11 anos da Primeira Retirada Israelense do Líbano. Dia da Libertação?

Hoje se completam 11 anos da retirada do exército israelense do sul do Líbano. É feriado no Líbano. Seria o Dia da Libertação a libertação do País dos Cedros e do mundo árabe?
 
A retirada israelense do território libanês, ou da maior parte dele, comprova que um dos mais poderosos exércitos do mundo, o de Israel, potência nuclear, é incapaz de dominar o mais fraco dos países árabes, o Líbano. Foi a primeira grande derrota militar israelense.
 
Ao se retirar, sem qualquer aviso prévio, em 25 de maio de 2000, Israel abandonou à própria sorte as milícias libanesas aliadas para que fossem massacradas pela resistência árabe (libanesa-sírio-palestina) anti-ocupação, liderada pelo Hizbollah, para provocar uma mini-guerra civil no sul do Líbano. Tática usada por Israel quando se retirou do Chouf, um ano após o Primeiro Massacre de Sabra e Chatila, em 1983, permitindo que milícias druzas e maronitas se matassem e provocassem o massacre e a expulsão de milhares de cristãos das Montanhas.
 
Israel invadiu o Líbano em 1982 para esmagar o movimento nacional palestino e impor um presidente cristão de exrtrema-direita no poder. A invasão foi recebida com aplausos e arroz pelos libaneses do sul, fartos dos desmandos palestinos. As tropas israelenses comandadas por Ariel Sharon, ministro da Defesa (sic), foram apoiadas por milícias libanesas maronitas (Falanges), xiitas (Amal) e druzas (Partido Socialista Progressista), além do Exército do Sul do Líbano (ESL). Em 13 de junho de 1982, Beirute tornou-se a primeira capital árabe a ser invadida e ocupada por Israel. Durante 70 dias, Israel martelou Beirute com bombas de vácuo, de fragmentação e urânio empobrecido, calcinando mais de 8 mil pessoas apenas na capital libanesa. As televisões do mundo inteiro transmitiram o arrasamento do Líbano, sem que o mundo árabe esboçasse qualquer reação. O sul do Líbano era devastado tanto pelas tropas de Sharon, quanto pelas milícias libanesa aliadas, massacrando a resistência laica, abrindo caminho para a fundação do Hizbollah, milícia xiita anti-ocupação.
 
Com o apoio das Falanges, a principal milícia das Forças Libanesas, e do ESL, Israel promoveria o massacre de Sabra e Chatila, o primeiro deles, lamentavelmente. Mais de 2 mil palestinos, libaneses xiitas e até mesmos algumas mulheres judias, esposas de refugiados palestinos, homens, mulheres, inclusive grávidas, crianças e idosos, foram exterminados. 
 
O líder do Primeiro Massacre de Sabra e Chatila, Elie Hobeicka, então chefe das Falanges, seria em menos de 3 anos depois da chacina, aliado dos “muçulmanos”. Após o fim da Guerra Civil, em 1990, Hobeicka seria ministro dos Recursos Hídricos, cargo que ocuparia até 1996, quando Israel atacou Beirute.
 
No total, a invasão israelense de 82, ao longo de 70 dias, exterminou por meio de bombardeios de saturação por mar, ar e terra, mais de 25 mil árabes (palestinos, libaneses e sírios).
 
Uma semana após o massacre de Sabra e Chatila, a resistência libanesa comandada por comunistas e nacionalistas laicos de diversas matizes iniciaram a contra-ataque, que resultou no primeiro recuo israelense, com a retirada de Beirute.
 
Hoje, uma grande parte destes comunistas resistentes à época da invasão apóia os partidos pró-EUA e pró-Israel no parlamento libanês.
 
Israel recuou para as Montanhas do Chouf, em outubro de 1982, onde permitiu que seus aliados das Falanges  e do PSP se armassem para que se destruíssem, o que ocorreu em setembro de 1983, quando se retirou da região.
 
Por força de uma nova resistência liderada pelos xiitas do Hizbollah, uma vez que os exércitos libanês, da Força de Paz Multinacional anglo-franco-ítalo-americana e de Israel desmantelaram as milícias da resistência laica, as tropas de Sharon se retiraram de Sidon, porto sul-libanês, não antes de jogarem milícias “muçulmanas” contra a população cristã, que foi massacrada (as milícias “cristãs” ultra-direitistas, por sua vez, foram poupadas pelos “muçulmanos” a ponto de se tornarem aliados).
 
Revelava-se, deste modo, que o verdadeiro plano de Israel, em 1982, era destruir o Líbano, onde inúmeras comunidades confessionais conviviam mescladas, até o momento da Guerra Civil, apesar das tensões políticas permanentes. Este plano não encontrou oposição no mundo árabe.
 
A(s) Guerra(s) (In)Civil(is) do Líbano serviria(m) de modelo para a destruição da Iugoslávia na década de 1990, e do Iraque, em 1991 e em 2003.
 
Por força do Hizbollah, com decisivo apoio sírio-palestino, mesmo após o fim oficial da Guerra Civil Libanesa, em 1990, a resistência conseguiu impedir que Israel, apoiado pelo ESL, retornasse a Beirute em 1993 e em 1996. E somente, em 25 de maio de 2000, finalmente Israel se retirava de grande parte do sul do Líbano, permanecendo sua ocupação restrita apenas nas pequenas Fazendas de Shebaa. Comprovava-se, assim, que somente pela violência, Israel é capaz de devolver territórios invadidos e ocupados. Foi uma das causas da Intifada de Al-Aqsa.
 
No verão de 2006, Israel, apoiado pela Arábia Saudita, Egito e Jordânia, tentou pela quinta vez invadir o Líbano. Novamente foi expulso pelo Hizbollah, sem não antes exterminar mais de 1.200 árabes (libaneses e palestinos).
 
Com isto, grande parte do Líbano deixou de ser ocupado por Israel para tão somente ser ocupado pelas forças de paz (sic) da ONU, composta por tropas da OTAN.
 
A destruição do Líbano (e do mundo árabe) não é mais um plano exclusivo de Israel.

Mestrando em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo (USP) e Especialista em História das Relações Internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

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