O torneiro-mecânico virou sociólogo
Carlos Chagas, Tribuna da Imprensa
16 de fevereiro, 2004


O presidente Lula riu amarelo, dona Marisa também, num encontro com jornalistas, semana passada, mas a piada é profundamente verdadeira: numa sessão espírita, o pai-de-santo dirigiu-se a ele gritando "sai desse corpo, Fernando Henrique, sai desse corpo..."

Se há diferença entre o atual presidente e seu antecessor, está apenas na barba. Em matéria de opiniões, o torneiro-mecânico virou sociólogo.

O que chamam de reforma é regressão
Tome-se o que Lula falou da reforma trabalhista, matreiramente deixada para 2005, porque 2004 é ano de eleição. Manifestou-se favorável à flexibilização dos direitos sociais que restaram depois da tempestade desencadeada por Fernando Henrique. 

Aprova a diluição em doze parcelas do décimo-terceiro salário e das férias remuneradas, além da livre negociação entre patrões e empregados a respeito da multa de 40% estabelecida pela Constituição para as demissões imotivadas. Disse que a Consolidação das Leis do Trabalho, por ser dos anos quarenta, não presta mais.

Ora, senhor presidente, com todo o respeito, a roda tem um pouco mais de idade e nem por isso se pensou em revogá-la. Diluídos, o décimo-terceiro e as férias remuneradas desaparecerão em dois ou três anos, por conta do congelamento salarial da imensa maioria e, mais, da progressiva perda de poder aquisitivo dos salários. 

Ao sustentar que patrões e empregados devem ter liberdade para negociar direitos trabalhistas, mas jamais a participação do trabalhador nos lucros e na gestão das empresas, Lula consagrou a liberdade de negociação entre guilhotina e pescoço. 

A defesa feita por ele, de todos os detalhes da atual política econômica, igualzinha à praticada durante os oito anos de FHC, não deixa a menor dúvida: o povo comprou um, pelo voto, mas recebeu o outro... 

O partido do "sim" e o partido do "sim senhor"
Outra pérola de Luiz Inácio no encontro com jornalistas verificou-se quando de suas previsões sobre o quadro partidário. O presidente imagina que em alguns anos existirão apenas dois grandes partidos. Depois corrigiu e falou em três, mas ficou clara sua simpatia pelo bipartidarismo. Ora, isso aconteceu nos tempos do regime militar, com a imensa maioria da classe política aderindo ao partido do governo e o da oposição em dificuldades até para se formar, por falta de parlamentares. 

De uns dias para cá, vêm pipocando preocupações e até denúncias a respeito do perigo da "mexicanização" do Brasil, dada a sofreguidão com que o PT ocupa todos os espaços da administração pública e estende seus tentáculos sobre o Legislativo, o Judiciário e montes de instituições públicas e privadas. 

O sistema do partido único surge como um fantasma a amedrontar as oposições e até parte das bancadas governistas. O primeiro passo será, com certeza, o bipartidarismo, com uma legenda forte e outra fraca, esta correndo o risco de sumir, e aquela de inchar cada vez mais. 

Quem sabe daqui a alguns anos, após o segundo mandato de Lula e, quem sabe, dois de Antônio Palocci, o PT mude sua sigla. Em vez de Partido dos Trabalhadores, Partido Institucional dos Trabalhadores. Não será o PRI, mas o PIT... 

A festa da sexta-feira 13
Realizaram-se na última sexta-feira, 13, as festividades pelos 24 anos de fundação do PT. Um dia a comemorar, é certo, até lembrando o vaticínio feito por Getúlio Vargas ao tomar posse como presidente constitucional, a 31 de janeiro de 1951. Dirigindo-se à massa trabalhadora reunida em torno do Palácio Tiradentes, no Rio, onde prestara juramento, o líder trabalhista deixou incrustada na História as palavras: "Hoje, estais no governo; amanhã, sereis governo". 

O PT é governo, 24 anos depois de começar a tentar e 52 anos depois da previsão de Vargas. A pergunta que se faz é se o PT governa para os trabalhadores e com os trabalhadores. Parece que não. Muito mais beneficiados são os especuladores. 

Os credores internacionais e quantos vivem sem trabalhar, porque trabalho não é e não será, de forma alguma, enriquecer cobrando juros que drenam a riqueza nacional e o trabalho dos assalariados para fora do País ou para os cofres dos bancos. O congelamento de salários e vencimentos só não choca mais do que o aumento do desemprego. Faltam recursos para todo o tipo de obras e de ações sociais. 

Ninguém tem o direito de descrer do presidente Lula. Nem do PT. Suas promessas de campanha estão aí mesmo, conhecidas de todos, responsáveis pela eleição de 2002. Os votos são de que possam realizar o governo dos trabalhadores.


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