A tragédia dos números
Carlos Chagas, Tribuna da Imprensa, 5 de janeiro, 2004


Entre tantas promessas, estatísticas otimistas e até celebrações ilusórias feitas pelo governo para o Ano Novo, que números foram deixados pelo Ano Velho? O mais trágico deles, de existirem no Brasil 55 milhões de indigentes que sobrevivem com a metade do salário mínimo por mês, entregues a biscates e à caridade pública.

E outros: 12 milhões de desempregados da força ativa de trabalho; crescimento da economia nacional em 0,3%; dívida externa calculada em 600 bilhões de dólares; dívida pública encostando no trilhão de reais; inflação de 9,1%; perda de 16% do poder aquisitivo dos salários; reajuste salarial zero para 80% dos assalariados, pois apenas 20%, nas categorias organizadas, conseguiram equilibrar seus ganhos; 1% de reajuste nos vencimentos dos servidores públicos, com o desconto de 11% para os inativos; aumentos de 70%, em média, nas taxas e tarifas dos serviços públicos. Multiplicação permanente nos preços de gêneros alimentícios, remédios, transporte, vestuário e combustíveis.

Herança maldita pertence a FHC
Ficamos devendo, ou melhor, o Banco Central fica devendo, informar quantos bilhões de dólares foram enviados ao exterior a título de remessa de lucros, pelas multinacionais aqui estabelecidas, a começar pelas privilegiadas com as privatizações financiadas com dinheiro brasileiro. Ao Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico, da mesma forma, falta divulgar o total da inadimplência das empresas que se valeram de recursos do tesouro para apropriar-se de nossas estatais. É preciso fazer justiça, esses números não foram gerados pelo governo Lula, que acaba de completar um ano.

Vieram dos oito anos do governo Fernando Henrique. Se responsabilidade há por parte da atual administração federal, será pela continuidade dada ao modelo herdado do antecessor. Por não ter ousado mudar, cumprindo suas promessas de campanha e frustrando as expectativas gerais.

Não se condenará o governo por haver previsto 4% de inflação ou 3,75% de crescimento do PIB. Engessado pelo passado e pela obstinação da equipe econômica em manter as diretrizes que nos assolaram por dois mandatos, o presidente Lula é dos menos culpados, ainda que carregue sua parcela de culpa.

Tem mais. Os bancos, tanto os nacionais quanto os estrangeiros, lucraram perto de 100 bilhões de reais em 2003. Demonstraram mais uma vez ser a especulação atividade muito mais sólida e com lucros garantidos do que a atividade produtiva.

A riqueza concentrou-se ainda mais, beneficiando 10% da população e penalizando o restante. Os planos sociais anunciados pelo governo atingem menos de 20% dos necessitados. Nenhum investimento governamental de vulto foi feito em obras de infra-estrutura. A pergunta que se faz é sobre 2004. Mantido o modelo neoliberal, como anuncia o ministro Antônio Palocci, de que maneira imaginar a reversão, a não ser nos sonhos e na ilusão dos atuais detentores do poder?

Situa-se na dívida externa a ponta maior do fio da meada que, pelas previsões oficiais, não será puxado. Porque, e vai aí mais um número especial, pagamos perto de 100 bilhões de reais de juros e pequenas amortizações do principal, apenas para vê-la crescer. Quando Fernando Henrique Cardoso assumiu, em janeiro de 1995, era de 60 e não de 600 bilhões.

Equipe econômica foge da renegociação
Admite-se que o sociólogo não tivesse cuidado de renegociá-la senão com endividamentos em cascata junto ao FMI. Mas que o presidente Lula não tenha determinado ao ministro Palocci a designação de pelo menos um amanuense de terceiro escalão, não dá para entender. Se por hipótese limitado o ralo, ainda que não completamente fechado, teríamos condições de iniciar a reversão, mas a impressão é de que a equipe econômica foge da renegociação mais do que o capeta da cruz. O que diriam os credores, verdadeiros dirigentes de nossa política econômica, caso tivessem que receber menos em prazo maior?

Os acordos com o FMI continuam sendo acertados, mas mantidas todas as preliminares que nos assolam há décadas, até acrescidas do abominável superávit primário, que o atual governo elevou de 3,75% do PIB para 4,25% - um inequívoco crime de lesa-pátria. Gratuito, porque não exigiram. 
Fazer o quê? Acreditar nas promessas do Lula acreditamos.

Descrer delas seria trocar pela indignação a frustração que em 2003 acabou vencendo a esperança. O perigo é fechar-se o círculo e voltar o medo. Importa menos registrar que a imensa maioria da mídia ignora propositadamente os números verdadeiros da realidade nacional, concentrando-se nos prometidos algarismos fantasiosos.

Na semana que passou apenas a "Folha de S. Paulo" deu em manchete de primeira página que o crescimento nacional foi de 0,3%. Os demais jornais preferiram concentrar-se na incerta previsão de que em 2004 cresceremos 4%. Dos telejornais nem se fala.

Constituem, com raríssimas exceções, o império do devaneio, da imaginação e do sabujismo. Mais do que prisioneiros do vício de colocar-se sempre a serviço dos governos, quaisquer que sejam esses governos, nossos meios de comunicação encontram-se na pior.

Como as demais empresas nacionais, sofrem os efeitos do descalabro de um modelo econômico cruel e abjeto, obrigados a mendigar publicidade oficial e empréstimos especiais dos bancos estatais para sobreviver.

Na realidade, não há o que comemorar a respeito do ano que passou, assim como nenhuma esperança haverá para o ano que começa, caso mantido as mesmas diretrizes dos doze meses anteriores.

Piano neles!
Um juiz federal do interior do Mato Grosso redimiu parte da humilhação a que estamos sendo submetidos faz muito. Determinou que todo cidadão americano que entrar no território nacional precisará ser obrigatoriamente fotografado, registrando também suas impressões digitais em fichas da Polícia Federal. Nada mais justo, porque assim são tratados os cidadãos brasileiros que chegam aos Estados Unidos. Não os cidadãos dos países ricos da Europa. As cautelas contra o terrorismo tornaram-se mais do que necessárias, lá em cima, mas é paranóia e desdém submeter nossos viajantes a humilhação descabida. Afinal, não há um brasileiro sequer acusado de atos de terror, depois que recomeçou a escalada animalesca dos últimos anos.

O juiz ainda foi tolerante em sua sentença, que não obriga os turistas americanos a tirar os sapatos nos nossos aeroportos, para ver se não escondem explosivos na sola. Porque isso acontece nos Estados Unidos, não tendo poupado sequer o ex-chanceler Celso Lafer, no final do governo FHC. Se nenhum tribunal reformar a decisão, calcada no princípio internacional da reciprocidade, será no mínimo cômico assistir os gringos tocando piano e sujando os dedos de tinta. Especialmente se estiver programada para breve a chegada de alguma missão do Fundo Monetário Internacional...
 


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