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Foto: reprodução

Será que estou ficando cético demais? Pode ser, mas não sei se devemos ficar esperançosos com essa mobilização pelas mais de 200 meninas sequestradas na Nigéria.

Na República Centro-Africana, uma crise que entra em seu segundo ano está promovendo o caos em todo o país e já deixou milhares de mortos. Atualmente, a crise só aumenta — e 28 mil crianças estão em risco de fome crônica.

No Sudão do Sul, desde dezembro passado, outras milhares foram mortas, mutiladas, violentadas, estupradas. Mais de 1 milhão de pessoas atingidas, deslocadas, desabrigadas.

Na República Democrática do Congo, uma guerra civil que já dura quase 20 anos já deixou um saldo de milhares de mulheres estupradas, com ampla impunidade e milhões de deslocados e refugiados ao longo dos anos. Os conflitos no leste do país deixaram cerca de 6 milhões de mortos e desaparecidos. É a maior guerra desde a Segunda Guerra Mundial, por isso classificada como o “holocausto africano”. Não faltariam, também nesse caso, relatos fortes de estupros e sequestros, incluindo de crianças a partir de 6 anos.

Na Síria — lembra da Síria? — a crise não está diminuindo, e o saldo é uma geração perdida de crianças mortas, e as que sobreviveram passam fome e estão sem acesso a serviços básicos de saúde, educação, saneamento. Isso inclui milhares de palestinos refugiados.

Na Palestina ocupada, o exército de Israel destrói permanentemente, há mais de 50 anos, a vida dos palestinos, por meio dos assentamentos ilegais, dos ataques bélicos, da prisão ilegal de centenas de palestinos — incluindo crianças — e do desrespeito à integridade territorial, por meio de um regime de apartheid.

Na própria Nigéria, o agora famoso Boko Haram já havia queimado dezenas de escolas, matado, escravizado e estuprado centenas de crianças. E a sociedade civil local já estava, desde antes, tentando chamar a nossa atenção.

Eu gostaria de acreditar que a mobilização atual, com participações “ilustres” como a da primeira-dama dos EUA, é uma tomada de consciência. Mas a experiência me diz que deve-se ter calma, comemorar sim uma maior visibilidade, porém avaliar se “200 meninas sequestradas” não é mais uma manchete vazia que no final gera um resmungo do tipo “que mundo de merda” e, em seguida, o próximo capítulo da novela.

Nós, seres mortais, pouco podemos fazer. Mas também não deveríamos, por causa disso, nos deixar levar por qualquer tendência midiática.

E o que os governos fazem? Na prática, quase nada. Muito pouco.

Todas as crises que acabo de mencionar possuem trabalhadores humanitários das Nações Unidas e de algumas poucas organizações não governamentais trabalhando diariamente em meio ao caos e, mesmo com a intensidade das violações de direitos humanos e das necessidades imediatas mais básicas, como comida e água, todas estas crises — todas, sem exceção — estão subfinanciadas em pelo menos 70%.

Quando uma crise é subfinanciada, os valores (não debitados) significam vidas imediatamente perdidas. É uma dura verdade.

Então, talvez seja interessante sugerirmos a pessoas como a primeira-dama dos EUA e outros milhares de “apoiadores” de peso e com influência política da campanha #BringBackOurGirls — que justamente se levanta contra o sequestro das mais de 200 meninas na Nigéria — que elas também peçam que devolvam:

1. A ajuda bilionária aos bancos por todo o mundo;

2. Os investimentos em megaeventos que retiram anualmente bilhões de dólares dos cofres públicos, em todo o mundo;

3. Os bilhões de dólares que circulam em capitais especulativos e que queimam grande parte dos investimentos por todo o mundo;

4. Todos os recursos de obras faraônicas, por todo o mundo, que poderiam ser revertidos para a ajuda ao desenvolvimento;

5. E, se não for pedir muito, o pagamento imediato de tudo o que é prometido nas conferências internacionais de desenvolvimento, que geram lindas manchetes nos jornais, mas ano após ano não passam de promessas.

Não é necessário investir esse dinheiro, sugiro também, em assistência humanitária. Eventualmente, se for o desejo destas Nações, outros usos mais efetivos estão à disposição: parcerias técnicas agrícolas para países pobres e em desenvolvimento; transferência de tecnologia para tirar os países pobres do ciclo de pobreza e subdesenvolvimento; e apoio a atividades que trazem respostas em longo prazo, como educação, saúde e infraestrutura.

Isso ajudaria mais, creio eu, do que um abaixo-assinado na Internet.