo ressurge como forma de explicar o inexplicável, como foi o caso da supressão do monopólio constitucional do petróleo, da exploração do subsolo, das privatizações e da concessão às empresas estrangeiras dos mesmos direitos concedidos às empresas brasileiras. 

"Flexibilizar" tornou-se eufemismo para ceder, entregar-se e até trair. Antes, nos tempos de José Sarney, já se havia criado o conceito de "governabilidade". 

Lula deve se cuidar com "agenda positiva"
Ministros do então presidente justificavam a própria inação ao afirmar, por exemplo, que a nova Constituição impediria a "governabilidade" de um governo em dificuldades para governar. "Força-tarefa" também constitui outro engodo. Sempre que um governo não tem condições para resolver um problema, cria uma "força-tarefa" que se encarregará de não fazer nada fingindo que faz tudo. 

"Custo-Brasil" é outro rótulo que freqüenta essa galeria de impotências: se o empresário pretende benesses e favores dos cofres públicos ou simplesmente não consegue competir, alega estar impossibilitado por conta dos impostos e taxas que o assolam. Fala do "custo-Brasil". 

"Agenda positiva" faz parte dessa relação. Quando na baixa, atropelados por crises e escândalos, certos governos buscam esconder a banda podre de suas performances através do anúncio de um elenco de realizações em vias de concretizar-se, geralmente fantasiosas, quando não mentirosas. O governo Lula precisa tomar cuidado para não mergulhar na agora adotada e repetida "agenda positiva", pretendendo afastar a sombra e os respingos do episódio Waldomiro Diniz... 

O maior de todos os esquadrões da morte
Acaba o governo dos Estados Unidos de divulgar o relatório anual das lesões aos direitos humanos no mundo. Como sempre, fomos aquinhoados. Acusações se repetem a respeito da truculência de nossas polícias, da prática de tortura em delegacias, do descaso do poder público diante das camadas miseráveis e até da existência de esquadrões da morte formados por policiais.

É claro que esses horrores existem e precisam ser enfrentados. Trata-se, porém, de um problema nosso, ou, ao menos, de denúncias que ficariam bem apenas em documentos do Vaticano. Jamais de sentenças exaradas pelos que, mais do que qualquer outra nação, agridem os direitos humanos universais. 

E nem é preciso falar dos excessos que a televisão mostra todos os dias, de negros agredidos sem mais aquela, de asiáticos acorrentados e de latino-americanos discriminados. 

Mais grave ainda é constatar que o maior esquadrão da morte do planeta encontra-se agora estacionado no Iraque, como já esteve no Vietnã, na Somália, em Kosovo, em Granada, na República Dominicana e em quantos outros lugares? Não são os soldados americanos agentes do poder público praticando horrores? Não constituem as bombas e os mísseis a maior agressão aos direitos humanos, atingindo civis inocentes, entre eles mulheres, velhos e crianças? 

O pior é que não reagimos, sequer na economia. Poderíamos criar o "risco-Estados Unidos", enquanto aceitamos calados as oscilações do "risco-Brasil"... 

Saiu na frente
Nessa história da proibição dos bingos a razão está, mesmo, com o governador Roberto Requião. Desde o primeiro dia de sua administração que ele mandou fechar os bingos em todo o Paraná. E não precisou aprovar qualquer lei estadual. Simplesmente aplicou a lei federal, existente há décadas. E não agiu assim por haver descoberto algum Waldomiro Diniz paranaense, cujas trapalhadas precisava ocultar.

A medida provisória do governo federal, suspendendo o funcionamento dos bingos, começa a ser examinada esta semana, no Congresso, prevendo-se que fure a fila e venha a ser votada antes dos prazos legais. Os principais partidos, mesmo os da oposição, aplaudiram a iniciativa do presidente Lula e mantêm-se dispostos a recomendar o voto favorável à sua aprovação. 

O diabo é que nem só os partidos funcionam no Legislativo. Embaralhando as cartas existem as bancadas especiais: dos ruralistas, dos planos de saúde, dos sindicalistas e tantas outras. 

Entre elas, a "bancada do jogo". Parece a maior de todas, integrada por deputados e senadores que se elegeram ajudados com recursos fornecidos pelas quadrilhas ligadas aos bingos, ao bicho, às maquininhas de azar, aos cassinos clandestinos e quantas atividades a mais? É bom prestar atenção nos painéis eletrônicos de votação, que revelarão quem é quem... 


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