A nova lista da fritura
Carlos Chagas, Tribuna da Imprensa
12 de fevereiro, 2004


Em política, não há coincidências. Aceita a premissa, mesmo capaz de apresentar exceções, é bom prestar atenção nos cortes orçamentários preparados pela equipe econômica, certamente com a anuência ou até por determinação do Palácio do Planalto.

As emendas coletivas e individuais de deputados e senadores condenadas à degola, recursos que fazem parte do orçamento do governo, revelam as grandes supressões: R$ 940 milhões vão sumir do Ministério dos Transportes; R$ 800 milhões, do Ministério da Saúde; 628, do Ministério das Cidades; e 603 milhões do Ministério da Integração Nacional. Existem outros cortes nas demais pastas, mas vamos ficar nesses, os maiores, para uma conclusão no mínimo singular.

Ainda tem ministro na corda bamba
Quando da recente reforma do ministério, além dos ex-ministros arcabuzados, que outros andaram na corda bamba, tendo seus nomes examinados como passíveis de ser exonerados?

Por "coincidência", Anderson Adauto, dos Transportes, que pelo jeito não passa de abril, condenado a candidatar-se à Prefeitura de Uberaba como pretexto para deixar de ser ministro. Humberto Costa, da Saúde, que desde a crise no Instituto Nacional do Câncer é olhado de viés pelos próprios companheiros do PT; Olívio Dutra, das Cidades, que andou muito tempo na linha de tiro e conseguiu salvar-se pelas origens; e Ciro Gomes, que, apesar de sua capacidade não poder ser contestada, é uma espécie de cristão-novo não absorvido no arraial petista.

Serão eles os mais prejudicados pela tesoura de Palocci e companhia. Para cúmulo da má sorte, num período em que as enchentes exigem não a supressão, mas o repasse de verbas adicionais para enfrentarem, por exemplo: o estado ainda mais lastimável das estradas; cuidados específicos para acudir as inevitáveis doenças decorrentes dos alagamentos; investimentos excepcionais em obras de saneamento, galerias pluviais nas cidades atingidas; e, mais do que tudo, dinheiro vivo para atender as agruras da desintegração nacional que atingiu centenas de milhares de pessoas.

Renegociar dívida, de jeito nenhum
Não está havendo uma fritura bem urdida, na preparação da próxima reforma do ministério? Torna-se irrelevante saber se são justos ou injustos os reparos à ação de cada um dos citados, exceção de Ciro Gomes, com motivos mais políticos do que administrativos justificando a cobiça alheia. Mas coincidência não é, quando a gente vê os maiores sacrifícios empurrados sobre as dotações destinadas a cada um deles.

Fica para outro dia registrar que no ano passado os contingenciamentos atingiram R$ 5 bilhões orçamentários e, este ano, pretensamente do início do espetáculo de crescimento, a equipe econômica tenha querido R$ 8, contentando-se com R$ 6 bilhões.

Enquanto isso, em 2003, o Tesouro Nacional destinou R$ 147 bilhões para o pagamento dos juros da dívida pública e R$ 75 bilhões para os juros da dívida externa. Para o ano da retomada do desenvolvimento, prevê-se pelo menos 180 bilhões para a dívida pública e 95 bilhões para a dívida externa.

Dez por cento que fossem desses juros, caso renegociados, fariam a festa dos ministros citados e dos outros submetidos a cortes, mas designar um funcionário de terceiro escalão ao exterior ou à Avenida Paulista para começar a renegociar, de jeito nenhum. A hipótese contraria os postulados centrais do neoliberalismo, do consenso de Washington e de toda essa maracutaia financeira que nos assola...

Palocci lançado para 2010
O líder do PT no Senado, Tião Viana, produziu a mais inusitada notícia da semana: lançou a candidatura do ministro Antônio Palocci à presidência, para 2010. Não pode ser para 2006, é claro, porque o ano será da reeleição do presidente Lula.

Embutido no lançamento prematuro estão algumas ilações singulares, além da óbvia, de que Lula será candidato a mais um mandato. Primeiro, o de que Tião Viana acredita não apenas na preservação, mas no sucesso da atual política econômica, como forma de o Brasil sair do sufoco e retomar o crescimento. Depois, o de que ministros da Fazenda voltam a ser presidenciáveis, coisa que parecia sepultada desde os tempos de San Thiago Dantas.

Por último, a evidência de que não foram tranqüilas as relações entre a liderança do PT e a Casa Civil, em 2003. Ou José Dirceu ficará satisfeito em ser atropelado por Palocci, mesmo em longínquas projeções?

Pode parecer brincadeira, ficando a dúvida se o ministro da Fazenda já foi avisado do seu lançamento, mas vale, no reverso da medalha, lembrar o provérbio árabe de que "bebe água limpa quem chega primeiro na fonte"...


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